Sobre o Individualismo Acelerado e a Era dos Negócios Digitais

Estes tempos uma leitora respondeu a um dos e-mails de um curso gratuito que dou por e-mail. Ela fez algumas perguntas relacionadas ao seu caso específico. Eu estava mais do que disposta a lhe escrever uma resposta bastante completa com muita informação que iria ajudá-la.

Mas aparentemente, cometi um grave erro. Eu respondi, com simpatia, dizendo que responderia sua pergunta com o maior prazer, mas pedia que ela publicasse essa pergunta em um fórum, para que assim mais membros pudessem se beneficiar da resposta. Eu queria ampliar o alcance daquele conteúdo que ajudaria a ela e a muitas outras pessoas e movimentar o fórum recém criado.

Não preciso dizer que ela não me respondeu, nem se cadastrou no fórum e obviamente, não postou sua pergunta lá. Também ficou sem a resposta que eu lhe daria.

O que percebi com essa e com muitas outras atitudes que venho reparando dia após dia, é que estamos experimentando um momento muito conturbado na sociedade, o que chamo de Individualismo Acelerado.

As tecnologias vieram para revolucionar a maneira como as pessoas se relacionam entre elas, com o mundo, com o mercado, com suas necessidades diárias e com os demais. Mas como toda revolução, ninguém sabe quais resultados irão surgir dela.

As tecnologias estão mudando a forma como se fazem negócios. Estão permitindo ao consumidor selecionar melhor o que querem e como querem.

Estamos vivendo uma era de produção customizada em massa, algo que Ford nunca haveria pensado ser possível. Ao menos não ao baixo custo da forma como tem sido demandado pelo mercado.

Isso é sensacional e assustador ao mesmo tempo!

O consumidor quer do seu jeito, ao seu gosto, quase que feito exclusivamente para ele, e quer pagar pouco por isso. E alguns empreendedores mega criativos conseguem entregar exatamente isso, pagando um preço que só eles sabem.

Ou vocês acham que os empreendedores digitais trabalham 4h por semana, à là Tim Ferris? Não conheço nenhum, e se você conhecer, ou ele está mentindo sobre o número de horas trabalhadas, ou sobre a quantidade de dinheiro que está fazendo. Até mesmo o próprio Tim Ferris já assumiu que ele trabalha muito, mas muito mais, do que 4h por semana.

Bom, voltando à revolução das tecnologias. Hoje é possível entregar produtos online que sejam exatamente (ou quase) o que o público alvo deseja, a preços baixos e que deverão ser vendidos em massa para gerar uma rentabilidade sustentável para o empreendedor. A internet permite isso, teoricamente.

Acontece que o consumidor está “se passando” em suas exigências. Acho que ele ainda não compreendeu como funciona o mercado de informação online.

Há um limite de informação gratuita customizada que alguém é capaz de produzir e entregar ao grande número de pessoas que desejam essa informação.

O empreendedor que passar esse limite, corre o risco de ataque cardíaco e falência pessoal. E acredite, tem muitos por aí distribuindo informação com a esperança de mendigar alguns poucos reais de sua audiência.

Muitos querem informação de qualidade, customizada e de graça. Caiu em lista de e-mail, recebeu toda a informação gratuita que o empreendedor podia oferecer, e que desaforo, agora ele quer cobrar para dar o restante da informação?

“O que custa né? É informação, já está aí mesmo.”

Pois saibam que custa muito. Esse é muitas vezes o ganha pão da pessoa que está oferecendo a informação gratuita, por isso em algum momento ele precisará cobrar para ir além.

Para poder disponibilizar toda essa informação, em muitos casos, o investimento foi bastante alto: Universidade, pós-graduação, mestrado, doutorado, cursos online ou presenciais, certificações, só para começar.

Sem falar no período de construção do negócio, no qual o empreendedor não recebeu um centavo e trabalhou feito louco para preparar todas as informações gratuitas e os produtos pagos.

E quando chega a vez de quem está na outra ponta da relação oferecer um mínimo de seu tempo, há um grande vácuo.

O mesmo acontece em cenas do cotidiano, que nada tem a ver com a relação empreendedor — cliente. Muitos querem ser acomodados e que o outro se adapte para não interferir na sua vida.

Mas poucos, muitos poucos, estão dispostos a recalcular alguns graus em seu próprio caminho para tornar a vida do outro um pouco mais fácil.

Alguém que cai em local público e todos olham, mas ninguém ajuda. Uma porta que não foi aberta para aquela pessoa que vinha carregada de coisas. Um assento no transporte público para aquela pessoa que parece precisar muito mais do que você.

Na Sociedade do Individualismo Acelerado, queremos que nos cedam espaço, tempo, energia, conhecimento e valor. Mas estamos ocupados demais para oferecer o mesmo ao outro.

Colocamos nossos fones de ouvido, olhamos para o chão e simplesmente fingimos não perceber o que passa ao nosso redor.

“Se não estou vendo, não tenho a responsabilidade de fazer nada. Não precisarei sair do meu caminho, afinal, tenho meus próprios problemas para resolver o quanto antes e preciso ver quem vai resolvê-los para mim aqui, agora e de graça.”

É por isso que estamos na era do individualismo acelerado. Queremos satisfazer nossas necessidades, aqui e agora, e se o outro não puder ajudar, que saia já do caminho, pois não há tempo a perder. Da mesma forma, não saímos das nossas rotas, nem que seja para ajudar o outro a nos ajudar.

Quem está do lado provedor da relação realmente precisa ter a auto estima lá em cima, muita perseverança e uma boa poupança para conquistar sua audiência sem morrer de fome antes que o público perceba que nem tudo pode ser um freebie.