Onde o Mar Descansa: Até que o segredo deixe de ser segredo

O termo “um filme de dança” pode significar um conjunto de câmeras no palco, telas, computadores, técnicas mágicas e animação, no qual a dança e a tecnologia interagem como colaboradores constrangidos, mas este é um filme de dança numa escala cinemática, que simplesmente troca diálogo por movimento.

Onde o Mar Descansa é o segundo filme do diretor André Semenza e da coreógrafa/bailarina Fernanda Lippi; o primeiro foi As Cinzas de Deus. Ambos os filmes têm uma narrativa fluida, guiada por uma complexa direção, soberbo trabalho de câmera, performances refinadas, delicados arranjos musicais e locações deslumbrantes. Nenhuma das ações acontece em um palco — o palco é a tela — mas em uma paisagem campestre ou em prédios com ar de abandono ou impregnados com o último suspiro de uma era passada. Onde o Mar Descansa é passado na Suécia rural, numa casa de verão construída em uma pequena ilha por um rico editor do século XIX. O cenário é romântico, remoto e combina perfeitamente com o cunho de solidão, amor e morte de que o filme trata.

“Arrasada com o impacto da perda de sua alma gêmea, uma mulher é levada por forças desconhecidas às profundezas das florestas no meio do inverno, no âmbito do seu subconsciente.”

Embora não haja diálogo, Onde o Mar Descansa não é um filme mudo; tem uma trilha sonora composta por The Hafler Trio, entremeada com noturnos de Chopin, acordeom parisiense e uma banda sueca de dança folclórica, e há dois narradores que recitam versos, como um fluxo de conscientização de poesia sáfica da poetisa Katherine Phillips, do século XVII, e dos poetas de fim- de- século Renée Vivien e Algernon Charles Swinburne. Na versão que eu assisti, os narradores recitam os fragmentos em sueco sobre legendas em inglês, mas as imagens são tão fortes e contêm tantas pistas comoventes sobre a história, que há pouca necessidade de legendas, mesmo que você não entenda sueco. A poesia — e a maneira como é lida por Lippi e Marcela Rosas — acrescenta uma etérea e transcendental dimensão.

Assim que vemos a imagem da abertura — uma densa floresta verde — fica claro que há alguém com um extraordinário olhar por trás da câmera. Marcus Waterloo não está simplesmente atrás, mas profundamente imerso na paisagem e nas vidas dos personagens do filme. O seu trabalho de câmera é um elemento integrante da coreografia de Lippi e da direção de Semenza; vemos tudo através do seu olho, e o seu olhar vê tudo através do prisma da poesia. É essa profunda integração entre todos os elementos do filme que faz Onde o Mar Descansa um filme tão rico.

“Até que o segredo deixe de ser segredo” é a legenda de abertura do filme, extraída de Tríades de Swinburne, que nos desperta para um sentido de espaço e solidão, de amor e perda, de uma beleza misteriosa dentro de uma beleza que está em tudo. Onde o Mar Descansa, tal como o seu título, não tem limites claros; a sua narrativa básica é o relacionamento entre duas mulheres que vemos (mas não as ouvimos) conversando com intimidade num elegante sofá da virada do século que já viu tempos melhores. Essa imagem inicial é repleta de sugestões de vida e decadência, amor e morte, claro e escuro, passado e presente, que emergem e recuam durante o filme: dois fogosos cavalos galopando na neve, com os corpos de duas mulheres voejando sobre os seus dorsos; Livia Rangel desmaiada, o vestido esgarçado que combina com o papel- de- parede brocado no qual está encostada, e Lippi e Rangel flutuando na água vestidas dos pés à cabeça, como duas Ofélias.

As imagens levam o filme para frente e para traz no plano horizontal do tempo, mas há ali vários solilóquios coreografados, nos quais o poder da dança se infiltra na consciência da pessoa. Na sua coreografia, Lippi se concentra no torso, na parte mais profunda e emocional do corpo; Raquel é eloqüente, mesmo quando o seu movimento é discreto ou calmo, e Waterloo sabe precisamente quando deve chegar mais perto ou mais distante, como se ele fizesse parte daquele diálogo interior. Há um dueto sombrio e memorável na floresta, no qual Rangel e Ana Mesquita af Sillén se envolvem num transe de dor.

Onde o Mar Descansa é feito de tal forma que a sensação de crise iminente nunca está distante; o filme não é construído em forma de narrativa, mas, ao contrário, adiciona planos de veemência nas imagens de beleza etérea em situações de extrema dor. Se a morte é uma libertação, é aí que a poesia, as imagens, a dança e a música solucionam a final e fatídica decisão em Raquel. Onde o Mar Descansa eleva o nível de dança em filme para dança como filme. Filmado em atraente Cinemascope, é uma produção que é mais bem assistida em uma sala de cinema íntima e confortável. Há, ainda, oportunidades para ver o filme desta maneira; confira locais, datas e horários na página Onde o Mar Descansa no Facebook.

Artigo original: Nicholas Minns (writingaboutdance.com)
(Tradução: Lourdes Menegale and Dr Maurílio Menegale)