20 anos de Homework

Das festas de casa para o mundo. Como Daft Punk trouxe a house music para as massas.

Antes de virarem robôs que mudariam o curso da música eletrônica, eles fizeram o dever de casa. A dupla formada por Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo lançavam há 20 anos atrás o primeiro álbum, Homework, e diferente do que seria visto futuramente com Discovery e o tremendo hit Get Lucky, aqui observa-se o duo em sua forma mais crua.

Em 1997 o mundo da música estava dominado pelo Britpop. Oasis e Blur cadenciavam esse movimento o qual trouxe o rock de volta à Inglaterra após o grunge, paralelo a isso estavam a crescente cultura clubber na cena underground. Acid house, big beat, breakbeat, ambiental, techno e trip hop eram as vertentes dominantes nas festas noturnas, porém ainda era visto como algo marginalizado e não muito aceito pelas massas. Já na França um novo estilo de fazer música eletrônica estava surgindo, franceses estavam pegando samples de canções de disco, funk, soul, techno e misturando com o house de Chicago criando um novo estilo que ficaria conhecido como french house ou french touch.

Esse movimento ganhou força com lançamento do primeiro álbum do Daft Punk, que não apenas mudou o curso de toda a house music como também tornou a música eletrônica mais mainstream, formando alicerces que na década seguinte viesse a EDM e dominasse o cenário musical mundial, movimentando hoje uma indústria de mais de 7 bilhões de dólares.

Com 74min de duração, a primeira impressão causada por Homework é a de estar ouvindo uma grande colagem com tudo o que Daft Punk ouviu no passado para chegar aonde está. Daftendirekt, primeira faixa do LP, já transporta de cara a este ambiente de festas noturnas organizadas por amigos. Wdpk 837 Fm com apenas 28 segundos parece um complemento da primeira faixa, fazendo uma homenagem as rádios da época e realizando uma perfeita transição para a terceira música.

Revolution 909 começa com um som de festa que é interrompida por uma batida policial, na época música eletrônica não era bem vista pelo governo e pelas pessoas. O título da faixa é uma clara referência à Revolution 9 do The Beatles, no entanto com o “909” que é uma analogia ao TR-909 da Rowland, uma bateria eletrônica largamente utilizada por artistas do Techno, hip hop e house.

Da Funk é o primeiro single de sucesso da dupla, saindo antes no formato single de 12 polegadas em 1995 e mais tarde incluída no álbum. Com um gancho cativante e grudento, esta é uma ótima pedida para as pessoas que nunca ouviram o duo saberem o que é Daft Punk.

Pheonix pega um pequeno sample de “Don’t Go Breaking My Heart” do Elton John, baixa um tom e meio e mistura com um som grave melódico que parece ter tirado da música “Pulsewidth” do Aphex Twin. Fresh começa com o som brisante das ondas batendo na orla seguidas por uma distorção de guitarra que tenta imitar os sons até transitar com uma melodia de disco music ao estilo Giorgio Moroder, lembra um pouco do que eles iriam fazer mais tarde com o álbum Discovery.

Around the World tem um baixo que entra fácil em seu subconsciente e a frase do título da faixa sendo repetida de acordo com a melodia e que desde Kraftwerk nenhuma outra banda fez tão bom uso do vocoder, sendo mais tarde uma das marcas registradas do Daft Punk e um agregador à persona robótica de Thomas e Guy. Para completar a canção, sons que lembram algum jogo de Mega Drive dão detalhes a esta música que se assemelham a uma faixa produzida por robôs.

O título Rollin’ & Scratchin’ parece um termo da música eletrônica para rock ’n’ roll, 7 minutos pulsantes com elementos de acid house e um som eletrônico distorcido que lembra uma guitarra. Em Teachers, com uma melodia bem funk a dupla cita e homenageia os artistas que inspiraram e influenciaram o Daft Punk no passado.

Em High Fidelity a dupla extrai os samples retirados da música “Just the Way You Are” do Billy Joe ao máximo, mostrando as técnicas de hip hop e um som de saxofone que viraria tendência na house music anos mais tarde. Ainda abusando das distorções, Rock ‘n Roll te faz levantar mão no ritmo da batida. Oh Yeah tem o mesmo ritmo de batida de “Numbers” do Kraftwerk — que curiosamente é base de ritmo do funk carioca no passado — porém mais distorcido.

Burnin’ pega as distorções e mistura com disco, techno e funk de fundo. Indo Silver Club possui um groove sem muito compromisso chegando a ser até um pouco psicodélica. Quase finalizando o álbum, Alive aparece como uma faixa crua e até punk e por fim tem Funk Ad que é basicamente um trecho de Da Funk ao contrário.

Homework é uma colcha de retalhos a qual deixou a house music palpável e facilmente consumida pelo grande público. Um verdadeiro Do It Yourself numa época em que fazer álbum em casa era algo raríssimo, algo que hoje em dia é bastante comum na música eletrônica. Até fevereiro de 2001, o álbum já vendeu mais de dois milhões pelo mundo sendo um sucesso de crítica e público, uma excelente pedida para quem quer não só conhecer Daft Punk como também a música eletrônica.

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