Daisy, Maria e Dandara — Mulheres Negras e Causas Revolucionárias
Texto escrito por Nadja Pereira
CONTÉM SPOILERS DO JOGO ‘BIOSHOCK INFINITE’ E DO LIVRO ‘VIVA O POVO BRASILEIRO’. SIGA POR SUA CONTA E RISCO.
Há alguns meses joguei “Bioshock Infinite”, um FPS bem heterogêneo. Não farei uma resenha sobre o game, nem apresentarei os seus problemas de narrativa, apenas falarei de uma personagem em especial.
Vou explicar um pouco do contexto para quem nunca ouviu falar:
Criado por Ken Levine, o terceiro game da série Bioshock é um jogo de tiro em primeira pessoa que se passa na fictícia “Columbia”. Você só tem a opção de jogar como Booker DeWitt, um homem que recebe a missão de encontrar Elizabeth, uma mulher que está aprisionada em uma torre.
O mais interessante na história é o cenário. Columbia é excludente e racista (pleonasmo?). Negros e brancos têm um papel muito definido no início do jogo. Os primeiros servem e trabalham, já os privilegiados são os donos da cidade e defendem a manutenção de uma sociedade pura, sem estrangeiros ou desertores. A tensão racial está no ar, mas, ainda mantida sob controle. Até que surge o “Vox Populi” ou “voz do povo”, uma armada dos excluídos liderada por uma mulher negra chamada Daisy Fitzroy, ex empregada do Comstock — líder religioso e nacionalista. Como forma de ameaçá-lo, ela mata a sua esposa e a mãe de Elizabeth, Lady Comstock.
Deu pra entender um pouquinho? Então, vamos falar da Daisy.
Daisy só acredita em uma mudança por meio da violência, quer tomar o poder e convida Booker para se juntar à revolução. Em sua primeira cena, ela diz:
“There’s already a fight, DeWitt. Only question is, whose side are you on? Comstock is the god of the white man, the rich man, the pitiless man. But if you believe in common folk, then join the Vox. If you believe in the righteous folk, then join the Vox.”
“Já existe uma guerra, DeWitt. A única pergunta é, de que lado você está? Comstock é o deus do homem branco, homem rico, homem cruel. Mas se você acredita nas pessoas comuns, então entre para o Vox. Se você acredita nas pessoas justas, então entre para o Vox.”
Daisy é “produto do meio”. Duplamente oprimida em Columbia, ela trata a revolta popular como única alternativa, mesmo que isso destrua a vida de inocentes no caminho. Afinal, muitos dos seus também já morreram. Não entrarei na questão dela ser “violenta demais” (risos) como eu li por aí, mas, vamos refletir um pouco sobre a sua condição.
No jogo, você pode encontrar “Voxphones” que explicam um pouco melhor as intenções da personagem.
The one thing people need to learn is that fear is the antidote to fear. I don’t want to be a part of their world. I don’t want to be a part of their culture, their politics, their people. The sun is setting on their world, and soon enough, all they gon’ see… is the dark.
“A única coisa que as pessoas precisam aprender é que o medo é o antídoto para o medo. Eu não quero fazer parte do mundo deles. Eu não quero ser parte da cultura deles, da política, das pessoas deles. O sol está se pondo no seu mundo, e logo, tudo que eles verão… é a escuridão.”
Ela quer vingança.
Em uma das cenas mais emblemáticas do jogo, Daisy pinta o rosto com o sangue de um nacionalista que acabará de matar. Aliás, a violência do jogo foi alvo de muitas críticas. Estranho que a desigualdade social não desperte tanta condenação.
Ao longo do jogo, Daisy e o seu exército se tornam mais violentos e saguinários. O rastro de destruição de Columbia é notável e eles matam não somente membros ultranacionalistas, mas, também crianças e mulheres. A personagem é complexa, portanto, enxergá-la como “violenta ao extremo” mostra que muitos não entenderam Columbia ou fizeram uma leitura bem superficial.
