Decúbito dorsal

A título de explicação: José estava de cama desde aquela manhã por razões muito óbvias; esqueceu de tomar o remédio na noite anterior. Não havia copo algum sobre a cabeceira. E muito menos cartela de comprimido esvaziada. Esqueceu. Foi assim: deitou de bruço com a roupa no corpo e dormiu. Mas quando acordou…era como se quisesse dormir de novo, sem mais poder. Virava de um lado para outro na cama, as pernas fraquejavam, dormentes. Ao sentir que ao seu redor tudo estava frio, mais frio dizia sentir (apesar do suor trazido no rosto). Permanecer na posição anterior, causava-lhe aflição, um mal-estar que não dava trégua. Aquele corpo ontem esquecido, hoje o beliscava, dando sovas em sua cabeça de uma maneira lamentável. Sorte a dele ter Dona Filomena por perto.
 — Mena! Mena!
 Um breu absoluto, um silêncio devastador. E José agarrando o travesseiro, torcendo-o com os braços, sem saber o que fazer.
 — Mena! Mena!
 O cacarejar do galo na esquina de casa o encoleriza: 
 — Ah, se eu pego essa mulé! Esquece de vê se tomei o remédio,mas não perde uma missa!
 Puxa a gravata com a mesma força que fez torcer o travesseiro, com a diferença de que desta vez o pescoço cede. Ergue a mão para o nó e o faz querer subir.
 — Mena!!! — berra, sustentando o grito ao máximo de seu choro.
 Silêncio outra vez. Ouve-se à distância o ladrar de um cão e, mais uma vez, o cacarejar. As pálpebras, então, se retraem, em franco reconhecimento de que todo e qualquer ato é inútil. Diz baixinho, quase gemendo na última sílaba:
 — Mena…
 Não se sabe quanto tempo passou. Subitamente, apertando o travesseiro, percebe um feixe de sol cortar geometricamente a parte esquerda do rosto coberto de suor. No centro dele, um olho esbranquiçado abre-se em emoção. Os nervos do olho sobressalentes como sulcos em uma terra. Num misto de raiva e lamentação, entrega-se às sensações interioranas, com múltiplas variações fisionômicas: franzindo o cenho, comprimindo os olhos, abrindo a boca: não querendo dizer coisa alguma…senão alguns gemidos agonizantes. 
 Alguns garotos ruidosos passam rente à janela do quarto, incitando o ladrar dos cães. José abre a boca e provém meros espasmos de som. Sem forças. Os lábios já secos. 
 Vira para o outro lado, com os olhos bem abertos ao que lhe acontece, em pronta espera. Começa a lembrar de quando construiu a casa há 50 anos, com a ajuda de seu pai: um presente de casamento. 
 Uma lembrança tão velha quanto a morte. Será a própria lhe rondando? 
 A voz de seu Joaquim se torna audível. Talvez cumprimentasse alguém, na parte que cabe a ele o dia. Pena José não poder participar da mesma luta. A luta de José agora é outra. 
 O telefone. Olha o telefone preto, na sala minúscula, ao lado da bíblia aberta. Mas o corpo não entende, amarrotado como a roupa! Vira e revira, o que sabe fazer.
 Na ponta da cama. Se pudesse sentar ao menos naquele instante! Faz força, chegando a bufar pelas narinas, para erguer um ângulo a menos. Mas volta ao sentido inicial, mais cansado e inútil do que antes.
 Se não bastasse, uma mosca pousa em sua testa. As várias patinhas deslizando por toda a extensão qual fosse uma terra de ninguém, bagaços reduzidos a um tempo amorfo. José esforça por uma segunda vez e quase chega à metade. De repente, ouve um som quase tão vago quanto os seus dias. Um molho de chaves sendo largado num móvel da sala e algo como uma voz feminina. 
 — Fia, minha fia!
 José esperava, impacientemente. Imaginava-a cumprindo com aquele antigo ritual de manias, indo ao banheiro, bebendo um copo de água, futucando a geladeira em busca de qualquer sobra e depois…depois a ida ao telefone, próximo à porta do quarto onde se encontrava,onde permanecia por quase uma hora até Dona Filomena reclamar.
 Uma pequena brecha de luz passava pela porta. Pena tê-la quase encostado ao entrar. Pena também estar agora tão acordado como poucas vezes antes estivera.
 Esticava o braço a fim de abri-la um pouco mais. Os dedos estendidos, trêmulos de puro desejo. 
 — Fia! Vêm cá! É o papai! É o papai! 
 E lembrou quando a colocava sentada sobre uma das pernas quando queria falar algo importante. Naquela perna que agora não lhe obedecia mais.
 Silêncio.
 O telefone está no mesmo lugar de antes, intocável.
 Pássaros trilam harmoniosamente ao som de uma goteira vagarosa. 
 
 Dona Filomena põe o pesado fone no gancho e ao abrir a porta do quarto, o encontra naquele estado, todo encolhido tal qual um feto murcho. Acolhe-o nos braços. Lágrimas escorrem pelo rosto de José. O Cristo de Filomena encostou-se, por fim.


Originally published at mydriftsmybones.blogspot.com.br on March 21, 2014.