Feliz Dia de São Castilho

São Castilho está imortalizado na sede do Fluminense nas Laranjeiras (Foto: Mailson Santana/FFC)

Hoje, 27 de novembro, é o aniversário de uma das maiores lendas do futebol mundial.

Indiscutivelmente, Castilho é um dos principais ídolos tricolores, por seu amor e devoção ao clube. O goleiro foi titular do Fluminense por incríveis 19 temporadas (de 1947 a 1965). Graças a isso, é o recordista de partidas com a camisa do clube (697). Era considerado um goleiro de muita sorte e foi o primeiro a usar uniformes cinzas ou azuis, diferentemente do preto, comum na época, por achar que assim não servia de ponto de referência para os atacantes adversários. Conquistou uma legião de fãs no Flu e em todo o país, e defendeu o Brasil em quatro Copas do Mundo. Amputou o dedo mínimo, depois de sucessivas lesões, para acelerar seu retorno ao gol tricolor. Seu gesto é até hoje considerado uma das maiores provas de amor de um atleta ao clube de coração. Nada mais merecido que tenha sido agraciado com um busto em sua homenagem na sede de Álvaro Chaves.

Castilho amputou um dedo para poder jogar pelo Fluminense. Um exemplo de amor ao Tricolor!

Em homenagem ao Dia de São Castilho, compartilhamos uma crônica de Nelson Rodrigues, escrita em 1958. O Profeta Tricolor fala sobre a Leiteria, apelido de Castilho, que era dado a pessoas sortudas naquela época.


A volta da leiteria

Canário viu que era chegado o momento, o grande momento do gol. Então, encheu o pé. Saiu uma bomba, amigos, e que bomba! Quase as traves desabam na cabeça de Castilho. Eu, cá em cima, na tribuna de imprensa, calculei: — “Desta vez não tem castigo!”. O Fluminense estava ganhando de 1 x 0 e a bala de Canário seria o maldito empate. Pois bem: — quando a torcida tricolor gemia a palavra gol, eis que ocorre o milagre: — bola no travessão! Durante alguns momentos, houve um carnaval na pequena área tricolor. A bola pedia pelo amor de Deus: — “Me chuta! Me chuta!”. E não apareceu um pé americano que a empurrasse para o fundo das redes. Salvara-se o Fluminense de um gol certo, infalível, catastrófico. Ao meu lado, um americano abria os braços: — “É a leiteria! Voltou a leiteria!”. Sim, ele via, ali, o dedo salvador da leiteria. Outros americanos, também furiosos e também esbravejantes, descobriam no gol salvo uma coincidência entre o retorno de Zezé Moreira e a reabertura da leiteria.

A leiteria! Vale a pena traçar aqui, sinteticamente, o seu resumo biográfico. Abriu as portas, pela primeira vez, em 51. De repente, os adversários começaram a perceber que o Fluminense não jogava somente com classe, somente com técnica. Castilho era bom, era ótimo, era formidável. Mas um arqueiro tem os limites da condição humana. Ora, Castilho fazia defesas sobrenaturais. E todo mundo começou, por trás do arqueiro, a ver a influência extraterrena da leiteria. Numa amargura medonha, o inimigo rosnava que Castilho era o leiteiro. O fato é que o Fluminense tornou-se gloriosamente o campeão de 51. Mas já nos anos seguintes a leiteria não funcionou tão bem. Estava de portas fechadas ou de portas a meio pau. Mais algum tempo e ela fechou de todo. No corrente ano, sobretudo, já ninguém falava mais da leiteria metafísica que tanto nos valera no passado.

Confesso, amigos: — havia em mim, como em todo tricolor autêntico, a funda, a inconsolável nostalgia da nossa querida protetora. Realmente, o nosso papel no presente campeonato tem sido o seguinte: — apanhar bem e ganhar mal. As nossas derrotas são medonhas e cada vitória nossa é feia como uma derrota. E, quando já não havia mais esperança, eis que a leiteria reabre, com estrondo, as suas portas mágicas. Amigos, manda a verdade que se diga: — ela influiu, ontem, no resultado da batalha. Digo isso de peito aberto e fronte erguida, porque não acredito em futebol sem sorte.

Digo mais: sem esse mínimo de sorte, o sujeito não consegue nem chupar um Chica-bon, o sujeito acaba engolindo o pauzinho do Chica-bon. E o Fluminense estava jogando sem uma ínfima gota de sorte. O time já entrava em campo coberto de azar. Sim, amigos: — o time pisava o gramado certo de que estava marcado, Inexoravelmente, pela derrota. Faltava-nos um pouco, um tostão, um vintém de sorte,

Ou por outra: — era a leiteria que se estiolava a um canto, com as garrafas irremediavelmente vazias. O leite já não jorrava mais das tetas da sorte. As pessoas estreita e crassamente objetivas colocavam o problema das nossas frustrações em termos técnicos, táticos, físicos e nada mais. Era um engano funesto. Ninguém acreditava que há qualquer coisa de laticínio nos gramados, nos espetaculares êxitos terrenos.

E, domingo, graças a Deus, foi belo, foi sublime. De certa feita, Amaro chutou. Diga-se: — chutou de longe. Era tal a distância que, chutada devagar, a bola levaria meia hora para chegar a seu destino. Então, ocorre o seguinte: — Castilho achou que devia fazer golpe de vista. Não se mexeu; ficou só olhando. A bola bateu na quina da trave e só não entrou porque estava lá, velando, a leiteria. Um americano fez, a bico de lápis, uma estatística: — o Fluminense sofreu quatro bolas na trave! Vejam bem: — nem duas, nem três, mas quatro! O América suava torrencialmente e encontrava tapado o arco tricolor. E é bom, amigo, é gostosíssimo quando a nossa torcida sente, na cara, o sopro da sorte. Repito: — em futebol, não basta jogar bem. Com um timaço, e depois de estar ganhando de 3 x 0, o Vasco ainda foi empatar com o Bonsucesso. Ora, o Fluminense jogou bem domingo e foi superiormente orientado. Mas porque a leiteria esteve presente, e salvou, com a trave, quatro gols, eu a promovo a meu personagem da semana.

(Manchete Esportiva, 1/11/1958 — Fluminense 1 x 0 América, 23/10/1958, no Maracanã.)