Sobre Interstellar — Alerta de Spoiler

Eu gosto de começar meus textos com algum impacto e nesse caso será um dos piores spoilers que você poderá tomar na vida se tem interesse em ver esse filme e ainda não viu. Vejam essa cena.

Há quem ache essa cena boba, mas para mim foi uma das melhores cenas de ação produzidas nas últimas décadas de história do cinema. Em quatro minutos, um clímax intenso e complexo que viaja entre filosofia, física, ciência e tecnologia. Vou começar explicando a parte da filosofia. Essa cena vem na sequência de uma luta mortal entre a equipe de cientistas de Cooper e Dra. Brand contra o Dr. Mann que era um dos cientistas presos em um dos planetas a serem explorados pelas expedições. Depois de uma estadia de décadas sem qualquer companhia, o Dr. Mann tinha enlouquecido de solidão e estava desesperado para voltar para a Terra. Em seu ataque para assumir o controle da missão comete um erro de procedimento durante a atracagem à Endurance destruindo a si mesmo, quase destruindo todos os meios que tinham de voltar para a Terra e, nessa reviravolta no seu ato de destruição, a luta de Cooper e Brand deixa de ser política e passa a ser uma luta contra o que eu e um amigo chamamos certa vez de ditadura da natureza.

A nave Endurance começa a cair desgovernadamente em direção à destruição total e à condenação da equipe de cientistas. Sem alternativa, assumem uma luta que, mesmo apesar de todos os meios e mediações tecnológicas, conquistas de última linha e toda a história humana serem a ponta de lança da equipe, é uma luta que coloca humanos e neandertais nas mesmas condições contra a natureza e pela sobrevivência. O que muda entre um e outro é apenas o patamar histórico e as objetividades. Não é uma ação vazia de sentido como em grande parte das produções hollywoodianas em que as mediações e as objetividades para a ação são inverossímeis, ridículas e injustificáveis.

Mas a ação é extrema: uma atracagem em rota descendente e rotacional. Quem conhece minimamente o nível de cautela e meticulosidade das operações espaciais que existem hoje — daí o papel da tecnologia — , plenamente comparáveis às do filme, assiste a essa cena e se vê na impossibilidade de permanecer indiferente. Todos a quem o mostrei esboçaram alguma reação a ela. Eu a assisti pela primeira vez boquiaberto, arrepiado e apertando as mãos.

Para a física, o que está em jogo é uma questão de referencial. Aparentemente é simples: para atracar, as naves precisam estar em posições determinadas e em aproximação lenta e calculada. Estar parado, para algo girando a 68rpm é girar a 68rpm no mesmo sentido. Some a esta fórmula as limitações bio-fisiológicas humanas, cuja reação à extrema gravidade gerada no giro, é o desmaio e a luta contra a ditadura da natureza não resume-se à atracar duas naves em rota descendente e rotacional, mas uma luta contra a natureza do próprio sujeito. Se prolongada para além dessas limitações, é clara e obviamente uma luta perdida.

Um parênteses aqui para um diálogo com o cinema em geral. Para tornar meu discurso estético-artístico mais palatável ao senso comum, costumo dizer que o que falta aos filmes com cenas de ação é uma medida justa para a ação. Mas não é apenas isso que falta. Como se não bastasse as mediações e objetividades inverossímeis, ridículas e injustificáveis, a ação em si no cinema dominante estadunidense também tem tomado uma proporção injustificável, num sentido irrealista e tornando-a seletivamente indiferente a quaisquer outras objetividades periféricas ao epicentro da trama cuja problemática é sempre a boa e velha manutenção da ordem. O resultado imediato e estético disso nos filmes é que a violência toma proporções absurdas. Basta assistir um Transformers da vida para entender do que estou falando. Mas o pior resultado disso, e não vou expor quaisquer dúvidas que uma coisa seja consequência da outra, é a dessensibilização da sociedade quanto à violência, à morte e a desvalorização da vida.

Mas digo isso, agora voltando à Interstellar, porque nessa cena o filme conseguiu não só a justa medida da ação e da violência, mas conseguiu também justificá-las de forma verossímil e aceitável. Não é qualquer produção da indústria do cinema dominante estadunidense que consegue comprometer-se com a imagem tão seriamente. Certamente trata-se, agora fazendo uma leitura do segmento social associado à produção desse filme em específico, de um segmento da indústria mais progressista, de um ponto de vista do ideário filosófico humanista, que a média das produções.


