Futuro Estranho

Como se não bastasse olhar pra trás e ver todo aqueles anos jogados no lixo, sem aprendizado, vícios acumulados, sem a estrutura básica pra enfrentar as porradas do mundo e levantar sem sequelas eu vejo um futuro meio estranho, já que o presente está uma bosta, os sinais da minha caminhada vão ficando cada dia mais vermelhos.

Tudo parece decadência aqui na quebrada, os vizinhos não fazem mais aqueles churrascões com aquele som maroto que vara a madrugada. O bar que toca pagode perto da estação no Itaim tava vazio. Vazio não, pois, mas se formos comparar aos tempos das vaconas, o boteco tava com uns gatos pingados.

Pra mim um lugar que já teve mais 110 pessoas enchendo a cara e ouvindo aquela música popular, agora com 40 e poucas é um lugar com gatos pingados. Parei pra me sentir um pouco da massa, da minha raiz suburbana. Ouço um vulto, lá vem todo gingado, todo bêbado, seu boné preto, sua camiseta amassada, a bermuda cyclone de duas cores, personagem do Itaim revisitado, Willian por nome, “libélula” de alcunha (graças á aqueles óculos juliet do Paraguai que ele usa). Ele me oferece a garrafa de “Cantina do Vale” pela metade, diz que aquele vinho tinha zoado ele, que se não fosse a Dilma, poderia ter comprado uma catuaba ou algo melhor, agradeci a garrafa e ignorei a falta de conhecimento politico do meu colega. Ele caiu fora. Comprei um maço de Vila Rica (falando em produtos paraguaios) e fiquei ali até terminar de fumar o primeiro cigarro do noturno.

Como já disse que o presente ta uma bosta eu não tava nem um pouco a fim de voltar pra casa. Me dirigi pra praça do cultural, apelido da praça Lions Clube. Lá onde normalmente o bicho pega e a garotada zoa demais. Cheguei lá e não acreditei no que vi. Mais gatos pingados, poucos skatistas. O boteco dos rastas quase vazio. Cadê os funkeiros, os travestis, os otakus e os headbangers? Uns gatos pingados, do Dória, outro dos rastas, outros do Apoena. A maioria cambada dos caras da Vila Alabama e do Romano não viriam mesmo, devem tá até agora com água nos joelhos por causa das enchentes.

Tinha um grupinho tocando Legião fiquei no meio deles até acabar o vinho, e aquilo não me chapou, me despedi, gastei meus últimos 5 réis da semana com cachaça e felizão fui ver minha velha conselheira amiga Carolina. Chorei no colo dela, e sempre com aquele olhar de Bette Davis me falou:

-A vida, Mário- Trago de Marlboro Ice- Significa muito mais que isso- Trago- Vai além da sua cotidiana melancolia- Trago- Da sua bad trip rotineira. Você tem que pensar mais em si.

Colocou conhaque pra nós dois e me ofereceu amor, eu neguei e ela riu, ainda não consegue acreditar na minha fidelidade com a minha namorada.

Voltei pra casa. No outro dia acordo. Leio o jornal. Vejo movimentações sendo preparadas pra um golpe facista, vejo atos hostis á locais sindicalistas e de militância. Vejo uma policia que defende um Estado em decadência. Tudo é decadência agora meu irmão, acabaram as bads trips, por que agora o semáforo fechou de vez pra nós da quebrada, e sem luta, a democracia cai como em 64.

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