Assistindo Tudo do Kevin Smith! O Balconista (Clerks — 1994)

Fazer um filme é uma tarefa difícil. Mesmo hoje, com câmeras digitais e celulares capazes de gravar em HD, a máxima de Glauber Rocha “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” consegue te levar até certo ponto, mas quando você é um jovem roteirista e diretor com a aspiração de entrar para a indústria do cinema, apenas isso pode não ser o suficiente. Inspirado por Richard Linklater com Slacker (1991), Kevin Smith juntou seus amigos, estourou todos os seus cartões de crédito, vendeu sua coleção de quadrinhos e filmou O Balconista (Clerks-1994), um filme que abriria as portas do mundo do cinema para Smith e serviria de inspiração para jovens cineastas que queriam arriscar tudo, como ele fez, em busca de um lugar ao sol.

Em sua primeira exibição, em uma mostra de cinema independente, O Balconista foi assistido por apenas uma pessoa além da equipe que participou no filme, essa pessoa era Bob Hawk, um “guru do cinema independente” segundo Smith, que o encorajou a se endividar ainda mais e mandar o filme para o Festival de Cinema de Sundance, onde ele trabalhava no comitê de seleção de filmes (o que Smith não sabia na época), e onde o filme ganhou o “Filmmakers Trophy” (empatado com francês Fresh de Boaz Yakin). Posteriormente, com apoio e financiamento da Miramax, o filme foi para o Festival de Cinema de Cannes, onde levou o “Award of the Youth” e o “Mercedez-Benz Award”, lançando assim a carreira de Kevin Smith e sedimentando O Balconista na cultura pop como um novo clássico cult.

O filme, feito inteiramente em preto e branco, conta a história de Dante Hicks (Brian O’Halloran), um balconista da loja de conveniências Quick Stop, que é convocado para trabalhar em seu dia de folga, o que atrapalha seus planos e o lança em um dia de desventuras. A história acontece no decorrer de um dia no qual vemos Dante e seu amigo Randal Graves (Jeff Anderson), um pervertido, ácido e irritadiço balconista da locadora ao lado da Quick Stop, discutirem sobre Star Wars, debaterem a vida amorosa de Dante, jogarem hockey no telhado das lojas, irem no funeral da antiga namorada de Dante e lidarem com clientes caricatos que geram as mais diversas situações e debates sobre temas triviais e profundos.

O Balconista é dividido em nove partes, ou capítulos, um paralelo com os nove círculos do inferno em A Divina Comédia de Dante Alighieri, de onde também vem o nome do protagonista. A divisão em capítulos serve para marcar momentos importantes no desenvolvimento do personagem principal, que tem de enfrentar as consequências das decisões que toma no decorrer do filme, afundando-se cada vez mais na surreal onda de má sorte que parece estar envolvendo seu dia e sofrendo consequências advindas de sua inércia perante as questões de sua vida pessoal com as quais precisa lidar, ao mesmo tempo que tem que atender os mais estranhos clientes e manter a Quick Stop aberta.

Se Seinfeld se propôs a ser uma série sobre o nada, O Balconista é o filme que faz isso da melhor forma, se utilizando de segmentos do dia dos personagens para construir uma narrativa baseada no mundano e cotidiano, como se houvessem câmeras capturando as conversas que dois amigos têm e as furadas em que se metem no dia em que um deles nem deveria estar ali, como Dante repete várias vezes no decorrer do filme.

No início do filme vemos uma discussão entre Dante e sua namorada Veronica (Marilyn Ghigliotti) que debatem se sexo oral é sexo, discussão essa motivada pelo fato de Veronica ter dito que só transou com três homens, incluindo Dante, mas que já fez sexo oral com uns trinta e sete. Após isso, Dante descobre que Caitlin (Lisa Spoonhauer), uma ex-namorada por quem ainda é apaixonado, está noiva de um designer asiático, e os dois fatos movem o personagem em uma jornada para descobrir onde seu coração está. Falando assim até parece que o filme é sério, mas essa narrativa serve apenas como um fio condutor que une as experiências surreais pelas quais Dante passa pelo filme, que não tem um foco, o que não é algo negativo. O mosaico de narrativas que constroem O Balconista é o que faz dele um filme tão especial e o que fez com que chamasse tanta atenção, quer dizer, isso e a chuva de palavrões em todos os diálogos.

Dante, Kevin Smith, Veronica, Catilin e Randal

O Balconista não é bem uma história e sim uma vitrine de personagens que já mostrava a maestria com que Kevin Smith conseguiria criá-los e desenvolvê-los por toda a sua carreira. E, falando em personagens, não poderia esquecer dos personagens mais icônicos da filmografia do diretor e que tiveram seu nascimento nesse filme, Jay e Silent Bob (que acredito se chamar Bob Calado em português, mas não tenho certeza). Os dois aparecem esporadicamente no filme e, como todos que passam pela Quick Stop, não acrescentam muito à narrativa principal, com exceção da fala de Silent Bob no filme, fala de que falarei mais para frente. Os personagens já são apresentados na forma que teriam em todos os filmes posteriores, Jay (Jason Mewes) é um falastrão que não consegue dizer uma frase sem soltar um palavrão e falar de sexo, comportamento que Kevin Smith diz ser inspirado no próprio ator e amigo Jason Mewes, e Silent Bob, interpretado pelo próprio Smith, está sempre fumando e não fala nada durante todo o filme, se comunicando apenas com sua expressão facial e mãos. Os dois ficam na entrada da Quick Stop vendendo drogas, falando besteiras e importunando todos que entram na loja ou passam na rua.

