Você já foi suficiente hoje?

Taí um pensamento que eu tenho com frequência. É algo que vai e volta de tempos em tempos e está no momento de sentar no sofá da minha sala. A sensação de não ser suficiente está tão bem instalada aqui comigo, que alguns minutos atrás ela mesma já levou a xícara de chá dela e colocou em cima da pia. Ela já se sente em casa.

Explico.

Estou de novo naquele momento de sérias dúvidas de minhas capacidades intelectuais, atrativas (sim, sim de atrair o sexo oposto) e de ser amada (em um sentido não sexual mesmo).

Estou naquele momento de pensar que a qualquer momento podem descobrir que eu não tenho a menor ideia do que eu estou fazendo fora de casa. Várias vezes me bate a sensação de que se não houvesse um adulto responsável, meu TCC não estaria andando nem um cadinho. De que eu não sou bonita o suficiente, pois se eu fosse esta frase teria sido interrompida por uma notificação angelical e não por uma piadinha no grupo do trabalho. E que se eu fosse legal o suficiente, eu não teria passado o meu sábado à noite assistindo um filme velho (e ruim, a propósito) no Netflix, pois alguma amiga teria me chamado para um programa com cara de sábado à noite.

É em momentos como este, que uma amiga me pergunta como está indo uma situação, eu digo que não tenho muita certeza se estou indo bem, ela diz que com certeza eu irei e a certeza dela é tão contagiante que não tem como não acreditar nela e penso que se ela acredita, porque eu não? E me apego com unhas e dentes à certeza DELA. Acabo me agarrando tão forte à esta corda de salvação que parece que a certeza é minha.

É em dias como este, que quando ouço que duas cabeças pensam melhor do que uma e que o trabalho não teria andado como ele andou se minha parceira de TCC estivesse fazendo sozinha, que por mais que eu me sinta como alguém que simplesmente assistiu ela trabalhar e deu uns pitacos ocasionais, que eu procuro aceitar. Se ela acha que eu contribuí, porque eu não posso acreditar e achar que eu contribui? Por que eu tenho que achar que ela está falando isso só para me agradar? Sobretudo, porque ela não iria querer me agradar enquanto eu sobrecarrego ela, certo? Racionalmente eu consigo pensar assim, mas não sinto assim.

É em tardes como esta que eu resolvo ser um lindo dia para esfoliação, hidratação no cabelo e fazer as sobrancelhas. Quem sabe ainda não aproveito que está cedo e faço depilação? Tudo isso esperando (mas fingindo que não) que um certo alguém bem específico me olhe e ache que eu estou duas semanas mais linda. Outros “alguéns” podem virar o pescoço na rua, ser admirada faz bem para a auto-estima (não todos os dias, mas tem dias que sim).

É em noites como essa que eu olho para o sofá e vejo o livro que eu estava lendo alguns minutos atrás. Livro este que uma amiga parou de ler para me emprestar, pois eu não teria livro para me acompanhar na volta para casa. Livro este que conversa com justamente com o tema de estar sempre tensa e sobre o qual ela sempre tenta me fazer pegar mais leve.

Racionalmente eu sou capaz de resolver à todas as reclamações de falta de valor que eu coloquei lá em cima, mas na hora do coração, na hora de sentir eu sou dura comigo, eu tenho crises de auto piedade e venho aqui fazer uma catarse, tentar racionalizar o sentimento. Venho aqui falar comigo, com o mundo, com o vento, pois com as paredes converso pessoalmente.