Ebúrnea
Subia as mãos para cima da cabeça, levando consigo um punhado de cabelo. Com três voltas fazia um coque, expondo o liso do pescoço ao frio que a amordaçava. Depois colocava os cotovelos em cima da mesa e agia, como se saltasse. Tinha que ser precisa naquilo que oferecia. E isso não por profissionalismo. Mas para evitar o risco de cair em tédio. Não, o tédio não poderia lhe possuir de novo, a ponto de recatá-la numa cama 3x4 de insônia e espera.
No entanto, o silêncio a fazia bocejar alto e em bom som. Estava cansada daquele constante arrumar de malas, das viagens imperdíveis por países desconhecidos, da paz em formato de liberdade.
Há de se convir que tinha traços de grande formosura, que conhecia a harmonia e a ambição por perto. Mas aquilo por si só não bastava. Precisava enturpir-se de cigarros e punk rock, para que pudesse dizer de uma hora para a outra, baixinho: “de que adianta tudo isso?”.
Certa vez confessou diante do espelho um segredo. Ao apalpar as bochechas rosadas com a mão suave, observou que as unhas deixavam marcas na pele por alguns segundos. Unhas que faziam doer uma careta no rosto, os lábios de vermelho natural em posição oscular. Ela percebeu o quanto era ridícula e boba. E que a bobeira a salvava de coisa mais grave.
