Nossos filhos

Esses dias em uma livraria da minha cidade eu estava a olhar as prateleiras infantis. Antes de sequer olhar os títulos me assustei com o tamanho da estante. Nenhuma criança conseguiria acessar os livros da parte mais alta. Depois do susto quis até descobrir sobre o que eram os conteúdos. Mas a forma horizontalmente alongada das prateleiras distribuía tantos volumes coloridos que eu me perdi. Uma imensidão de histórias mágicas, enciclopédias e até narrativas religiosas.

Surgiu sem querer uma sensação de medo. Comecei a pensar como meus filhos terão um acesso infinito a informações. É claro que não temos nenhum charme natural ao fazer infinitude, não desenhamos lindas galáxias no escuro. Fazemos de forma inútil, egocentrada e efusiva. Por exemplo, produzimos mais comida do que precisamos. E ainda assim há fome. Produzir somente pelo ato em si, afinal gera riquezas importantes para poucos de nós. É a essência da nossa herança humana; marcada a ferro do século XVIII.

Centenas de livros abarrotados em estantes inalcançáveis. É assim que vamos oferecer leitura aos nossos filhos. Como um excesso, uma superprodução e acompanhado da forte certeza de que não se dará conta. Páginas secas aos montes para entenderem que ler é uma atividade exclusivamente racional.

Temos certeza do bem que estamos fazendo, pois conhecemos métodos de aprendizagem altamente respeitáveis acima de qualquer mimo. Já descobrimos a possibilidade de aprender dois idiomas ao mesmo tempo. Se é possível ser bilíngue aos seis anos com certeza exploraremos um novo mercado de educação infantil. E venderemos muito, para poucos. Estimularemos ao máximo os nossos bebês. Tapetes acoplados com arcos que passam por cima da criança e lhe sacodem na cara pequenos animais de plástico colorido. Isso tudo simplesmente porque é possível, se trabalharmos exaustivamente para tanto e os privilégios permitirem.

Nossos filhos serão grande investimento. Desde o berço cuidados por tecnologias, dominarão as ferramentas cotidianas muito melhor do que fazemos hoje. Porém, o desenvolvimento tecnológico abre tantas possibilidades que é preciso especializar todo o nosso mundo. Qualificações cada vez mais minuciosas são exigidas no mercado de trabalho. As produções científicas crescem cada vez mais isoladas. Fragmentamos a natureza para impor a nossa lógica porque acreditamos ser capazes de explicá-la. Assim, vendemos livros sobre buraco negro a crianças e não importa se elas sequer sabem como é a vida na Terra. Não temos tempo, é preciso aprender sobre buraco negro no fundamental I.

Desvalorizamos a natureza, não explicamos como as nossas meninas devem se amar. Selecionamos o meio social mais conveniente. Obrigamos os professores a não reprimir nunca. Ainda evitamos explicar que homens podem se beijar. E eles crescerão engasgados de conhecimento, técnica e produção. Especialistas em algo e completos em nada.