#ENTREVISTA 02 – Victor Rodrigues

Victor Rodrigues existe para aprender, ensinar e criar ou cria, ensina e aprende para existir. O universo do escritor, poeta, educador e produtor cultural pode ser percebido em suas publicações: Praga de Poeta (Vol I), Sinceros Insultos (Vol II), Aprender Menino (Vol III), Versos Para Aumentar o Mundo ou em saraus Brasil afora, salas de aula, e em projetos como o Praga de Poeta e Projeto Livrar (este últmo ligado ao VVAR e ao rapper Mc Marechal).

Abaixo você confere a entrevista exclusiva com o artista:

Fale sobre você e seu trabalho:

Eu sou poeta, escritor e educador. Produtor cultural com o Projeto Praga também, às vezes por necessidade, às vezes por gosto. Mas poeta e escritor por definição, o resto é desdobramento. Escrevo, leio e estudo sobre isso diariamente, é meio jeito de estar no mundo. E daí o que faço a partir disso vem como consequência. Sou educador porque falo sobre estar no mundo desse jeito nas oficinas, nas palestras, nas formações, porque acredito no criar da mente, no lúdico, no inventar outros mundos. Na “arte pra não morrer da verdade”, como já foi dito por aí. Tenho trabalhado em uma série de projetos, tanto projetos de publicação quanto de ação. Tem o Projeto Praga que citei, onde colo pelas escolas com essas oficinas e formações em poesia e literatura independente, tem o projeto de vídeos trazendo o lance audiovisual pra essa linguagem com a literatura falada. Tenho focado basicamente nisso. E principalmente no processo do meu livro, que deve sair ainda em 2016, venho trabalhando nele há 3 anos e tô na fase final agora.

Você tem uma rotina de trabalho?

Tenho sim, preciso ter. Ainda que uma rotina caótica em alguns momentos. Mas preciso de uma organização mínima pra sobreviver. Já tem o caos do mundo, mais o caos da mente, se juntar com o caos de trabalho, aí sou engolido. Escolhi romper com o mercado de trabalho formal pra encarar trabalhar por conta, e trabalhando por conta nisso que falei: como poeta, educador e produtor cultural. É praticamente uma declaração de guerra à sociedade atual. Nessas horas a organização ajuda.

Minha rotina depende dos projetos em execução. Atualmente, por exemplo, me divido entre quatro coisas, basicamente: o Projeto Praga, com as formações e saraus nas escolas; o projeto de expansão da literatura com os vídeos e o Projeto Livrar; o processo do meu livro e a rotina de estudos, que envolve assuntos em empreendedorismo, as pesquisas do livro, a leitura rotineira, escuta de discos e os estudos em spoken word.

Daí pra organizar tudo isso procuro fazer a gestão de tempo da melhor forma. Estabeleço uma agenda de compromissos pra saber quais dias tenho cheios, quais dias tenho livres e quais dias tenho parcialmente livres. Em cima disso, faço um planejamento semana a semana conforme as prioridades e prazos, estabelecendo as metas pra nada se atropelar e poder render. E daí tem um último planejamento que é diário, pego a semana e separo as tarefas dia por dia, junto às tarefas rotineiras, pra ver o que dá pra aproveitar de tempo, de deslocamento, de trabalho em casa e assim ir alinhando uma coisa com a outra. Procuro também sempre o tempo de descanso e principalmente de lazer entre isso tudo, que é combustível pra essa rotina. Tento construir o modo de trabalho que acredito e que me faça bem. Tendo essa organização, assim fico sabendo quando é que cabe uma reorganização pra um imprevisto, pra um convite de última hora, pra um dia em que não estou disposto e coisas do tipo. E também evito a armadilha de querer fazer tudo ao mesmo tempo e acabar não fazendo nada.

Qual sensação/sentimento você tem ao terminar uma obra?

