Cadê as animações em 2D?

Por que os estúdios hoje só fazem desenhos pelo computador?

Até meados dos anos 2000 era bem comum você, criança, ir a uma sessão de filmes infantis da locadora e se deparar com um vasto acervo de animações em 2D nas prateleiras. No mesmo período, filmes de desenho dominavam os cartazes do cinema quando se tratava de longas infantis. Porém se você observar as animações dos últimos anos e os lançamentos futuros, notará que praticamente todos os filmes são feitos em computação gráfica. Claro, com a exceção de longas independentes e obras japonesas, mas os grandes estúdios americanos não produzem mais aqueles saudosos desenhos os quais fizeram parte das vidas de muitas crianças no passado.

E isso não é apenas no cinema, a TV também está diminuindo seus títulos feitos em 2D e cada vez mais o desenho em CGI (Common Gateway Interface) está dominando a programação de canais infantis. Basta observar a comparação entre a Cartoon Network em 2002 em relação a 2012.

No entanto, para entender a queda da animação tradicional é necessário compreender como é feito a mesma. Todo vídeo é na verdade um conjunto de fotos sendo inseridas em uma sequência cadenciada. Cada “foto” é chamada de quadro e os filmes em geral são feitos a 24 quadros por segundo — que na verdade são 48, pois os 24 quadros são duplicados no projetor — gerando movimento.

Na animação, são feitos 6,12 ou 24 desenhos diferentes para gerar um segundo, o que é um trabalho bastante extensivo. Para ter uma noção famosa cena do Rei Leão em que (SPOILER ALERT) Mufasa morre, levou-se três anos para animar, isso porque o departamento de Computação Gráfica — mesmo sendo 2D, é utilizada computação para facilitar o processo — teve de programar um novo software para que o computador pudesse gerar centenas de animais correndo sem haver colisão entre eles.

Um flipbook é um ótimo exemplo para entender como funciona uma animação.

Em 1995, Toy Story, o primeiro longa-metragem de animação em 3D é lançado (não, não é Cassiopeia) e isso representa o primeiro grande passo da animação computadorizada. A tecnologia vai avançando, processadores ficam mais poderoso e assim as possibilidades de fazer trabalhos com computação gráfica se expande de forma quase que exponencial, isso fez com que os projetos da empresa que era de Steve Jobs, Pixar, a realizar filmes de maneiras não antes vistas no cinema, os quais além do CGI de ponta, cada longa contava com uma história muito bem escrita, sendo sucesso de crítica e público.

Já o Walt Disney Animation Studios que sempre trabalhou com desenho, sendo responsável pelo primeiro longa de animação da história e por diversas revoluções no ramo, produziu seu primeiro filme totalmente em 3D em 2000 com Dinossauro, gerou um bom retorno até, mas deixando a desejar em relação ao que o estúdio já havia feito no passado. Então a Disney voltar a fazer filme em computação gráfica com O Galinho Chicken Little, após o fiasco de Nem Que a Vaca Tussa, o estúdio ficou flertando com a animação por computador em mais alguns filmes até que a última tentativa de filme em 2D foi A Princesa e o Sapo, a qual apesar de ser um bom filme, não obteve o retorno financeiro desejável para que o estúdio continuasse com desenho tradicional, abandonando de vez e produzindo filmes em CGI até os dias de hoje.

A DreamWorks apesar do primeiro filme do estúdio de animação ser em 3D nos primeiros anos os longas eram majoritariamente em 2D até o sucesso de Shrek que fez com que o estúdio trabalhasse apenas com computação gráfica.

Em asterisco vermelho: filmes em 2D; Em asterisco verde: filmes em stop motion

Alguns questionam o uso excessivo da computação gráfica alegando que isso gera uma produção muito cara, o que de fato é, no entanto, ao comparar com os gastos de uma produção de animação tradicional, o 3D demonstra-se uma alternativa mais lucrativa. Primeiro porque em ambos os tipos requerem uma enorme equipe de animadores, o CGI se sobressai pois é muito mais fácil encontrar alguém que trabalhe com computação gráfica a um desenho tradicional, o que também torna mais fácil a substituição de empregados. Hoje existem softwares como o Maya que permitem a qualquer usuário aprender a criar trabalhos com animação, modelagem e renderização em 3D.

Mesmo com a variedade de ferramentas e tecnologia de ponta, ainda é necessário um gigantesco esforço. Só para ter noção, em Frozen, levou-se 9 meses para poder fazer o castelo da Elsa e na famosa cena da música Let It go, a parte em que ela caminha pela sacada do castelo possui 218 frames e dentre eles possui o frame o qual levou-se mais tempo para a renderização, a qual foi cerca de 132 horas, isso é mais que 5 dias. Contudo, com o conhecimento e a plataforma certa, consegue-se melhores resultados com a animação 3D e em menos tempo do que desenhando quadro a quadro, porque é mais fácil para colorir, adicionar iluminação e revisar.

Don Bluth, o animador o qual criou diversas animações nos anos 80 e 90 teve o seu último projeto de longa metragem Titan A.E., lançado em 2000 pela Fox Animation Studios que foi fechada após o fracasso do filme e em seu lugar entrou a 20th Century Fox Animation — Em especial a Blue Sky Studios — que produziu filmes da franquia Era do Gelo, Rio, entre outras.

Esses são alguns filmes onde o Don Bluth esteve envolvido, seja como diretor, produtor, roteirista ou animador. Reconhece algum?

Em 2015, Don Bluth e Gary Goldman — que também trabalhou em vários filmes do Don Bluth — levantaram um projeto no Kickstarter para a adaptação cinematográfica do clássico jogo Dragon’s Lair, franquia de game em que Bluth este envolvido, contudo o projeto foi cancelado pois não bateu a meta de 550.000 dólares arrecadando apenas $241,579.

Mas ainda há uma luz no fim do túnel, Bluth e Goldman abriram novamente o projeto no site do Indiegogo com uma meta menor de 250 mil dólares e eles não só bateram essa meta como duplicaram, ultrapassando a meta original e hoje o projeto tem arrecadado $655,278. O objetivo é fazer um curta para enviar aos executivos dos estúdios grandes e financiar um longa-metragem, pois um filme desses precisa de milhões para a sua realização. Além Don e Gary, e equipe de animação que faz parte deste projeto é composta por animadores que já fizeram clássicas animações em 2D no passado e o compositor será Christopher L. Stone, responsável pela trilha sonora do jogo original do Dragon’s Lair.

Infelizmente, não há perspectiva por parte dos grandes estúdios de animação ocidental a retornar com longas em 2D. Os filmes em 3D nos últimos anos têm conquistado bilheterias em números recordes e não parece que essa onda irá parar tão cedo, resta aos saudosistas assistir filmes antigos ou optar por longas independentes caso queira ver algo feito em desenho à mão.

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