Sobre ódio, religião e Jesus

Não sei vocês, mas me sinto cansado de ver tantas demonstrações ódio dia após dia e em todos os cantos, em especial das redes sociais, essa dimensão em que estamos cada vez mais imersos. Cada dia que passa, pipoca um novo caso de violência, demonstração de ódio e motivos para desacreditarmos da sociedade. No meio de toda esse mar de ódio, me volto para uma fonte especifica, o ódio dos evangélicos.

Veja, eu sou o que chamam de evangélico, apesar de preferir me apresentar como cristão, então uma parcela enorme das pessoas que eu conheço e tenho contato regular, são evangélicos, então tenho visto esse tipo de ódio ser destilado com uma frequência muito maior do que eu gostaria. Até por isso, eu realmente espero que esses sejam o principal publico leitor desse desabafo.

Então, quando falamos em cristianismo, pensamos em um grupo de pessoas que se identifica e partilha da postura e discurso de Jesus Cristo e tenta emular isso na sua conduta de vida. Sendo assim, quando eu olho para o que é descrito de Jesus na narrativa dos evangelhos, e não apenas nos evangelhos como em todo a extensão da Bíblia, é que o foco está quase sempre nas pessoas, por isso Jesus está sempre cercado de pessoas, se relacionando com pessoas, e falando sobre como se relacionar com as pessoas, não é a toa que a fé cristã é relacional, onde a interação com as pessoas, e com Deus é fundamental.

E como Jesus fala para os seus se relacionarem? “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:39), mas como se isso não fosse o suficiente, Jesus ensina que no reino de Deus, o maior entre todos, é aquele que serve, pois sempre devemos considerar o outro como maior (Lc22:26–27), ou seja, um apelo a que aqueles que tomarem seu nome e consideram-no o Filho de Deus, amem e sirvam aos outros.

O modo de se relacionar de Jesus entretanto, não se limitava ao seu discurso, mas o exemplo. Pra começar, ele se relacionava com pessoas consideradas inferiores pela tradição e cultura judaica de seu tempo, como no caso da mulher samaritana (Lc4:1–18), que era considerada duplamente inferior, sendo impensável para um líder religioso da época dirigir a palavra a ela, quanto mais usá-la como detentora de uma mensagem tão grande. Ele também conversou e se hospedou na casa um cobrador de impostos do império (Lc 19:1–10), considerado um traidor, e no caso de Zaqueu, notório ladrão e aproveitador de sua posição, o qual teve sua postura e atitude transformadas pelo periodo em que esteve com ele.

Outro exemplo de alta relevância, principalmente quando olharmos para a igreja atual, é quando Jesus mostra que diante de qualquer pecado, o valor da vida e do perdão estão acima da lei ao defender a mulher adultera (Jo 8:1–11). Tudo isso é resumido por João na sua primeira carta: “A mensagem que ouvimos desde o começo é esta: que nos amemos uns aos outros” (1 Jo 3:11).

Por último, temos o exemplo de Jesus sendo preso e crucificado, (Mc 14:43–72 e Lc 23). Ele foi preso, condenado a uma morte violenta e humilhante, junto com dois salteadores. A forma como Cristo reage é pedir que Deus perdoe os que o humilhavam e torturavam (Lc 23:34) e estendendo conforto e perdão a uns dos salteadores que lhe pede por isso (Lc 23:40–43)

Então estabelecemos que Cristo ensina a amar as pessoas e que as relações certo? E que os cristãos devem tentar emular a conduta de Jesus em suas vidas. Porém, o que vemos muitas vezes é o oposto, e gostaria de elencar alguns focos de ódio recorrentes em indivíduos cristãos.

O primeiro que gostaria de apontar é o ódio contra a comunidade LGBT. Nesse ponto quero ressaltar alguns aspectos da política brasileira. Não são poucos os candidatos que se candidatam com o discurso vago de defender a família e se elegem em cima de uma comunidade religiosa que acha que precisa de um representante.
Como eles fazem isso? Criando inimigos e bandeiras. E um desses inimigos é o movimento que luta pelos direitos do grupo LGBT. Nada demais, apenas que membros desse grupo possam ter uma união estável perante o estado e que a violência motivada pelo ódio acabe. Isso afetaria a igreja de algum modo? Não, mas alguém precisa que essa guerra seja criada, e fazem de tudo para isso.
Como exercício, peço que o leitor tente se lembrar de algum representante publico que se apresente como cristão condenando a violência contra gays, lésbicas, travestis e transexuais. Dificil? Bom, caso estabelecemos que essas pessoas são pecadoras perante a fé cristã, qual a direção que o exemplo de Jesus nos aponta? Não parece que temos agido de forma parecida com a de Cristo né? Pelo contrário, temos visto ou um ódio irracional, ou um silêncio constrangedor.

Também quero falar dos cristãos que falam impropérios como “bandido bom é bandido morto” e se alegram ao ver demonstrações de violência física e brutalidade contra quem quer que seja. É compreensível que nós humanos sejamos tomados por sentimentos como raiva e sede de vingança, porém o que aprendemos ao ver a ação de Jesus, é que por maior que seja a ofensa ou o crime, o perdão é a atitude esperada pelo cristão, e não o revanchismo e o júbilo ao ver atitudes como torturas, linchamentos, etc.

Pra finalizar, quero apontar para o ódio que os cristãos demonstram com aqueles que são diferentes deles. E nessa categoria podemos citar vários casos. Pessoas com pontos de vista teológico ou político diferentes, pessoas que não pertencem ao corpo da igreja cristã e principalmente, pessoas com crenças diferentes (em especial membros das religiões de matriz africana tem sofrido com esse ódio). Obviamente, esse parece ser um motivo de ódio comum a toda a humanidade, mas como as pessoas cuja identidade deveria ser firmada no exemplo de Jesus deveriam agir?

“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” Jo 13:35

Essa é a resposta que todo cristão deve ter em mente quando se perguntar o que fazer diante de algo que o incomoda. A resposta deve ser sempre o amor e nunca o ódio. Sei que é difícil e eu mesmo vacilo nesse e em outros pontos frequentemente, mas apesar disso, o exemplo de Cristo é algo que devemos ter em vista, e o relacionamento com Deus é o que nos aproxima de sermos capazes de seguir o exemplo de Jesus e de podermos refletir o exemplo Dele.
Espero que essa reflexão tenha sido útil e proveitosa.

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