Entenda um pouco mais da personagem aqui:
Quando Daisy surgiu em Bioshock, eu lembrei imediatamente de Maria da Fé, heroína baiana que João Ubaldo Ribeiro traz em “Viva o Povo Brasileiro”:
A grande heroína é Maria da Fé, fruto de uma violência sexual, ela forma um grupo de resistência a identidade legitimada ao povo brasileiro. Com a “Irmandade do Povo Brasileiro”, o projeto de identidade desponta das classes populares, oprimidas e excluídas. O romance dialoga com a linguagem polifônica, sendo elite e povo, a voz do povo por muito tempo anulada ganha uma outra dimensão na narrativa de Ubaldo Ribeiro.
Notaram as semelhanças?
Em uma das passagens do livro, Maria da Fé é intitulada como “a famosa bandida que semeava o terror e a desordem no Recôncavo.” Maria era muito ligada ao seu avô, o Nêgo Leléu, um preto liberto que se tornou comerciante e adotou Dafé, a sua mãe. Quando ele morreu, os soldados acompanhavam o seu enterro caso a revolucionária aparecesse. E, claro, eles estavam certos. Vestida de soldado, ela disse:
— Povo do Arraial do Baiacu e de toda a terra de Vera Cruz! — disse o capitão, a voz agora clara e cristalina, um martelo de araponga retinindo por cima do rechinar da chuva e dos gritos de espanto abafados. — Estamos aqui para prestar a última homenagem a um que haverá de servir de exemplo a todos os que não curvam a cabeça à tirania, todos os que sonham com a liberdade, todos os que aprendem, na luta de cada dia, a respeitar seu próprio valor, todos os que dizem: abaixo o senhor e viva o povo! Viva o povo e viva a liberdade! (VPB, p.247)
Em uma das passagens logo após o enterro, o exército de Maria da Fé mata diversos soldados oficiais e o ato dos desordeiros é chamado de “A derrocada de Baiacu”. Assim como Daisy, Maria odeia ricos e insinua até um extermínio deles:
Se Júlio Dandão tinha dito que matassem os ricos, ela retrucava que há várias formas de matar, não adiantando a forma que mata um para que surja outro igual em seu lugar. (VPB, p.257)
E, por fim, temos Dandara dos Palmares.
Seus registros históricos são duvidosos. Uns historiadores afirmam a sua existência, outros duvidam. Todos nós sabemos que a história é branca, editada por eles e para nós. Uma heroína negra real incomodaria muita gente, como explica Jarid Arraes.
Nós, mulheres negras, crescemos sem nos encontrarmos nos livros de história, poesia, literatura ou sociologia. O machismo racista da sociedade parece nos dizer que não temos o direito de encontrar representatividade e inspiração para rompermos as amarras da discriminação institucional. Muitas sabemos de Dandara e outras mulheres negras importantes somente devido a nossas próprias pesquisas solitárias, ávidas por descobrir. E, infelizmente, somos nós as mesmas pessoas que lutam para que essas mulheres não sejam apagadas da história.
Ainda que tratadas como rebeldes, personagens como estas deveriam ser exploradas com mais frequência no entretenimento porque o registro de mulheres negras que lutaram bravamente por uma causa é quase inexistente.
Suas causas são legítimas em uma sociedade que estupra, mata e marginaliza com muito mais intensidade e frequência. Tudo isso não é inspiração numa rebeldia sem causa. Recentemente, uma pesquisa mostrou o crescimento de assassinatos de mulheres negras em 54,3% entre 2003 e 2013. Docilidade e sensualidade são visões muito frequentes e, hoje, até a bravura por falar de temas espinhosos parece ser mencionada como algo contra nós.
Em 2015, exemplos como os de cima ainda são isolados. Não defendo a diversidade puramente simples, nem a inclusão forçada do “ter que ter uma negra”. Proponho apenas mulheres mais interessantes, ativas, complexas, com qualidades e defeitos. O impacto, mesmo tão controverso, que Daisy, Maria, Jacky, Annalise despertam é extremamente positivo. Deveriam ser comuns e não uma exceção.