Alienada

Valencia [Henri Cartier Bresson] — 1933

Mesa de bar, na calada da noite. Alguém suspira próximo da parede. Tem uma das mãos segurando a cabeça, como se enguiçada estivesse. Do outro lado do cômodo, a tevê ligada noticiava o mesmo canal de sempre, num looping acabrunhante que resseca qualquer lágrima necessária.

— basta que sejamos todos mal-amados. 
 — o que faz para banir a história da sua vida? 
 — isso já não será uma preocupação minha.
 — estava pensando em uma criatura humana…
 — morro sem deixar descendentes.
 — é um convite?
 — foi só para se esclarecer. achei que não viria a ser o caso.
 
Montava assim diálogos em frases coletadas. Às vezes sobrevoava ditos populares,como em Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Era o que queria ler, naquele momento. Mas sentia que, no fundo, lia como quem confere só e ferida, no ferro. E pasma ficava em ter inventado algo tolo.

Quis pedir um doce no balcão e o único que conseguiu comprar foi uma mar-me-la-da, bem soletrada. Assim compunha o vazio que lhe sobrava. 
 
 …
 
 A anônima estranhamente se reconhecia pelas mãos vazias.


Originally published at mydriftsmybones.blogspot.com.br on September 11, 2016.