Tenho um sentimento de despedida. Publiquei um livro de bolso em três volumes (um em cada ano) e uma segunda obra de poesia curta. E a sensação foi a mesma em todas essas publicações: de despedida. Publicar, ainda que pareça óbvio dizer, é tornar público. É algo que foi meu na construção, na vivência e em todo o trabalho de confecção indo pro mundo e agora podendo ser de quem quiser pegar. Então é esse o sentimento principal, de despedida. Dizem que todo livro é uma lápide e que o texto renasce quando é lido. Cada coisa que publico, seja em livro ou em vídeo é essa despedida, que volta sempre que leio, que me apresento ou que, principalmente, alguém pega e faz no meu lugar. Eu faço pra ver circular. Todo o esforço que boto no processo é pra isso, pra chegar nas pessoas e pra que essas pessoas se sintam parte a ponto de quererem fazer com que chegue em outras pessoas.

O que você sente que te paralisa?

O que me paralisa na maioria das vezes é o desgosto que sinto do mundo. E que pra mim é um lance meio paradoxal também. Ao mesmo tempo que as pessoas e as histórias são matéria-prima do meu trampo e minha paixão, elas são também minha ruína. Tem dias que isso sobe pra cabeça (e com frequência) e eu fico mesmo muito impressionado com a mesquinhez e a estupidez humana. Torcendo pra aquele asteroide que sempre erra resolver acertar o planeta e acabar com isso tudo. Daí quando estou nesse clima fico travado. Tem dia que vou dormir e acordo nessa pegada e não consigo fazer nada, nada mesmo, nem escrever.

Há algo que voce identifique como um impulsionador, como um motor, algo que te coloca em movimento para criar?

Como falei, é paradoxal. O mesmo desgosto que me trava é o desgosto que me motiva quando vira indignação. Eu costumo escrever e trabalhar a partir do que falta, a partir da vingança, na maioria das vezes. Fazer pra inventar e construir o que poderia ser, um lance bem básico de utopia mesmo. Isso é uma das coisas que me movimenta. A outra é quando estou inocente e acredito nas pessoas. Quando encontro uma tiazinha em qualquer padaria, fila de mercado, ponto de ônibus que troca meia dúzia de palavra e sorriso na simplicidade comigo, quando brinco com alguma criança, quando vejo alguma história boa. Essas coisas me motivam também. É uma esquizofrenia ser movido ao mesmo tempo pela vontade de destruir e de construir. Mas é o que me faz sair do lugar.

Você acha que seu processo de criação flui melhor de forma ordenada ou caótica?

Meu processo de criação em si é o caos. Mas como falei também, se beneficia da organização dentro dele pra funcionar. Eu sou um diplomata, eu sempre busco a melhor situação entre as coisas que me cercam e que tenho acesso. Como diz o Parteum, “a lógica do caos é sinfonia sem querer”. Eu trabalho em cima dessa sinfonia, que quando não encontro acabo inventando. Eu estou atento o tempo todo. Estou o tempo todo pensando, e pensando a partir da arte. Eu falo pra molecada nas oficinas que quando você se reconhece artista, não tem volta, você é artista o tempo todo, você vive o mundo artista. Falo que ser poeta é um modo de olhar as coisas e não necessariamente um modo de fazer escrita. É você olhar pra algo e enxergar além desse algo, enxergar possibilidades. Então eu tô criando o tempo todo. Eu passo o bilhete único na catraca e já penso em alguma coisa, lá ligo com a música que tô ouvindo enquanto desço a escada, depois conecto com as expressões das pessoas quando entro num vagão olhando rosto por rosto, daí já levo isso pro livro que vou ler. Fico respondendo aos estímulos que recebo ou busco. E então vem o momento de organizar esses estímulos. De pegar bloco de notas e concretizar eles. Às vezes é na hora mesmo, puxando o celular ou algum bloquinho da bolsa, às vezes fico dias e semanas, até meses matutando na cabeça e procurando mais estímulos, internos e externos, pra poder depois organizar. Seja pra um novo texto, um poema, uma música, uma ideia pra um projeto, um adendo num projeto, um exercício novo pra oficina. Geralmente é esse processo que tenho na criação. No surgimento da ideia, na verdade. Porque vem na sequência toda a expansão disso, a construção, a revisão. Vixe, é muito trabalho sempre. E com o tempo você vai ficando mais ligeiro né, vendo as manhas que funcionam, criando novas. Mas é sempre um trabalho bastante minucioso. E muito gostoso também, mesmo quando dói.

