Então é natal! 🤔

Será que só eu não sou fã do Papai-Noel?

Talvez eu tenha algum problema, porque eu vejo uma galera já iluminando suas casas com as luzes coloridas piscantes, ou aquelas brancas que tentam imitar efeito de neve e não me empolgo; possivelmente eu tenho problemas sérios a serem tratados, porque não o aceito decididamente como ídolo maior, vestido de vermelho e barba branca, da personificação de um cara legal ou como uma representação tão legal assim de paz, amor e fraternidade.

Mas o que me vem à mente nessa época mesmo é a dúvida se por aqui não teríamos outros personagens/personalidades que também simbolizem esse espírito de paz, amor e fraternidade, de uma forma genuinamente fora do comércio. Um que seja assim, mais parecido com a outra metade da nossa população, aquela que não é branca, tem um pé em países da África, aqueles que estavam por aqui e ainda permanecem (graças a muita luta e resistência política e cultural) desde o “descobrimento”.

Poxa, porque precisamos tanto de um símbolo que ao mesmo tempo que trás paz, amor e fraternidade, lembra tanto aquela marca de refrigerante de cola, que tem seu trono mais que estabelecido naquelas grandes casas cheias de escadas rolantes e com quase nenhuma janela (quem dirá chaminé – o que se usa é exaustor)?

Nada contra o entendimento de muitos de que é valoroso reproduzir e perpetuar os valores personificados no bom velhinho, como forma de ensinar às crianças a importância da paz, amor e fraternidade. Mas nem por isso esse cara deixa de me causar estranhamento e insatisfação.

Não precisamos abrir mão de tudo que seja estrangeiro, mas por que não reconhecemos também de igual modo os nossos próprios heróis e personagens? Por que tem gente por aí rasgando o Hino à Negritude? Porque eu precisei há alguns anos começar a pesquisar persistentemente sobre a existência de personalidades valorosas e admiráveis como a Mãe Menininha do Gantois — Ialorixá, lider do Terreiro do Gantois, das mais famosas, respeitadas e reconhecidas lideranças religiosas e do candomblé em nosso país, sempre amorosa, diplomática e sábia? Ou por que não nos vem à cabeça corriqueiramente o Cacique Raoni Caiapó — mundialmente conhecido por sua luta pela preservação das florestas tropicais, territórios indígenas e da cultura ancestral do seu povo indígena, que contém em sua personalidade a força, coragem, lealdade, carisma, amor incondicional para com seu povo e pela natureza?

Meu estranhamento ao velhinho de vermelho que bebe refrigerante vem do questionamento sobre a falta de valorização de personalidades nacionais como estes que cito acima. Minha rejeição vem da não identificação com aquela figura rosada. Personagens que carregam consigo muito mais representatividade aos milhões de brasileiros não brancos, também poderiam ser tão reconhecidos quanto o senhor branco bonzinho que traz presentes e amor. Já que somos todos iguais na condição de humanos, poderíamos, os não brancos, termos fácil acesso à memória e exemplos de vida dessas e outras personalidades com um pouco mais de melanina na pele, negros e índios. Ok! A internet está aí e nela encontramos de tudo, inclusive nossas personalidades de peles mais escuras, mas a internet é uma ferramenta do aprendizado, não encerra em si todas as formas de se ensinar.

Claro que a questão comercial tem em nosso sistema político-econômico um forte peso sobre essa grande doutrinação em favor do bom homem de vermelho. Caso contrário ele não teria um trono cativo nos maiores templos do nosso comércio a cada dezembro que se inicia. Já as personalidades que cito como exemplos, como tantas outras com as mesmas características e origens, não estão ainda encaixadas no sistema comercial lucrativo. Mas ao contrário, suas vidas foram e são dedicadas a outro tipo de dinâmica social, mais colaborativa e menos explorativa, mais grupal e menos individual, mais espiritual e menos material. A lógica é outra e este é um motivo que vejo para não serem tão populares, apesar de estarem bem mais próximas, social e historicamente falando.

Tenhamos papai-Noel, mas também tenhamos Mãe Menininha, Raoni, Dandara, Mapulu Kamayurá e muitos outros e outras.

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