Jay e Silent Bob

A única fala de Silent Bob no filme é “Sabe, existem milhões de mulheres bonitas no mundo, cara, mas elas não te trazem lasanha no trabalho. A maioria só quer foder com você”, que desencadeia um processo de catarse em Dante, que decide ficar com Veronica, mas nesse momento já não há mais o que fazer, já que Randal contou para ela as intenções de Dante em reatar com sua antiga namorada que acabara de retornar à cidade e queria desistir do casamento para ficar com ele.

Dante e Randal na cena perdida

O filme tem dois finais, um que termina após Dante e Randal fazerem as pazes depois de brigarem por conta do que Randal havia dito para Veronica e outro, que só circulou nos festivais, em que Dante morre vítima de um tiro dado por um assaltante que invade a loja pouco antes dele fechar. As duas versões (a que passou nos festivais e a que foi lançada nos cinemas) tem ainda algumas outras diferenças, mas nenhuma delas tão significativa quanto o final. A versão que passou nos cinemas é considerada a oficial, já que Dante retorna e é mencionado em outros filmes que se passam após esse. Há ainda a inserção da “cena perdida” em que Dante e Randal vão ao velório de uma das ex-namoradas de Dante e acabam derrubando o caixão ao tentar tirar as chaves do carro de dentro da saia que a morta vestia. A cena não foi filmada por falta de verba e pela equipe não ter encontrado uma locação adequada na época da filmagem, porém, uma versão animada foi adicionada posteriormente quando o filme saiu em home video.

O Balconista não se propõe a ser um filme profundo e reflexivo, mas não deixa de ter seus momentos, em especial no que diz respeito à semi-trama que o perpassa. Acompanhamos o crescimento e desenvolvimento de Dante, que é chamado à ação para se decidir entre as duas mulheres de que gosta, fazer algo com sua vida além de reclamar de ter de trabalhar em seu sub-emprego em um sábado de folga e a não se ver como um herói, afinal de contas sua vida, e esse dia não é exceção, é apenas uma vida normal e sem grandes perspectivas, como seu amigo idiota Randal o lembra várias vezes, e continuará a ser assim a não ser que ele faça algo para mudar isso. Pode-se perceber que o filme é mais sério do que os demais da carreira de Kevin Smith e isso pode ser porque, como ele já disse várias vezes, muito das histórias contadas tem caráter biográfico, o que me leva a crer que a catarse pela qual Dante passa foi um processo pelo qual o próprio Smith passou ou estava passando durante a gravação de O Balconista, que além de ter eventos da vida do diretor, também tem histórias de seus amigos, que foram inspiração para os personagens no filme, sendo representadas na tela.

A influência de Spike Jonze é perceptível no filme, que conduz a “trama” através de diálogos rápidos e bem escritos em detrimento da ação, o diretor é inclusive listado nos agradecimentos durante os créditos finais do filme e Kevin Smith não nega a influência dele em sua carreira. O Balconista é o filme em que essa influência é mais aparente, com os diálogos rápidos conduzindo a história e com a montagem feita por Smith, que concede ao filme um ritmo impecável, fazendo com que os mais de 90 minutos não sejam pesados para a audiência, mesmo que sejam 90 minutos preenchidos quase que exclusivamente com conversas triviais entre os personagens.

Seja para conhecer esse filme que é um marco na história do cinema independente ou apenas para rir da revolta de fumantes iniciada por um vendedor de chicletes querendo aumentar suas vendas, de Catilin entrando em estado catatônico após fazer sexo com um homem morto em um banheiro escuro ou de Randal vendo um filme pornô com hermafroditas, O Balconista vale a pena. Sem dúvida, Kevin Smith amadureceu muito no processo de gravação do filme e isso é visível em seu trabalhos posteriores, mas a gênese de tudo o que fez é esse filme, daqui vieram as ideias que deram início ao View Askewniverse e, para aproveitar por completo o que vem depois, O Balconista é indispensável.

O Balconista (Clerks-1994)
Comédia
Duração: 92 min (theatrical) | 99 min (original cut)
Roteiro: Kevin Smith
Direção: Kevin Smith
IMDB:
7,8/10
Rotten Tomatoes:
7,4/10(88%)
Minha nota: 8,0/10

Eu não quis contar muito do filme para não estragar as piadas e gags e, como disse, não há muito uma história para ser contada. Segue abaixo duas cenas para que vocês possam sentir um pouco o gostinho do filme.

Eu pretendo assistir todos os filmes e séries que tiveram envolvimento do Kevin Smith e fazer pequenos reviews aqui! Próximo filme: Clerks. (Piloto para T.V-1995)