Compartilhar algo que faça parte do seu ambiente criativo.

E o que você já fez na sua vida que quem te conhece hoje nunca imaginou que você já fez ou faz?

Vixe, várias coisas. Quem me conhece de perto fala que sou uma caixinha de surpresas. Passei por muita coisa pra chegar nessa escolha de hoje, de fazer o que quero. As pessoas se surpreendem geralmente quando falo que já me formei em Mecânica pelo SENAI. E quando falo das faculdades que passei e larguei também: Engenharia de Gestão, Marketing e Teologia. Outra coisa que também faço muito hoje e que algumas pessoas não conhecem é jogar. Jogo bastante, como válvula de escape e descanso, um jogo de simulador de técnico de futebol. E também jogo RPG de mesa (inclusive uso em algumas oficinas de narrativa), card game Magic e jogos de tabuleiro.

Existem experiências da infância ou adolescência que você acha que influenciaram a escolha de sua linguagem ou seu trabalho?

Com certeza. No livro que estou escrevendo falo muito disso. A proximidade com a morte e a morte em si foram fatores fundamentais pra minha construção. A morte esteve próxima de mim o tempo todo. Meu pai morreu cedo e morreu junto minha relação com a minha mãe de certa forma, matei sem querer muitos bichos de estimação, depois outras figuras próximas foram morrendo, eu mesmo passei por situações de quase-morte até fazer uma cirurgia e colocar uma espécie de marca-passo. Todas essas experiências foram modelando meus momentos, meu jeito de olhar e perceber o mundo, de não ficar quieto diante das coisas que me incomodavam, no jeito de perceber as pessoas que passam pelo meu caminho, conhecendo elas ou não, enfim. Meu olhar e minha reflexão sobre as coisas cresceram muito a partir do momento em que eu comecei a entender a morte como uma condição natural e fazer dela uma aliada, pra aprender o que pudesse. Passei a ter mais sensibilidade com as situações, a respeitar as histórias de vida das pessoas, a respeitar as revoltas e até mesmo o ódio das pessoas, a buscar o detalhe do cotidiano. A respeitar também meus limites e bancar minhas escolhas. O Victor poeta nasceu disso, basicamente, desse olhar.

Você pode nos contar uma experiência que ocorreu nos últimos tempos/anos que impactou e influenciou a direção do seu atual momento criativo?

Foi a implantação do meu aparelho no coração. Ele foi fundamental pra despertar o olhar e pra dar a coragem de tomar a decisão. Eu já não estava satisfeito com o mundo e com a minha vida. Fazia Marketing na USP e trabalhava num banco como caixa. Era o destino perfeito pro cidadão pobre/classe média em ascensão. Estava convivendo, ao mesmo tempo, com outros mundos na faculdade e no mundo do Marketing, vendo dinheiro e entendendo um pouco como as coisas funcionavam. E também ouvindo muita música e começando a ler e estudar muita coisa. Tudo isso entrava em conflito e me movia a fazer algo. Eu sabia que não queria fazer parte desse mundo do jeito que era e ainda está. Não era opção existir assim. Aí em 2010 teve o episódio, tive que fazer a cirurgia. Fiquei 25 dias no hospital e 2 meses em casa. Foi um período de muita reflexão. Eu sempre fui meio quieto e difícil de afeto na maioria das vezes, conhecendo bastante gente por esse lado meio diplomata, mas sem muita relação com ninguém por esse lado fechado. E aí nessa época muita gente me visitou, apareceu do nada, foi importante pra eu perceber umas coisas, pra fazer umas trocas rápidas um pouquinho com cada uma. E também pra ter a coragem de dizer não ao que eu estava vivendo e buscar outro caminho. Eu não sabia ainda qual caminho, mas ia atrás dele. Saí do hospital dizendo: vou largar a faculdade, trabalhar no banco por mais dois anos pra juntar dinheiro e depois ficar pelo menos uns dois anos sem trabalhar, só procurando algo que eu goste. E aí eu já escrevia na época, curtia o audiovisual e ouvia muito rap. Também me interessava por filosofia, teologia. Larguei a faculdade pra ir estudar essas coisas, comprei livros e CD’s, comecei a colar nos eventos, fazer oficinas, assistir palestras, ver filmes, tudo no tempo livre que tinha ficado de noite por causa da faculdade. Até que cheguei aos saraus e me encontrei ali, na poesia. Fiz meu planejamento financeiro, larguei o banco e com a grana da rescisão banquei meu ócio e meu primeiro livro. Foi meu jeito de sobreviver e de encontrar nova vida. Eu já me sentia muito limitado pelas condições, por esse “pacote do cidadão de bem que trabalha e tem carro”. A cirurgia veio pra me limitar mais ainda, fisicamente. Tive que romper de vez todos os limites, deu no que deu. Me joguei mesmo, fui aprendendo a dizer não até encontrar algo que quisesse.

