
Domadas
Nós mulheres nascemos, naturalmente, fadadas ao fracasso. Fracassamos como filhas, amigas, mãe. Nada do que fazemos é perfeito. Parece tão injusto saber que nunca corresponderemos à altura dos ideais. Mas este é o nosso presente: não precisamos.
Todos os dias nos esforçamos para atingir um lugar surreal. Não poderia dizer irreal porque dessa forma o lugar não existiria. E talvez só não exista para os homens se não são cobrados a serem pais perfeitos como máquina. Porque nós somos cobradas. E culpadas por tudo que nossos filhos fazem. É inadmissível que algo fuja ao nosso controle. Somos culpadas também pelas coisas ou situações ruins relacionadas aos nossos companheiros homens. A responsabilidade de tudo é nossa. As mulheres grávidas ou com recém nascido se preocupam em apresentarem-se bonitas aos pares masculinos. Esse peso não é ensinado ao homem. Nem a cozinhar enquanto vigia os irmãos mais novos ou saber lavar uma panela direito. O tudo é cobrado de nós.
Terrivelmente nos acostumamos a dar conta do tudo. E sermos plenamente desenvoltas para o tudo. Mas vocês sabem o que é tudo? É o infinito. Infindável. Crescemos tanto para nossas pré ocupações. Quanto mais praticamos mais conseguimos acordar às 5:30 malhar, comer enquanto amamenta o bebê, fazemos perguntas para ajudar a outra criança a estudar ao mesmo tempo que avaliamos as respostas, lembramos de avisar o filho mais velho que a conta do banco dele chegou e foi pro endereço antigo na casa dos pais. Algum sexto sentido sabe quanto tempo ainda se tem para o banho, chegar no trabalho às 8h, calcular a melhor rota para, no horário de almoço, pegar as crianças, além de claro, não esquecer quais produtos de limpeza estão faltando na dispensa. Isso não foi tudo.
Percebem? É surreal porque o “tudo” existe para nós e a gente busca ele. Queremos que TODA a nossa pele seja lisinha, queremos que TODOS os nossos cachos definam, queremos que TODO o trabalho seja feito. É surreal porque é absurdo pensar assim, é um pesadelo viver desse jeito.
Homens não são capazes de viver assim. Mulheres casadas com homem, vocês notam como eles geralmente demoram muito mais para fazer atividades domésticas?! E comumente fazem um serviço de baixo nível! “VOCÊ ESTÁ GENERALIZANDO OS HOMENS”. Sim e foda-se. O culto ao perfeccionismo é ensinado somente às mulheres.
Andei lendo sobre paganismos e estudando sobre a sociedade pré cristã. (europeia, é foda achar material para outros povos). Nem sempre fomos assim. Na verdade nossas “podas” ancestrais serviram a objetivos políticos, sociais e econômicos de grupos específicos. Logo, NÃO é natural que nós sejamos assim. E se não é natural, é mutável.
Sei que muito se descobre quando a gente desperta desses ensinamentos vazios. A gente se dá conta do tempo perdido enquanto corríamos para o inalcançável em vez de conhecermos a nós, ao nosso corpo, aos nossos desejos e voz. Ah! Nossa voz. É uma delicia ouvi-la e nos sentirmos merecedoras de fazer escolhas em prol de nós mesmas. Nos sentimos existir, pela primeira vez.
E é lindo e inspirador ler histórias de mulheres que resistem à essa sociedade que nos escraviza por inteira, que nos doma. Se em 2018 ainda existe uma grande aversão à independência, autoconhecimento e autossuficiência feminina… imagina o quanto não se colocou mulher em fogueira? E aí toda a história faz sentido, porque do jeito que ensinaram na escola ficou faltando essa parte.

