Francisco

É, Clara. Agora somos eu e você. Tenho que te contar: Francisco se foi. Sei que você sabe e está sentindo isso. Seus miados me mostram. Suas brincadeiras mudaram e a gente está ainda mais grudadas. Mas vou te contar, também, que essa dor compartilho com você. Que susto, não foi? Francisco batia maior papo com a gente. Ele sempre estava na porta pra me receber e receber quem aqui chegava, enquanto você, receosa, esperava o momento certo para se aproximar. Sim, igualzinha a mim. A gente sabe disso. Ele, nosso gordinho faminto, barrigudo, que só parava de miar quando eu deitava com no chão pra morder aquela pancinha peluda. Era nossa rotina.

Te ensinou a beber água na pia, só quando ele deixava, quando não deitava dentro dela, ocupando o espaço. Quando ouvia seus miados, ele logo aparecia pra ver se você estava bem. Dono do troninho da sala. Gato mais charmoso que já vi. Adorava a janela, que pedia para abrir toda manhã para ficar olhando os carros passando lá embaixo. Barulho de plástico? O danado tinha essa fissura por plástico. Mas a gente avisava ele que não podia, né Clara. Aquela casinha que comprei pra vocês, só ele dormia nela. Não te deixava entrar. Mas você, com todo o seu amor e carinho, não se importava. Ali era lugar do seu irmão.

Francisco

Clara, sei que a saudade é enorme. Nossa! Só hoje, depois de algumas semanas, consigo entrar em contato e lidar com isso. Tento escrever esse texto pra você sem chorar, mas desde as primeiras palavras estou aqui, ao seu lado, soluçando. Dói muito, não é? Eu sei que dói para você também. Mas, olha, Clara, me contaram um segredo que vou compartilhar com você: Francisco viveu muito feliz ao nosso lado e, em algum lugar ele está com a gente. Contaram até que ele pode voltar e, já te aviso: a gente vai aceitar com todo amor e carinho se isso acontecer.

Nossa rotina mudou, Clara. E, nesse sentido, agora somos só nós. Mas a gente sabe que ele ainda está aqui. Falo dele todos os dias contigo, né? Quando saio e deixo o seu petisco, a gente se lembra dele, que devorava tudo muito antes de você, aquele safado. As vezes, parece até que ouvimos aquele miado de menino mimado. É assim que a gente está aprendendo, juntas, a viver sem a presença dele. A transformar essa dor em uma lembrança boa. Nas melhores que podemos ter. E só são boas lembranças, não é?

Clara, por agora somos nós, mas a gente é forte, né? Eu, você e Francisco somos uma família. E a ausência dele não fará que deixemos ser.

Sim, Francisco se foi. E as vezes preciso me manter repetindo isso para cair a ficha, porque foi tudo muito rápido.

Hey, bichinha. Tô aqui, tá bem? Eu, você, e nosso amor profundo e para sempre pelo nosso Francisco. ❤