Da série “O Augusto”: 2. Mosca na sopa

Unintended Piano Music
 [Cornelius Cardew]
 Works 1960–70

A melancolia lhe desce pelo pâncreas até as pupilas. Intumesce a secura de algum volume labial com a sólida amargura da solidão. E quando se cristaliza em vaidade, vira insumo estomacal, pelo qual anoitece dias na virulência dos abutres. Redondo como o mundo. Redondo, ordinário. Cadafalso moído e, por vezes, remoído.
 
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 Vitupera o glúteo com as mãos nas carnes das ave-marias e nas centenas de pais nossos. Cai mordido pela bênção do prazer inviolável , deixando escorrer tão assim o leite derramado pela pele do amanhecer, sob a promessa de que possa varrer tão logo desejar. 
 Isso a que atribui o nome de vida: um papel de bala sendo carregado pelo vento. 
 
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 Na beira da calçada, um assobio. Cercado por ambos os lados, alguém proclama a liberdade em bom tom. Ecoa longínquo o som para as profundezas do anonimato. Quem seria?
 
 Não havia ninguém pelos arredores àquela hora do dia, além daquelas vestes de amianto que nudez não conseguia deslocar. 
 
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 Um chamado. O ar espremido sai da boca queimada pelo sol, em caminhos que até a curvadura dos dedos duvidaria.
 Como se não bastasse o sopro, gesticula o mesmo sentido: leste para oeste. 
 
 Machista que dói.
 
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 Se por um acaso dissesse à sua pequena filha com os olhos do silêncio, deixaria de sair atrás do que bem machucasse. Mas o mar é vigoroso e faz das luvas garras cabeludas.
 
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 Os rolos de papel sempre estão à sua direita, plenamente encaixados aos abraços e beijos. Como se dissesse, com deboche: “o quê? a perda é humana? deixa eu ver.”, com o sorriso preto na boca, a gargalhar.
 
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 Amacia a fala ao dizer coisa ilustre. Cruza a saliva ao apontar a titulação, os números de páginas, como se aquilo fosse o suficiente para a nobreza de espírito. Um pensamento que só faz enfeitar pelo instrumento de poder e segregação. Imitação sem forma, ideia sem desenho. 
 
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 A quem o espera pelo tempo, morre na praia com os seios descobertos e o corpo retalhado em pedaços de luxúria. Choderlos de Laclos + Thénardier + Colin Evans. Circula o desejo, numa espécie de escambo estoicista. Faz preencher as faltas e repõe as falas (ainda que de maneira cronometrada).
 
 Linhas estáveis, formas desossadas: um estereótipo deambulante.

“Uma secreta luz cúmplice da obscura região de omissões e espaços brancos em que o dia a dia consiste”
 Viriato Soromenho Marques in: As rotas do amor: Notas de leitura dos Fragmentos de um discurso amoroso. p. 305.

Originally published at mydriftsmybones.blogspot.com.br on 17.7.2016