Cite um artista que você aprecie. Qual o trabalho dele que você mais gosta e o que menos gosta.

Como eu falo bastante (sou poeta e descobri recentemente que sou geminiano), vou citar três.

Um na música, um na poesia e um na vida.

Na música é o Parteum. É uma espécie de mentor espiritual-filosófico pra mim. Só a obra dele consegue mexer com algumas áreas da minha mente, é um lance muito doido. Gosto bastante do disco “A Autoridade da Razão” dele, mas é injusto separar, são várias músicas soltas marcantes pra mim e toda vez que escuto, mesmo escutando há muitos anos, pesco algo novo. E o trabalho que menos gosto, difícil dizer, mas acho que é a música “Definição / Quem é real”.

Na poesia minha grande paixão é o Manoel de Barros. Eu fico encantado toda vez que leio ele ou algo dele. Sou totalmente influenciado pelo jeito criança de ser. Sou educado pelas crianças, eu sempre procuro ouvir, aprender e estar com as crianças, são o termômetro das coisas e também a saída. E o Manoel traz muito isso. A poesia como uma continuação da infância, como a força do inventar. “Tudo que não invento é falso”. “Só dez por cento do que eu escrevo é mentira, o resto eu invento”. E ele tem um respeito pelas palavras. Poesia se faz com palavras, não tem jeito. Você pode ter a melhor ideia do mundo, ter a melhor história pra contar, mas se não tiver as palavras, não vai rolar. O que mais gosto nele é isso, na obra em geral. E o que menos gosto são os textos curtos dele, de uma ou duas frases. Ele é o poeta das coisas pequenas, mas eu gosto delas pequenas nos textos maiores. Enfim, é um grande mestre mesmo, tem que ler a poesia dele pra saber.

Por último tem o Marcelino Freire, que além de um escritor excelente, é uma referência na vida. Ele traz bastante do Manoel na parte da literatura, mas é também alguém com quem convivo e aprendo diariamente. A postura dele diante do mundo é incrível, a generosidade com as pessoas, a paixão dele pelas pessoas e pelo jeito de viver as coisas. Ele é um cara que conhece muito, que conecta tudo: livros, pessoas, lugares. O que ele fala eu anoto, levo pra vida e crio em cima, não tem jeito. O que mais gosto dele é a convivência e o livro “Rasif – mar que arrebenta”. O que menos gosto é quando ele escreve uns poemas no blog, prefiro ele como contista.

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Livro: O livro dos abraços – Eduardo Galeano

Filme: Tarja branca: a revolução que faltava

Música/Banda: MetáMetá

Artista (visual): Alexandre Luiz Camaleão

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Mais sobre Victor Rodrigues: http://www.facebook.com/pragadepoeta

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