Carnaval começa no Maracanã e só termina nas Laranjeiras

Nas Laranjeiras, ninguém admitia a possibilidade de o Campeonato de 1959 não ser decidido já no jogo contra o Madureira, válido pela penúltima rodada. Quatro pontos à frente do Botafogo, em campanha memorável de 16 vitórias e apenas uma derrota em 20 jogos, bastava ao Fluminense o empate para ser o campeão.

A principal virtude do quadro tricolor era o conjunto. De Castilho a Escurinho, ninguém destoava na equipe. Escudado por uma defesa que detinha o recorde de ser a menos vazada da história do profissionalismo, o goleiro Castilho sofreu apenas seis gols em 20 partidas ao longo do campeonato. Jair Marinho, Clóvis, Altair e Pinheiro formavam o mais perfeito quarteto de zagueiros da cidade. Do meio-campo, Telê era o mais completo, admirado até pelos adversários. Paulinho e Edmílson, se não tinham as mesmas qualidades individuais, eram mais jovens e rápidos. Entre Maurinho, Waldo e Escurinho, o primeiro era o mais técnico. O segundo, o mais temido pelas defesas contrárias. E o ponta só não havia feito gol de pé direito durante a competição. Irregular no turno, o Madureira, por seu lado, passou a revelação do returno. Não era uma equipe propriamente técnica, mas bem organizada.

Ciente de sua imensa superioridade e determinado a cumprir o seu destino, o Fluminense entrou em campo disposto a decidir o jogo. E marcou logo aos oito, quando o zagueiro Décio Brito desviou um centro de Escurinho para dentro da própria meta. Aos 25 minutos, Waldo perdeu um gol feito, ao chutar, livre, para fora. Em outro lance, Telê, em sensacional bicicleta, obrigou Silas a espetacular intervenção. O Fluminense parecia não se conformar com o modesto 1 a 0 e disto certificou a todos com a conquista do segundo gol, aos 24 da etapa final, com Escurinho. O ponteiro fugiu livre pela esquerda e, na saída do goleiro Silas, encobriu-o com um leve toque.

Mal Antônio Viug trilou o apito, começaram os festejos. Bandeiras foram desfraldadas, foguetes foram disparados, champanha foi derramada. Era o reencontro da torcida tricolor com a emoção suprema do título carioca após oito anos. Nunca uma conquista fora tão merecida. Uma conquista de ponta a ponta. A vitória da organização, da planificação e do método; da união de esforços; da dedicação e do senso de responsabilidade de um grupo despido de vaidade. Triunfo de um todo e não de um só. Triunfo legítimo do melhor.

(Texto extraído do livro “Guerreiros desde 1902” — autores: Dhaniel Cohen, Heitor D’Alincourt, João Boltshauser e Carlos Santoro)