Ciclo de Eduardo
Ao adolescente Felipe. Você quem escreveu.
Às seis acordou Eduardo. Entre dois lençóis negros que jaziam sobre o varão, pôde enxergar a luz do sol ameaçando iluminar seu ninho. Levantou-se de seu conforto desconfortável e observou através da fresta. Guiaram-se os olhos ao jardim do vizinho em frente — incontáveis tons de verde, flores azuis e brancas e lilás, um morangueiro, dois pequenos pássaros, um poucos tons abaixo do verde outro ouro, que cantarolavam por entre as mudas; terreno adentro, após a casa, o topo das árvores coloridas do vergel.
Os pés, calçando-se de poeira, o carregaram pelo corredor até o cômodo ao lado. Um quarto minúsculo e vazio, guardava apenas uma cômoda de ébano. Abriu a gaveta e tirou de dentro uma linha negra e uma agulha enferrujada para costurar os dois lençóis de seu quarto. Após duas longas horas, saiu de casa.
Do quintal colorido ergueu sorrateiramente o ninho do pássaro cor de ouro. Pegou a pequena ave para si e repousou o ninho sobre a grama muito bem aparada. Pegou duas flores azuis — as cores mais belas sobre as quais os olhos jamais pousara — torcendo suas hastes com o dedão e o indicador. Pegou também um morango, ah, tão belo. Levou as flores às narinas e sentiu o doce cheiro da paz, e expirava, também em azul, o ar que, de tão perfumado, deixava seus pulmões para perfumar a atmosfera; comeu o morango e sentiu o doce gosto do amor que irrompia em múltiplos vermelhos orgasmos, ele flutuava; em torno da cabeça, o doce piar de felicidade do pássaro voando como uma estrela cadente o fazia gargalhar, entrando em seus ouvidos como se… como se… nada, a nada se assemelhava.
Pegou um segundo morango para levar consigo. Um terceiro, e um quarto. Um quinto. De volta à casa, colocou as flores com cuidado em um vaso alto e de pequeno diâmetro com água. Colocou os morangos em uma fruteira de cristal sobre a mesa da sala de estar. Soltou o pássaro dourado e o deixou voar. Correu degraus a cima e tirou uma tesoura da gaveta do quartinho escuro, foi ao seu quarto e rasgou a costura deixando o sol o cumprimentar com maior polidez. Às cinco horas da tarde a casa sorria e cantava. Iluminada e limpa. Olhou pela janela e viu o Sr. Vizinho-em-frente um tanto cabisbaixo com um ninho vazio sob o braço esquerdo. Eduardo acenou e sorriu mostrando todos os dentes brancos; recebeu um sorriso tristonho de volta.
Dormiu.
Acordou. Entre dois lençóis negros que jaziam sobre o varão, pôde enxergar a luz do sol ameaçando iluminar seu ninho. Levantou-se de seu conforto desconfortável e observou através da cortina rasgada. Guiaram-se os olhos ao jardim do vizinho em frente — incontáveis tons de verde, flores azuis e brancas e lilás, um morangueiro, dois pequenos pássaros, um poucos tons abaixo do verde outro ouro, que cantarolavam por entre as mudas.
Os pés, calçando-se de poeira, o carregaram até o andar de baixo. Dentro de um copo trincado boiavam duas flores murchas e marrons. Na fruteira de plástico os morangos, ao menos, pareciam perfeitamente saudáveis. Ao lado, porém, um pássaro se engasgava com uma das frutas que, entalada na garganta da pobre avezinha, soltava um líquido malcheiroso.
Suspirou, saiu de casa e atravessou a rua.
