(Projeto “Uma foto, um texto” – Me marque em uma foto do instagram e eu lhe devolvo um texto sobre ela. Foto: @blogdodourado

Texto:

“O que me entristece é que a carne mais barata do mercado continua sendo a mesma e não a carne fraca”. Penso isso enquanto ainda sinto o gosto bom de hortelã do último beijo da minha mulher misturado com o cheiro de tutti frutti dos meus três filhos. Parece até aquela música do Chico que minha mãe vivia ouvindo no rádio de pilha enquanto fazia o almoço. As canções do Chico Buarque sempre dizem mais sobre quem as vive ou escuta do que sobre o próprio compositor. Eu tenho certeza disso pois duvido que o Chico Buarque se levantou algum dia antes das 6h. As feministas é que não entenderam isso muito bem. Tudo bem, eu também não entendo elas. Dizem que isso é preconceito, mas eu não entendo mesmo muita coisa e nem por isso quero extingui-las do planeta. Eu só deixo elas lá. Existindo. E viro a cabeça feito um cachorro confuso diante de palavras que não me dizem nada. Eu não sei se isso é preconceito. Tomara que não. Dizem que o preconceito mata pessoas. Jamais mataria alguém, nem mesmo um desses nossos políticos corruptos, mas não quero pensar nisso agora. Eu vi essa história do Chico em uma nota do jornal entregue de graça na esquina. Foi um dia em que fiquei feliz das mulheres terem um vagão só pra elas. Não sei se por respeito, piedade ou só pra achar aquela discussão chata pra caralho. Afinal, não dá sequer para virar a cabeça aqui feito um cachorro buscando compreensão. Penso nisso enquanto o corpo suado do cidadão da frente invade meu espaço pessoal e íntimo sem qualquer pudor ou possibilidade de recuo ou reclamação. Essa coisa de espaço pessoal e íntimo eu li em algum lugar, acho que no Facebook da estagiária da firma, com uma charge bem ilustrada que parecia ser engraçada e eu sem nenhum senso crítico ou de dignidade para esboçar um sorriso. O escárnio é luxo que não tenho, ninguém aqui nesse vagão tem. O escárnio é um luxo dos privilegiados. A discussão de um espaço meu inviolável vai além de qualquer compreensão de vida. Tudo em mim é violável: sou preto, pobre e trabalhador. Isso pra mim é utopia. Utopia é uma palavra que aprendi no trem, o velhinho sentado na cadeira prioritária preenchia os quadradinhos calmamente enquanto eu tentava me encaixar em um espaço inexistente em que minhas letras e peles e carne e ossos e corpo inteiro e indissociável não cabiam. Invejei aquelas letrinhas com um espaço demarcado só delas. Deve ser isso o tal espaço pessoal. Me contorci por cima da cadeira dele a tempo de ler a definição de ideal de justiça e sociedade inatingível. Utopia. Que casava direitinho com o U do Trump, o tal presidente dos Estados Unidos. Esse aí eu ouço sempre falar na TV, dizem que o cara é meio maluco, eu também seria com tanto poder. Se quando o meu chefe falta eu já me sinto à vontade para colocar o pé na mesa e repetir o café quantas vezes meu estômago pedir, imagina sendo um cara que manda no país mais importante do mundo? Dizem que ele tinha que ter mais responsabilidade e que tem uma porrada de coisas ruins voltando por causa dele, tipo o aquecimento global e o nazismo e essa coisa toda dos brancos serem superiores. Eu acho que as coisas não voltam, elas só se ocultam entre mãos que não tocam propositalmente as minhas no trem – e se tocam revelam uma expressão de nojo – e um maluco que usa um chapéu esquisito e tochas para berrar que quer que eu e meus familiares morram. O tal Trump deve ter dado coragem para isso, mas não quer dizer que eles não. estiveram sempre lá, aqui, aí. Esconder uma coisa não quer dizer que ela não exista. Sei disso porque sempre escondi que moro na favela pra arrumar emprego e nem por isso meu barraco foi parar no Leblon. Penso nisso enquanto minha mão dói pelo tempo segurando a barra para não cair, não dá pra trocar de braço, não tem como me movimentar e não posso deixar de segurar, embora o corpo do outro me ampare, eu só confio em mim mesmo. Deve ser psicológico. Essas coisas de psicologia explicam muitas coisas. Deve ser bacana entender disso e justificar todas as ações das pessoas. Isso aí me parece meio impossível porque a diferença entre o que a gente fala e o que a gente pensa só cabe a nós e no meio de tudo isso tem o que se sente, que nem a nós cabe. Eu mesmo sempre minto para a psicóloga da empresa. Eu preciso do dinheiro. Imagina se alguém lesse meus pensamentos agora? Você tá doido. Iam saber que eu acho o time do Flamengo atual uma merda e que acho essa coisa de tolerância de gênero suspeita pra cacete. Homem é homem, mulher é mulher. Não foi pra isso que separaram a porra do vagão? Daqui a pouco vai ter tanta diversidade que vai ter um vagão pra cada pessoa, tipo as letrinhas da palavra cruzada. Isso aí ia ser foda, até estou começando a gostar da ideia, nunca tinha pensado nisso. O sonhado espaço pessoal. Foda. Vagões estilizados e culturalmente conscientes, porque agora um não pode usar e viver a cultura do outro também, tem um nome pomposo, peraí, eu vou lembrar: apropriação cultural. Ouvi isso de uma vizinha que trabalha em uma ONG e xingou a Anitta por causa de umas trancinhas e tal. Eu vi a foto, só achei bonita e gostosa como sempre. Uma mulher daquela, bicho. Graças a Deus os ingleses não meteram essa quando o Brasil resolveu se apaixonar pelo futebol. Já imaginou levarem a bola que era coisa deles? Nem brinca. Como eu ia esquecer meus problemas por duas horas seguidas sem interrupções duas vezes por semana? Eu querendo esquecer meus problemas e o mundo criando mais. Umas discussões sem pé, nem cabeça. Discutem muito e não resolvem nada. Ou acham que resolvem enquanto estou aqui pensando um monte de coisas para não viver com a real intensidade esse aperto insensível e desumano. Isso acaba com a gente. Uma briga interminável de direita e esquerda e eu sem poder olhar pra frente. Eu tenho que olhar pro chão, pro teto, pro nada, pra não encarar desconhecidos nos olhos sem permissão física e emocional para fazê-lo. O constrangimento da existência. Sempre um e todos desejando que o outro não estivesse ali. A vida seria mais fácil. Mas, só uma letrinha não forma a palavra. Sem dois ou mais, nem utopia existe. Só uma letrinha é mera onomatopeia de alguma sensação indecifrável que passará imperfectível pela solidão. Deu até vontade de olhar o cara da frente nos olhos agora. Que coisa estranha. Não, não vou, vai que ele não entende, ache que sou viado e seja um desses caras que a gente vê no noticiário que enfiam a lâmpada e a mão na cara de quem é diferente. Não é todo mundo que deixa as coisas que não entende existindo. Se querem bater até no Chico. No momento sou uma onomatopeia de medo. Uma letra imersa em várias outras, sem criar palavra, texto, contexto, sentido, um grito mudo, uma multidão. Penso isso enquanto percebo que o gosto bom de hortelã do beijo da minha mulher sumiu. Restou um gosto muito amargo e uma vontade de cuspir. Não sei de onde veio. Mas eu engulo e seguro, não tenho espaço.

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