Setembro Amarelo: Por que eu não gosto?

Pedro Augusto
Aug 31, 2018 · 5 min read
É difícil achar alguma imagem boa pra isso…

Ai ai, tá começando setembro. O mês do meu aniversário, mês das frésias, dos copos de leite, das tulipas e dos girassóis como flores que mais combinam e são tendência em buquês de casamento (fica a dica para os noivos), mês em que temos que aguentar gente fazendo a piada de acordar o Billy Joe só quando dia 30 chegar pela ducentésima vez como se fosse ontem que Wake me up when september ends foi lançado. E, não menos importante, é o mês do movimento do Setembro Amarelo.

O que é o Setembro Amarelo? Resumidamente é uma campanha de prevenção ao suicídio. Teve seu início em 2015 pelas mãos de entidades como o Centro de Valorização da Vida e a Associação Brasileira de Psiquiatria, com colaboração do Conselho Federal de Medicina. A ideia visa a realização e promoção de eventos que deem espaço para debates acerca do suicídio, juntamente de trabalhar na ampliação da importância da prevenção desse fenômeno que tem sido cada vez mais recorrente em nossa sociedade.

MAS PEDRO, QUAL É A DO SEU TÍTULO ENTÃO? POR QUE NÃO APOIAR UMA IDEIA MARAVILHOSA DESSAS? VOCÊ É DOENTE? Bom, se for falar do ponto de vista psiquiátrico eu sou “doente” por ter depressão (não, ela não será usada aqui como forma de expurgar qualquer responsabilidade dos meus atos), ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo, mas não é por isso que não gosto do que o movimento tem se tornado, isso eu explicarei mais abaixo.


Não, eu não sou CONTRA o movimento em si, pelo contrário, quem me segue nas redes sociais ou convive comigo no dia a dia sabe o tanto que eu bato na tecla de que ainda não falamos o bastante sobre os perigos, os riscos, o manejo e a gravidade de uma crise suicida. Ampliação da divulgação do fenômeno para fins de conscientização talvez seja a pauta que mais apoio e também a que pretendo basear meu futuro profissional, e no papel a ideia de um mês dedicado a isso tal qual o Outubro Rosa parece magnífico, mas nos últimos anos com o advento das redes sociais e a incessante busca por aprovação alheia parecem tê-lo deturpado quase por completo (falarei disso logo mais).

Eu já tentei suicídio. Foi-se a fase da minha vida em que eu escondia isso e hoje prefiro falar abertamente sobre porque além de o fato de eu estar onde estou hoje ser um sinal pra mim de minha recuperação, creio que tirando o status de tabu do assunto nós poderemos discuti-lo não somente com mais frequência mas também com menos receios de haver reprimendas. E setembro, mais do que qualquer outro mês, deveria ser a chance de colocar esse assunto em pauta. A grande questão em que me baseio nesse texto todo é que, infelizmente, o movimento acabou virando um antro de hipocrisia, frases genéricas e pessoas fazendo de tudo para passarem a imagem de santos milagreiros donos de toda a generosidade humana.

Tentarei não me exaltar nesse ponto mas o núcleo do texto e do meu desgosto pelo que o movimento se tornou gira em torno disso. Se tornou cansativo e previsível. Chega dia primeiro de setembro e eu sei que ao abrir o Facebook verei milhares de pessoas colocando aquele filtro na foto de perfil com o lacinho amarelo escrito “Suicídio: vamos falar sobre isso” logo abaixo. E as pessoas falam sobre isso? Não, não falam. Elas apenas estão buscando amaciar o próprio ego esperando comentários do tipo “Nossa, como você é uma boa pessoa”, “Ai, que orgulho de você”, etc. Nesse pacote todo acabo vendo frases soltas pelo meio como “SUA VIDA IMPORTA SIMe derivados igualmente genéricos que, convenhamos, quem sofre de depressão já ouviu diversas vezes e sabe que ao ler isso não vai se sentir abraçado, mas percebe que estão fazendo uso de um movimento de conscientização pra se sentirem pessoas maiores (digo maiores mesmo, não melhores).

E nesse antro de egocentrismo não é comum nos depararmos com pessoas participando dessa iniciativa que nesse mês oferecem apoio mas basta pegar um dia em que você não estiver bem para ouvir coisas como “Se você ia ficar com essa cara era melhor não ter vindo”, “Nossa, incrível como você é ‘tóxico’”, “Você mata a vibe do nosso rolê” e mais todas as outras frases que alguém com depressão ou com ideação suicida já passa a vida interiorizando, a ideia de que sua presença não somente não é importante como é a melhor das opções, se enxergando como alguém que apenas atrapalha os outros quando está por perto.

Outra coisa que me incomoda muito é aquele “Estou me colocando a disposição para conversar com quem precisar ou quiser desabafar. Prometo te escutar e tentar te ajudar”. Não me leve a mal, a ideia de mais gente se dispondo a ouvir e demonstrando o que talvez seria um pouco de empatia na maioria das vezes acaba esbarrando no problema grave de que quem escuta normalmente confunde ajudar com dar conselhos. E aconselhar é algo que exige muita, mas muita cautela porque é absurdamente perigoso e potencialmente danoso você orientar alguém projetando a sua visão nela.

O resultado disso? A pessoa esquece que está diante de alguém com uma situação diferente e com um psicológico não somente igualmente diferente como possivelmente fragilizado para falar coisas que ELA faria e que pra ela é fácil. Esse alguém pode não estar em condições (e nem na vontade, obviamente) de “obedecer”. Mas infelizmente muita gente tem na mente a ideia de que ajudar é igual a “faça exatamente o que eu disser senão você não estará se ajudando”, e isso é um egoísmo absurdo e sem um pingo de empatia, mostrando que não é porque você se põe a ajudar alguém que está sendo uma boa pessoa.

A ideia de ter alguém com quem podemos desabafar é ótima, sim, eu senti na pele o horror que era simplesmente não ter alguém com quem pudesse botar meus sentimentos pra fora, alguém com quem pudesse falar tudo sem medo de censura, sem medo de parecer “estranho demais”, sem medo de ver a pessoa se afastando depois por “não querer se envolver com alguém assim”, mas acredite, se você se dispõe a ouvir alguém, o ato de ouvir e deixar com que ela fale já é uma ajuda enorme, não é feio dizer ou admitir que não possui ou não se sente capacitado a ajudar, é uma atitude muito mais legal pra gente do que ser bombardeado com conselhos que muitas vezes não refletem a nossa realidade devido a pessoa ter projetado a dela em nós.

Pra finalizar, acho que consegui expor um pouco do porque esse movimento infelizmente não me apetece mais. Continuarei sempre divulgando palestras sobre suicídio, debates e batendo na tecla da necessidade da gente não falar desse fenômeno triste apenas quando uma pessoa famosa ou próxima de nós morre de forma inesperada, mas infelizmente esse ato de setembro, tal qual muita ideia legal, possuía um princípio bacana mas que as pessoas acabaram deturpando em prol de seus próprios egos.

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Tenho 23 anos, curso Psicologia e reclamo bastante. Eu não falo muita coisa útil mas vira e mexe sai algo que pode vir a ser interessante pra alguns

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