sobre suicídio

Cheguei no pronto atendimento psiquiátrico e quando a psiquiatra, sentada na minha frente vestindo um macacão preto, me perguntou o que fazia eu querer me matar, o que eram esses sentimentos, eu simplesmente não consegui responder. Não tinha uma resposta. “Eu não sei, eu só queria me desligar, eu não sei explicar”, eu disse pra ela. Ela me olhou com a testa franzida e disse: “uhum, eu entendo”

A verdade é que você não acorda num dia e pensa: “hoje eu vou me matar porque tô afim” não é como escolher uma festa pra ir, ou um um restaurante onde jantar. No meu caso foi a falta, me faltava muita coisa que ninguém podia me dar ou resolver por mim. A falta de perspectiva, a falta de auto estima, a falta de forças pra terminar um relacionamento longo e desgastante, a falta de enxergar que eu merecia ser feliz e que eu poderia efetivamente ser um dia. Aí os sentimentos vão se acumulando, você não resolve nada, se sente impotente e quando vê aquelas crises de ansiedade que antes aconteciam a cada três meses, agora acontecem 24 horas por dia e você não tem mais forças pra fazer nada além de querer ficar na sua cama e dormir. Pronto, você está com depressão em decorrência da ansiedade muito elevada — aquela que você achou que não precisava de tratamento há uns meses atrás porque “ah, vai passar, eu vou resolver as coisas”. — Logo tudo fica tão obscuro e sufocante que você já se sente morta mesmo estando viva. E, aqui entre nós, a morte é charmosa e convincente.

A morte é sedutora. Enquanto você pensa quantos comprimidos além dos que você já toma são necessários para apagar, ela dança sensualmente na sua frente e suspira no seu ouvido que mais uns comprimidos não vão te fazer mal, que uma cartela inteira não é suficiente. Que você pode tomar quantos quiser porque vai ficar tudo bem. Ela retruca que você pode se cortar mais e mais fundo ou se atirar na frente de um ônibus… Ela diz: “Vem, vai passar isso tudo quando a gente estiver junto. Vai ficar tudo bem”

Demora muito tempo pra você perceber que não vai ficar tudo bem. Que morrer não resolve nada. Morrer é fácil mas não exclui os problemas que você tem. E não, não é egoísmo querer morrer. Você simplesmente não enxerga nada na sua frente além do desejo de estar morta. As pessoas tentam te ajudar, você continua tomando os seus remédios mediante a supervisão de alguém, você continua indo na terapia… é uma batalha interna desgastante, 24 horas por dia lutando contra um pensamento que te consome por dentro.

Eu não sinto que superei tudo, não vou negar que vez ou outra ela vem me visitar e tenta me convencer que viver simplesmente não é pra mim, que eu não mereço o que fazem por mim e que eu deveria sumir. A única diferença é que quando nos encontramos hoje em dia, eu sei o quanto mereço estar aqui sim, venci uma batalha já e me sinto orgulhosa de ter sobrevivido, é a minha força interna, que eu desconhecia completamente, que me faz querer continuar vivendo. Ninguém pode ser o motivo pra você querer estar viva além de você mesma.

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