Gastos Olímpicos e as Vitórias Esportivas

Com a chegada dos Jogos Olímpicos do Rio, os gastos e investimentos com o esporte ficam cada vez mais em evidência. Mesmo tendo parte dos recursos vindos de outras fontes de renda, tais como do governo federal, estadual e do setor privado, é importante ter conhecimento dos gastos que foram e estão sendo realizados pela prefeitura motivados pela realização do evento esportivo. Além disso, é fundamental fazermos uma diferenciação entre os gastos voltados para o esporte de alto rendimento e para o esporte comunitário, podendo, assim, verificar o foco da atuação do governo. Todos os valores considerados foram deflacionados através do IPCA-E de abril de 2016.

Para realizarmos um estudo orçamentário de análise dos gastos com os grandes eventos e o esporte na cidade, foram selecionados alguns programas de governo que se referem a “obras olímpicas” e o investimento no esporte para o cidadão. Atualmente, os gastos liquidados com as grandes obras de infraestrutura e investimentos com esporte na cidade chegam quase ao patamar de R$ 10,6 bilhões, considerando o período de 2010 a 2015 (Ver Tabela 1A). Para 2016, a expectativa é de um gasto equivalente a R$ 2,2 bilhões e até o momento 62,6% desse valor já foi liquidado (Ver Tabela 2A).

Tabela 1:

Tabela 2:

O que se percebe é que a principal fonte de investimento no esporte na cidade, o programa “Desenvolvimento do Esporte e Lazer”, possui uma despesa muito inferior aos outros programas ligados a realização dos grandes eventos esportivos, tal qual, os Jogos Rio 2016. Isto demonstra que, diferentemente do que foi “prometido”, não houve maiores incentivos a prática esportiva em termos financeiros e, até o momento, pouco se sabe quais serão os reais legados que os grandes eventos deixarão para o Rio.

Esportes para quem?

É importante fazer uma diferenciação entre Desporto de Rendimento e Desporto Comunitário. O primeiro visa o esporte de alto rendimento, ou seja, atletas profissionais ou semi-profissionais que se destacam em suas modalidades. Já o segundo, se refere à prática esportiva ligada a saúde e ao desenvolvimento social. A função de um governo é desenvolver e investir no Desporto Comunitário, para que esse atinja um número de praticantes cada vez maior. Uma vez cumprido esse papel, será evidente a melhora de desempenho do esporte de alto rendimento no longo prazo. Com mais pessoas praticando o esporte, principalmente na infância e na adolescência, maiores serão as chances de alguns deles virem a se tornar atletas de alto nível.

Nesse sentido, vale o questionamento em como são listados algumas ações dentro de programas da Prefeitura. Por exemplo, o programa “Desenvolvimento do Esporte e Lazer” lista a ação “Eventos e Projetos Esportivos para o Desenvolvimento do Esporte de Alto Rendimento” como Desporto Comunitário. Se essa ação visa um grupo seleto de pessoas, ela não deveria pertencer a essa subfunção, mas sim, a Desporto de Rendimento, visto que não atende a comunidade como um todo e se encontra diretamente relacionada aos atletas que se destacam.

Uma ideia que se tinha desde antes da realização dos Jogos Pan-Americanos do Rio em 2007 era de que sediar eventos esportivos de grande porte na cidade refletiria positivamente no desempenho de longo prazo dos atletas brasileiros, além da prática esportiva dos cidadãos como um todo. Historicamente essa tese não se sustenta. Uma breve análise de desempenho baseada no quadro de medalhas dos últimos Jogos demonstra que, ao invés de melhorar, a performance do Brasil caiu de Atenas 2004 para Pequim 2008, se mantendo baixa em Londres 2012, conforme demonstrado na Tabela 3A.

Tabela 3:

De fato, houve uma melhora considerável entre os Jogos Pan-Americanos de 2003 para os de 2007 realizados no Rio. Porém, esse resultado não refletiu no desempenho em termos mundiais quando olhamos para os resultados olímpicos subsequentes. Esta melhora serve, ainda, para corroborar a ideia de que cidades e países que são sedes de grandes eventos esportivos possuem maiores incentivos para se destacarem nas competições que disputam, seja por conta de fatores externos, tais como clima conhecido, proximidade com a família e torcida, ou por uma preparação ainda mais dedicada pelo sonho de fazer a diferença em sua terra.

Considerações Finais

A expectativa da realização de grandes eventos esportivos na cidade era de que aumentassem, não somente o desempenho dos atletas brasileiros, mas, também, a prática esportiva em si, bem como o alargamento da atuação do governo em favor do esporte comunitário. Não há como mensurar com precisão se a prática esportiva no Rio aumentou ao longo desses anos, mas é nítida a diferença de gastos entre os programas de apoio ao esporte e os programas de infraestrutura para realização desses grandes eventos.

Temos um cenário de incerteza em relação ao legado olímpico, principalmente no que diz respeito à utilização dos complexos esportivos. Conhecendo o histórico do Parque Aquático Maria Lenk, construído para sediar as competições de esportes aquáticos nos Jogos Pan-Americanos de 2007, por exemplo, não temos boas perspectivas para o futuro. Em consulta ao site da Federação Aquática do Estado do Rio de Janeiro (FARJ) verificamos que em todo o calendário de 2016 não há nenhuma competição programada para ser realizada no Parque Aquático. Inclusive, nem mesmo o famoso Troféu Maria Lenk de Natação de 2016 foi realizado no Parque Aquático que recebe o seu nome. O evento ocorreu na piscina do Parque Olímpico, servindo como a última seletiva nacional em mais um dos diversos eventos-testes que a cidade está recebendo às vésperas das Olimpíadas.

FÓRUM POPULAR DO ORÇAMENTO — RJ (21 2103–0121)
Para mais informações acesse: www.facebook.com/FPO.Corecon.Rj
Coordenação: Luiz Mario Behnken, Pâmela Matos e Talita Araújo. Assistentes: Est. Ana Krishna Peixoto, Est. Bernardo Isidio e Est. Victoria de Castro.

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