Meu perrengue olímpico

São quase seis da manhã de domingo, a Olimpíada do Rio acaba hoje e eu acabei de me dar conta que preciso contar sobre quinta logo, senão perde a validade.

Vim pro Rio no último sábado. Em princípio, a viagem foi pra ver o atletismo no dia 13, mas decidi ficar pra trabalhar, porque me disseram que era possível fazer nestes dias o dobro, talvez o triplo do normal, em corridas.

Não foi bem assim, mas isso é outra história. O que acontece é que aqui, como em SP (e em qualquer lugar, imagino), as corridas vão se emendando, tão diversas e tão malucas que parecem escritas num roteiro. Por isso, escrevo.

Então, vamos à quinta. Não lembro bem como, fui parar numa dessas ruas residenciais em Laranjeiras, uma ladeira cheia de paralelepípedos, estreita e certamente muito antiga.

Aceitei uma corrida e entraram três moleques de uns vinte anos, no máximo. Iam pra uma festa na zona portuária, então lá fomos nós.

Os dois que estavam no banco de trás tirando sarros homéricos do que estava na frente. Ele, marrento e falador como só um moleque bêbado consegue, não entendia bem, dava corda, dizia um monte de asneiras e os outros não largavam do pé dele. Eu tentava não rir, mas tava difícil.

Lá pelas tantas, passamos ao lado da Central do Brasil, e o querido programa de GPS nos fez cair num lugar que nem eles sabiam qual era.

(rápido parêntese: o programa de GPS no Rio devia chamar Toddynho, porque ele adora te enfiar numa aventura. Não tem uma vez que eu venha pra cá que ele não me faça dar um rolê na comunidade do Jacaré)

Enfim, de repente estávamos numa rua estreita. Que foi apertando, apertando e subindo, até virar uma ladeira íngreme, de paralelepípedos, onde mal cabia um carro.

Depois descobri que era o Morro da Providência, e nem pra voltar dava. Dezenas de outros motoristas estavam ali, formando um comboio que subia as vielas devagarinho, todos ali graças ao Toddynho (e ao pessoal da Prefeitura que estava nas ruas próximas fechando vários acessos pra competição de triatlo do dia seguinte)

Os moleques, claramente de classe média bem alta, começaram a se apavorar. Um deles disse que o pai o rastreava pelo GPS do celular, e que ia se ferrar se ele visse naquele momento.

De repente, ao fazer uma curva pra direita, o carro da frente parou, eu parei e PLAU, o de trás parou. Depois de me dar uma pancada na traseira. Desci pra olhar, aparentemente tudo bem, ali não era lugar pra discutir, seguimos.

Aí descobrimos que a viela que descia pro lado certo do morro estava fechada, acabamos descendo do lado errado e parando na mesma rua onde a subida tinha começado.

Tentei dar várias voltas e nada de cair do lado certo. Acabei deixando os meninos numa rua próxima e fui embora pra Zona Sul.

Na corrida seguinte, entraram duas mulheres que iam pra Lapa. E estava tudo tranquilo, a gente conversando normalmente e quase no fim da viagem, uma delas vira e solta a pérola.

“Ai, olha lá a sem vergonhice, não consigo achar isso normal”

“O quê?”

“Aqueles rapazes de mão dada, olha que horror”

(silêncio)

“Você não acha, moço?”

“Não, acho normal. A vida é deles, ué”

Pra quê? A moça quis discutir, e eu na maior educação, tentei dizer que se duas pessoas se gostam, ninguém tem nada com isso. E ela perdendo a calma. Até que a amiga falou que era melhor elas descerem ali mesmo. Concordei, abraço.

Na sequência, levei uns gringos, possivelmente jamaicanos, até Copacabana. Eles desceram e entrou um casal. Aí foi foda. Acho que a avó dela tinha acabado de morrer, fui leva-los pro hospital lá na Zona Norte. Foi uma corrida bem triste.

Pra encerrar a noite, fui até o Leblon, buscar a tia de uma amiga, que ia até o aeroporto. Chegando lá, estacionei e tentei abrir o porta-mala com a alavanca interna. Nada.

Saí do carro, usei a chave e nada. A tampa não abria, puxei um pouco e ela veio. Aí coloquei a mala da passageira e… Fuen, a tampa agora não fechava..

A batida na traseira tinha afundado um pouquinho o para choque e dado uma zoada no trinco. O resultado foi que eu fui e voltei do aeroporto com a tampa aberta, puto da vida e pensando em quanto tempo o conserto ia levar. Foi um leve desespero.

Por fim, voltei pra casa da minha prima, em Botafogo, onde estava (muito bem) hospedado, e mal consegui dormir de pura ansiedade.

No dia seguinte, levei num chaveiro ali do lado, eles deram um jeito e o carro ficou quase novo. Acabou dando certo, mas o perrengue olímpico foi daqueles de não esquecer nunca mais

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