As noites vermelhas são mais frias (ou sobre o fim do mundo)

Tenho a impressão que Deus vive pensando em acabar com o mundo. Se eu fosse Deus, eu teria constantemente esse desejo. A humanidade não deu certo. Não é segredo pra ninguém. Essa impressão se intensifica enquanto me abraço tentando me aquecer e olho o céu, de madrugada, em um tom avermelhado inexplicável. A sensação é que naquele segundo Deus soprou o sol. Resquícios de suas chamas iluminam um céu frio, espasmos do sol em contrição a iminente extinção. Deus terminaria com o mundo assim. Nada de dramas, meteoros, tsunamis, incêndios, e essa coisa de filmes norte-americanos. Muito menos terceirizaria a responsabilidade com uma invasão alienígena qualquer. Ele simplesmente apagaria o sol. Como um aniversariante cansado do pique, pique, hora, hora, hora. Como quem não disfarça o descontentamento por ainda ter fôlego para mais. Nos espantaríamos ao ver que certa estava a música de axé dos anos 90 e não as milhares de teses de cientistas renomados de várias nacionalidades. “Veja só, hoje o sol não apareceu”. Seria simples assim. A razão vive se escondendo de nós. E ainda em sono, sem notar os oito minutos que nos restavam de luz, morreríamos. Sem a chance de últimos desejos, obscenidades, gulas, contravenções e declarações de amor. Egocêntricos que somos jamais pensamos que Deus não estaria disposto a nos dar esse último capricho se fomos capazes de levá-lo a nos extinguir. As noites vermelhas são as mais frias. Eu tenho certeza que são nelas que Deus desiste da gente, que apaga o que nos aquece, que chora seu fracasso, que cansa. Passeia os olhos sobre nós como todo pai passeia um dia os olhos pelo filho dormindo e pensando no quanto abriu mão para estar ali. Todo filho nasce ingrato e a justiça está em todos sermos filhos. O que nos salva é exatamente essa compaixão noturna. A vulnerabilidade do sono, a cumplicidade do escuro, a sinceridade da solidão. Deus nos redime porque é nessa hora que nos despimos de nossa empáfia, do falso controle e dormimos, sonhamos, oramos, choramos, confessamos, conversamos com nós mesmos sem mentiras, sem fugas, sem consolo. E como um pai que se compadece da coberta jogado ao chão, de toda desproteção do corpo encolhido e do tremor, esquece do quanto já doou e doa um pouco mais. Reconforta o filho na cama. Reacende o sol. Por isso os dias que se sucedem as noites de céu vermelho são bonitas e ensolaradas. É um amor que renasce, que insiste em renascer… Só de pensar na extinção.

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