Como costumo alertar a quem o mostro, Interstellar é um filme com altos muito altos e baixos muito baixos. Esse foi um dos momentos mais altos. E talvez seja mera questão de gosto, mas há os momentos em que o filme negocia sua repercussão e bilheteria ao adotar um discurso bastante raso, acrítico e a-cético — de recusa do típico ceticismo científico — em diálogo com segmentos mais conservadores da sociedade. Certamente não é uma obra totalmente comprometida com ideários progressistas e humanistas. Foi, antes de mais nada, pensada e planejada para gerar dividendos aos produtores e ao estúdio. Então nada mais esperado que uma obra que negocie sua estética dessa forma e, nesse sentido, tente dialogar também com o senso comum. O que faz de maneira até bastante didática.

Fazendo um adenddum bem informal aqui, algo que para muitas pessoas é bem óbvio, mas apenas para alertar àqueles que apegaram-se ao filme que não falo isso com intenção de desmerecê-lo de maneira nenhuma. A intenção é apenas descrever o filme filosófica e ideologicamente e contextualizá-lo historicamente para compreender como se deu seu processo produtivo e criativo. Inclusive que eu sinta necessidade de me explicar evidencia bem o fato desse filme, de certa forma, ter resgatado minha esperança nas artes que estavam antes mergulhadas, por minha parte, num profundo descrédito afetivo e ideológico.

Mas para exemplificar o que estou dizendo vai a seguinte cena.

Mais uma vez, eu, entre as pessoas com quem assisti, não fui a única pessoa a esboçar uma reação a essa cena. Como a legenda não ajuda vou explicar o contexto. A equipe acabou de voltar de uma expedição em um planeta e precisa decidir para qual vão em seguida procurar por condições que sustentem vida terrestre sendo que tem pouco combustível para continuar uma missão prolongada e poder voltar para a Terra. Em um dado momento no debate surge a questão que o amor da Dra. Brand por um dos cientistas em um dos planetas estivesse afetando seu julgamento profissional sobre para qual planeta ir em seguida e ela começa a defender sua posição. Durante a defesa vemos dois cientistas abrirem mão quase por completo de qualquer ética profissional e ceticismo. Explico.

Em um dado momento a Dra. Brand pergunta “Nós amamos pessoas que morreram. Qual a utilidade social para isso?” e Cooper responde “Nenhuma”. Essa resposta é obviamente e profundamente equivocada. As religiões primitivas surgiram a partir da noção de vida após a morte. Esta noção norteou também a elaboração das matrizes de religiões mais recentes e é consenso entre antropólogos e historiadores que o conhecimento religioso, por mais que não seja fundamentado nos mesmos pressupostos que o conhecimento científico muito mais recente, foi e ainda é extremamente útil para diversos povos. Para citar um exemplo, plantas medicinais socialmente associadas a rituais religiosos são efetivamente usadas para cura não porque um dado povo desenvolveu um conhecimento científico sobre as causas materiais da cura, mas porque o uso da planta está associado a um ritual religioso. A cura pelo uso ritualístico da planta é um conhecimento empírico e verdadeiro. Isso para não falar do profundo impacto social e papel histórico e cultural que as religiões desempenham no desenvolvimento das sociedades em diversos níveis.

Mas esse não é o único dado da cena. A Dra. Brand em sua defesa apela para a metafísica argumentando que “o amor é a única coisa conhecida que transcende as dimensões de espaço-tempo”. Bom, esse argumento foi definitivamente uma das minhas maiores decepções com esse filme. Fragilizou a personagem da Dra. Brand, talvez não coincidentemente uma mulher, desnecessariamente e de uma maneira até desrespeitosa. Esse conflito interno, se é que era necessário para a narrativa, poderia ter sido muito melhor trabalhado, inclusive considerando o ponto de vista de uma cientista profissional, cética e militar treinada (mesmo apesar do filme sugerir que possam ser astronautas civis), requisito básico a ser preenchido, pelo menos nos dias de hoje, para viajar ao espaço. Minha principal preocupação com essa cena, como não há como afirmar com certeza que o fato dela ser mulher e dizer isso foi apenas uma coincidência ou não, é com a estética do filme que do meu ponto de vista ficou extremamente prejudicada por argumentos insustentáveis e inverossímeis à situação e à personagem.

Se eu fosse Christopher Nolan teria repensado muito seriamente essa cena. Mas, como disse anteriormente, apesar de eu acreditar ter algum fundamento para dizer o que disse, pode ser meramente questão de gosto.


