fontes free: quanto custa o grátis?

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Dizem que de graça até injeção na testa, certo? Errado, a não ser que estejamos falando de um tratamento de Botox e não de tipografia.

Este é um assunto recorrente em grupos de discussão: fontes free, e porque diversos (type)designers têm implicância com o site DaFont.com, um portal muito procurado por estudantes e profissionais de primeira viagem para download de tipos gratuitos. Antes de sair clicando após ler a palavra ‘gratuito’ leia o artigo até o final: é pro seu bem, acredite.

Em sala de aula — diante de alguns inevitáveis acidentes de trabalho — costumo perguntar ao aluno: ‘você encontrou esse tipo naquele site DaFont, não foi?’ A resposta quase sempre é afirmativa e vem junto daquela cara de ‘ops’. Esse momento ‘ops’ é uma das lições mais penetrantes do ensino da tipografia, e o aluno sempre fica incrível pelo fato de geralmente eu acertar a origem da fonte: ‘é pelo cheiro’ — eu brinco… :-)

Sempre que possível oriento o pessoal a evitar o DaFont, em função da grande quantidade de projetos sem qualidade que são distribuídos no portal. São tipos que, na maioria das vezes, estão sendo oferecidos gratuitamente por não ter valor comercial — o que é uma ressalva importante se você estiver de fato preocupado com a qualidade do seu portfólio. Fontes inacabadas, espaçamento precário, acentos mal desenhados ou inexistentes, letras com acabamento vetorial ruim, caracteres com proporções inadequadas, arquivos problemáticos, adaptações suspeitas de desenhos tradicionais e toda sorte de intempéries gráficas que podem arruinar um projeto. Como os estudantes ainda estão aprendendo o que significa e como se constitui a qualidade de um projeto tipográfico, é preferível que busquem outras plataformas de distribuição onde o nível das fontes é atestadamente maior — e assim aumentem suas chances de acerto. É uma recomendação estatística, nada mais que isso.

Costumo indicar o site FontSquirrel.com (que já tem mais de 1.000 fontes de uso comercial ‘free’) e comento que, hipoteticamente, a razão entre bons projetos no DaFont e no FontSquirrel é inversa em 90/10. Ou seja: cerca de 90% dos projetos no FontSquirrel tem qualidade, enquanto no DaFont essa proporção é de apenas 10% — e vice versa. Imagino que essa proporção seja um pouco exagerada, mas em período de aprendizado considero esse exagero um alerta valioso. E tem dado certo, diga-se de passagem. O simples fato de estar recomendando outro site de fontes gratuitas por uma questão de qualidade já faz com que o estudante pense mais a respeito. Ele vai revisitar o DaFont com outro olhar, e assim passará a analisar comparativamente as duas (ou mais) ferramentas que tem à sua disposição por critérios mais consistentes. Sei que no fundo nem todos fazem isso, mas se meia dúzia fizer eu já justifiquei o meu salário.

Com o passar do tempo, o site FontSquirrel tem se tornado uma importante plataforma para o exercício da profissão, não só por permitir que estudantes e profissionais tenham acesso a bons projetos tipográficos sem custo, como fazendo com que toda a comunidade reflita sobre questões relacionadas à qualidade, licenciamento, ética profissional e empreendedorismo digital. A maioria dos projetos oferecidos no portal é viabilizada sem custo como parte de alguma estratégia de divulgação ou financiamento alternativo, demonstrando outras maneiras de se operar no mercado além do varejo de fontes digitais. E a principal lição, na minha opinião, é: não é porque o serviço ou produto é gratuito que não deve funcionar bem e respeitar todos os requisitos técnicos de um bom projeto. Um bom designer tem um pacto insolúvel com a qualidade, em qualquer circunstância e configuração de sua atuação profissional.

Alguns projetos impressionam pelo desempenho, e tornaram seus autores rapidamente reconhecidos no meio; outros te deixam na vontade, e lá vai você atrás de novas variantes para um uso mais complexo. Como não morrer de amor pelo site do Esquilo? ❤

Vale lembrar apenas que uma boa fonte não resolve sozinha um projeto, seja ela gratuita ou muito bem paga. Você pode assaltar as velhinhas do seu bairro e gastar todo o dinheiro num tipo com pedigree, mas se usá-lo mal a sensação de potencial desperdiçado talvez ainda piore a percepção do trabalho (e vai deixar o criador da fonte louco de raiva, rs…). Encontrar um bom projeto tipográfico é obviamente um bom começo, mas saber escolher um tipo adequado e aproveita-lo ao máximo envolve questões que vão muito além de curvas e relações métricas. Por mais que os tarados dos type designers te enganem assim, lembre-se: na maioria dos casos, a tipografia é um meio, e não um fim em si mesmo.

Para concluir, diria que até o DaFont tem sua utilidade: afinal, para aprender o que é bom você precisa muitas vezes reconhecer o que não é — e assim consolidar o que consideramos ser a qualidade na tipografia. Use o DaFont com moderação, mas vê se capricha também na cara de ‘ops’ quando chegar sua vez. E não diga que não avisei… ;-)

Fabio Lopez
04.17

(adaptado de artigo publicado originalmente no site IdeaFixa, em 2011)

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