Os Síndicos

Eu estava viajando a pé, trilhando meu caminho, quando dei de cara com um grande portal: “Seja bem-vindo a Girassóis”.

Entrei em um corredor formado, claro, por girassóis. Um jardim belo que dava para uma grande praça. Decidi explorar a cidade, já que se passava das 5 horas e eu não queria acampar pela estrada. Nunca se sabe que tipo de animal selvagem podemos encontrar por esses caminhos.

A cidade parecia vazia. Apertei mais uns passos para encontrar um restaurante para comer ou uma hospedaria para largar as malas.
Encontrei um café, com quase todas as mesas ocupadas. Vi um espaço que parecia confortável para mim e a para a minha mochila. Puxei a cadeira e sentei, já imaginando um belo café expresso.

– boa tarde, senhor. O que deseja?

– um café puro, por favor. E algo salgado para acompanhar, o que você tiver de melhor

– claro. O senhor vai adorar nosso pão caseiro.

A comida chegou, degustei tudo aquilo em paz e decidi partir em busca de uma acomodação. Ao levantar, vi a placa que pedia para as migalhas do pão em um balcão de madeira, que ficava sob a janela. Lá, passarinhos passavam para se alimentar.

Chamei o garçom:

– a minha conta, por favor? O senhor também saberia dizer onde há um hotel ou hospedaria?

– claro, o único hotel da cidade fica no alto da colina. Basta seguir reto nessa mesma rua que o verá logo a frente. Ah, não se preocupe com a distância. Em cidades pequenas, nada é longe.

Saí na rua e, pela primeira vez, me dei conta de que não havia carros. Olhando com um pouco mais de cuidado, vi bicicletas e uma espécie de charrete com pedais.

Andei duas quadras, e o suor começou a escorrer pela minha testa. Tratei de enxuga-lo quando vi uma bela moça que estava regando as plantas de um canteiro da calçada. Assim que passei, abri um sorriso, e ela correspondeu.

– Boa tarde! Só queria me certificar de que estou no caminho certo para a colina.

– claro que está. Vejo que o senhor não é daqui, não é? Carregando essa pesada bagagem nas costas…

– sim, venho de longe, explorando o sul. Aliás, que cidade agradável, já tenho vontade de passar mais dias por aqui. Bom, vou andando antes que o sol se ponha.

– já que gostou da cidade, não se canse. Veja ali naquela esquina, aquela carrinhola está perfeita para quem tem bagagens

Eu fiquei olhando em volta, tentando entender onde estava o motorista ou o dono daquele objeto móvel, até que perguntei:

– como faço para poder usá-lo?

– Bom, o senhor coloca as malas naquela parte coberta, depois sobe no banco e começa a pedalar. ..

– constrangido, perguntei se alguém não sentiria falta da carrinhola. Ela explicou que elas estavam todas à disposição dos moradores, só não era permitido atravessar os portais de Girassóis com eles.

Muitas perguntas se passaram pela minha cabeça naquele momento. Quem controlava esse uso? Quem fiscalizava a fronteira? Que loucura toda era aquela?

Enfim, decidi fazer o que a moça sugeriu. Peguei a carrinhola e pedalei em direção à colina. Ainda bem, pois logo pude ver um grande casarão no topo da montanha. Ganhei ânimo e apertei a pedalada.

A explicação

Acordei e me deparei com um livreto sobre a cidade, para os poucos turistas da hospedaria.

“Girassois, a primeira cidade sem prefeito”

Foi em 1820 quando o nosso então prefeito Cremonildo Azevedo faleceu e não havia cidadão que quisesse candidatar-se ao cargo. …continua

Depois de uma longa história, que envolveu uma longa discussão entre os habitantes mais velhos da cidade, chegou-se ao seguinte estatuto:

Mandamento de Girassois

  1. Somos responsáveis por todo o lixo que estiver em pontos públicos; quem for pego sujando a cidade, será julgado pela comissão girassoniana
  2. Cada morador deve ficar atento aos cuidados com a sua calçada e também com o vizinho, principalmente se ele morar sozinho ou for idoso. Em caso de urgência, acione o plantão médico da cidade
  3. O pouco lixo não-orgânico gerado por cada um deve ter uma forma de ser reaproveitado. NUNCA jogue na lixeira, tente encontrar alguém da cidade que possa reaproveitar o material. (o Zezinho dos entulhos está fazendo uma lista)
  4. Cada morador pode consumir 2,3 mil litros de água por mês
  5. A cada ano, uma equipe será responsabilizada pela manutenção de construções públicas da cidade
  6. Não há necessidade de usar carros, que podem poluir o ambiente e causar acidentes. Nós compartilhamos as nossas bicicletas e charretes — todo caminho em girassóis é curto

Por último:

“Os turistas são bem-vindos e convidados a aprender a vier em harmonia com a gente”

Fui embora e lembrei daquela placa “o mundo é feito de cada um de nós”