Esses dados mostram como o filme pode ter negociado sua bilheteria com segmentos da sociedade mais ligados ao conservadorismo e ao senso comum. Mas o que exatamente estou chamando de humanismo e progressismo num filme de ficção científica?

O humanismo é um movimento filosófico e cultural pensado durante a renascença europeia que “ valorizava um saber crítico voltado para um maior conhecimento do homem e uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades da condição humana” (consulta rápida ao Google). Acontece que a estética das artes tem consequências práticas e culturais na realidade e no imaginário social. Então, dependendo da maneira como retrata-se o ambiente do universo na arte, a cultura passa a reproduzir esse retrato independente da sua correspondência, ou falta dela, à realidade. É certo que, tratando-se de artes e ficções científicas, é praticamente obrigatório que exista certo nível de extrapolação da realidade, mas qual a diferença estética mais imediatamente evidente entre Star Wars, Star Trek, Interstellar, Battlestar Galactica e outras obras de ficção no espaço? Justamente o nível de extrapolação e o comprometimento em exibir algo que corresponda mais ou menos a realidade.

The Martian, por consideração e exemplo, – SPOILER – é esteticamente bastante realista, de uma maneira, inclusive, mais comparável à Interstellar que essas outras obras citadas anteriormente, mas não sei se o fato da Hermes ter voltado pelo Matt Damon é totalmente aceitável ou verossímil. O que coloca em questão, na verdade, a verossimilhança de toda a obra. Não é o caso de Interstellar em seus momentos mais inverossímeis, por este possuir momentos muito distintos uns dos outros. É um verdadeiro épico. Na narrativa de Interstellar, o início é completamente diferente do meio que é completamente diferente do final e cada momento é um estágio e um patamar diferente da jornada, cada um com um clímax e desfecho próprios que levam a novos patamares.

Em síntese, para uma análise específica de ficções científicas, penso que há dois níveis principais para tal extrapolação. A extrapolação do mundo natural e a extrapolação das potencialidades humanas. Do ponto de vista humanista, a extrapolação do mundo natural é a menos saudável, pois, privada de um senso crítico, pode ajudar a propagar uma imagem da realidade que contribui pouco e provavelmente enganosamente para a construção de um conhecimento seguro. Uma obra que extrapole no mundo natural, para além de um senso crítico muito claramente e objetivamente colocado em Interstellar, é, na mesma medida da extrapolação, uma obra que abre mão do pressuposto humanista do saber crítico. Interstellar, com toda sua fundamentação teórica muito elogiada pela comunidade científica, astrônomos, cosmólogos e afins, possui uma extrapolação do mundo natural em níveis apenas do que nos é completamente desconhecido – como o interior de um buraco negro, ou ao navegar pelo bulk (uma região do espaço que pode existir para além das quatro dimensões em que vivemos) – para o qual é perfeitamente adequedo, compreensível e definitivamente esperado o uso da licença literária, estética e poética. Pode-se dizer que Interstellar optou conscientemente por extrapolar no mundo natural apenas até onde o saber crítico o permitia extrapolar.

A extrapolação das potencialidades humanas em Interstellar também é explorada de maneira muito crítica. Algo que fica bastante claro com a precariedade da Endurance que, mesmo sendo e representando a ponta de lança da equipe de cientistas e da humanidade, é uma nave de capacidades e dimensões bastante modestas em comparação com outras naves da grande maioria das produções de ficção científica hollywoodianas. É interessante notar como que justamente pelas dimensões e capacidades é que as naves em Star Trek e Star Wars parecem possuir uma áura de segurança, referência e chão, mesmo ao estar do lado de fora. Desde que a Enterprise esteja por perto, estamos seguros. O que não acontece com a Endurance. Dentro ou fora dela há risco sempre. É no sentido da crítica às potencialidades humanas mediada pela crítica científica e teórica ao imaginário de um mundo natural hegemonicamente fetichizado (em oposição a um imaginário crítico) é que Interstellar torna-se um épico humanista, contemporâneo e verdadeiramente visionário. Contemporâneo, pois o é e o faz estando inserido na sociedade estadunidense de nosso contexto histórico dialogando com ela e, no diálogo, todos os problemas de verossimilhança e de construção da trama acabam contribuindo na composição de sua contemporaneidade. Um épico produto da sociedade de seu tempo.