Pomar

O galho [Marc Chagall] 1976

Quando a frutinha amadure_ce, a casca intume_ce de frescor palpitante, como se atingisse uma temperatura ideal, um equilíbrio bem aquilatado. Presa ao galho, sua raiz perfaz-se de sedimentos. A camada assentada, por dentro, engessa o esqueleto do caule, por onde florzinhas compactas aquiescem em mundo líquido. A camada assentada, dos foras, estala irrompendo sinais quase nunca entendidos no mar de quem sente. Pinica, sacoleja, sem escapatória. A casa é da casca, somente. A mão que aproxima não basta só de palma. Aquela altura no quase madura, não cai. Está transverjando à cor do sol. As falanges mudam tudo, no encaixe perfeito. Dispostos, fruta e mão, o olho segue o contorno, zelando pela mão que só sabe conhecer memórias: a do corpo-inteiro. A mão sem o fruto dentro de si não pega fruto. O momento da carne na carne é, por isso, precioso, naquele acasalar de desejo e esperança: a fruta, para não cair podre; a mão, para não cair de fome. Juntos, floreScem.

“To see, to catch, to be” [John Banville] in ‘Athena’ p. 228


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