Da série “A provação da luz”: Séraphine (Martin Provost, 2008)

Parte 3: esgarçamento

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Passado o filme, o que resta, afinal? O tempo da saudade e da imaginação; o tempo fotográfico fixador do instante; o tempo do que se quer defender. A idéia do texto a seguir é pensar o lugar do cinema a partir dos afetos. Para quem não conhece o filme, que este sirva de convite!❤

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13 anos depois, Orzt morava numa casa de dois andares, no sul da França. Dividia o espaço com sua irmã,a quem acompanhava sempre e um rapaz tuberculoso que nas horas úteis pintava. Quando ninguém estava em casa, o rapaz compartilhava a cama de Orzt, tal qual Tadzio possivelmente teria feito, na cama de Aschenbach. Tudo com o máximo de discrição para com as três empregadas francesas que cuidavam dos vários cômodos da casa. 
 
 Esse tipo de preocupação refletia na condição de vida deles, agora mais abastada. Com o cavanhaque branco, Orzt se mostra preocupado com a saúde do rapaz esguio, bem como com os rumos da autenticidade na pintura contemporânea.

Séraphine era tida como um estilhaço do passado, uma personagem que a belle époque lhe trouxe, silenciada pelas circunstâncias históricas. Ele talvez tenha aprendido que nesse ramo é necessário seguir em frente o ofício, pois a relação humana se dá pela cumplicidade e estavam cúmplices, naquele instante, o rapaz e ele.

De repente, numa dobra de jornal, descobre uma tal mostra da prefeitura com artistas locais da cidade. Naquela mesma manhã ou em dias anteriores, a sua irmã lhe havia recordado. Coincidência? A lembrança se faz oportunidade. Os olhos vão, curiosos. E ele caminha pelo espaço apertado da galeria como se estivesse atrás de algo quente. Foi então que a redescobre tal qual Fênix, mais madura no estilo. Estava claro que era ela naquela parede e que ela havia crescido em aura. Se antes havia um grau de semelhança com a natureza morta, agora havia uma diferença sutil, havia sensação. Imiscuía na forma analogias afetivas de fino púrpura, em curvas acentuadas e polens delicados. Havia substrato ali. Havia vida.

O crítico não tarda a procurá-la, no mesmo local, subindo a escada à direita, no fundo do corredor escuro, porta branca e pequena. Ao abrir a porta, ela não se surpreende, como premeditado estivesse. A santa lhe havia contado tudo! Ela comunica ter abandonado os serviços domésticos por inaptidão. Seu corpo não mais corresponde às demandas exigidas pelo senhorio. Desde aquela exposição, parece estar conseguindo viver da sua obra.

E ele a conduz ao mecenato. A partir daquele momento ela desembesta. Quer o vestido, a casa e o carro. A devoção que ela tinha pela santa era total. A filha da vizinha torna-se amiga e dama de companhia. As portas todas se abrem, tal qual se tratasse de um pacto com o divino. Interpreta o direito como uma benção, um direito para a fama e importância, usufruindo de uma necessidade que precisa então subir mais, brilhar mais, virar estrela.
 
 Mas o tempo passa. Já é 1929. Há uma crise mundial em percurso que a santa não conhece. Nesse ínterim, o rapaz adoece novamente. Orzt não consegue mais prometer a ela, logo naquele momento de ascensão! A proprietária que mora no andar de baixo, percebe que Séraphine não tem mais cantado, o que significa que não tem mais pintado. Entretanto, ela a escuta murmurando, cochichando qualquer coisa.

Num domingo qualquer, Séraphine sai vestida de noiva,a distribuir presentes a todos. Leva consigo talheres e castiçais prateados, comprados recentemente para enfeitar a sua ascensão. Já que não há tempo para ascensão, talvez quisesse retribuir àqueles que não a queriam. A cada um. Ela é assim internada num leito coletivo, por onde passa a respirar sob o testemunho de todos, inspecionada por enfermeiras e médicos de plantão.

Séraphine, estrangeira do mundo, está sendo silenciada. Há fantasma e dor por toda a parte. Durante uma noite, alguém se põe a mexer no seu cabelo. Ela grita, ameaça bater,morder e acaba sendo conduzida a uma camisa de força. Sua dor é de uma fissura tamanha, de um vazio como nunca encontrara antes e sob o qual nada é capaz de fazer.

Orzt reconhece tenta ser gentil na escolha de um quarto particular, próximo a uma janela e uma porta. Séraphine, por alguma sorte, assim que adentra o quarto, pensa na porta. E ela se abre. Lá fora, o vento a chama outra vez. A árvore enorme que antes a acompanhava em mistério e sutileza está logo ali, ao seu lado. O dia se faz branco, imensamente branco.

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para ler a parte 1, clique aqui: https://medium.com/@F_/da-s%C3%A9rie-a-prova%C3%A7%C3%A3o-da-luz-s%C3%A9raphine-martin-provost-2008-4842c3474211