Papo com a lenda

Pinheiro é o segundo jogador que mais atuou pelo Tricolor, com 605 partidas, atrás apenas de Castilho

Ao lado de Píndaro e Castilho, Pinheiro formou o que poderíamos chamar de um Power Trio Tricolor. Atuava como zagueiro e se transformou em um dos alicerces do mitológico “Timinho”, equipe que tinha roteiro e produção assinados pelo genial técnico Zezé Moreira. Na companhia de Telê, Waldo, Didi, entre outros, venceu campeonatos cuja defesa era sempre a menos vazada e o ataque, o mais positivo. Além dos títulos conquistados, tem o mérito de ser o segundo jogador que mais defendeu o clube em toda a sua história. Ao pendurar as chuteiras, dedicou-se a revelar talentos para o Fluminense, como Edinho, Cléber, Pintinho, Arturzinho e todo o time campeão carioca de 1980.

Confira uma entrevista com a lenda tricolor, que faria aniversário neste dia 13 de janeiro:

Quando você chegou ao Fluminense?

No fim dos anos 1940, vindo do Americano de Campos. Para um garoto que acompanhava os jogos do Fluminense pelo rádio, era a realização de um sonho.

Com 50 gols, Pinheiro é o maior zagueiro-artilheiro do Fluminense

Quem o indicou ao clube?

Preguinho. Ele me viu treinar e imediatamente me convidou para ficar no Fluminense. Agradeço a ele e a Octávio de Farias.

E como foi sua adaptação a um grande centro?

Quando eu treinava em Campos, não colocava nem chuteira, jogava descalço. Eu era jovem, mas sabia que não podia desperdiçar essa oportunidade.

Quem eram seus colegas de clube?

Lá no juvenil conheci Robson, Lafayette, Veludo, entre outros. Após disputar apenas seis partidas, fui chamado para o time principal.

Como foi isso?

Eu tinha ido ao cinema e cheguei para jantar na concentração do clube, que ficava na Rua Cardoso Júnior. De repente, mandaram eu me apresentar ao vestiário do time principal lá nas Laranjeiras.

Contra quem era o jogo?

Contra o Nacional de Montevidéu, base da futura Seleção Uruguaia, campeã mundial em 1950.

Era sua grande oportunidade…

Sim, se era! Chegando lá, o então técnico Ondino Vieira me mandou trocar de roupa para jogar. Quando vi, estava em campo na vaga do Lorenzo e desse dia em diante me tornei titular do time.

E naquele momento você encontrou seu grande parceiro, Píndaro. Como foi jogar ao lado dele?

Primeiramente, eu já o conhecia, era praticamente meu conterrâneo, pois nasceu em Pádua, cidade vizinha a Campos. Quando começava a partida, chegava perto de mim e dizia: “Fique tranquilo, não se preocupe”.

Que legal. E quando você começou a fazer seu nome?

Foi numa partida contra o Vasco, depois que eu parei o polêmico Heleno de Freitas.

Como foi esse duelo?

Foi um teste de fogo. Eu tinha 17 anos e logo de cara tive que enfrentar um dos jogadores mais malandros de todos os tempos.

Ele o perturbou?

Sim, ficava provocando, fazia de tudo para me desconcentrar.

E qual foi o saldo desse encontro?

Foi muito bom. Fizeram até uma charge minha num jornal.

Qual?

Lembra daquele cartunista do jornal O Globo, Otelo Caçador?

Sim, claro!

Ele fez uma charge que dizia assim: “Colocaram um Pinheiro na frente do Heleno”.

Quer dizer que a partida contra Heleno acabou sendo seu cartão de visita?

Sim. Ele tentou derrubar o Pinheiro, mas não conseguiu.

O Mundial de 1952 está entre as conquistas de Pinheiro com a armadura tricolor

Como era aquele Power Trio — Castilho Píndaro e Pinheiro?

Píndaro era perfeito no posicionamento, gostava de chegar junto, me deixando sempre na sobra.

Quer dizer que Píndaro já vinha com GPS de fábrica?

Exatamente.

E Castilho?

No gol, era fora de série. Saía muito bem da área, quase sempre adivinhando onde a bola ia cair.

Ele treinava muito?

Demais, dava até raiva… Brincadeira à parte, ele era muito disciplinado.

Como era conviver com Castilho?

Jogamos juntos uns 13, 14 anos no Fluminense e na Seleção Brasileira. Até hoje sinto muitas saudades dele. Foi o maior goleiro que já vi na vida, um profissional de primeira. Era um grande amigo meu.

Como foi a operação no dedo dele?

Estávamos concentrados quando, de repente, ele me chamou num canto e disse que não suportava mais as contusões crônicas no dedo, que, além de doer muito, o impedia de pegar bolas rasteiras. Eu lhe disse: procure o médico e faça um tratamento.

E aí?

Dois dias depois ele apareceu sem o dedo. Por amor ao Fluminense e à sua profissão, foi a um cirurgião e pediu para extirpá-lo.

Qual era o cerne do famoso “Timinho” do Zezé Moreira?

Gostávamos de enganar os adversários, fingindo estarmos dominados por eles. No final, quase sempre vencíamos a partida.

Como era Zezé Moreira?

Com os outros ele parecia ser durão, mas com os jogadores era tranquilo. Era um sujeito muito exigente nos fundamentos e treinava até a exaustão. O curioso era que ele tinha um padrão de jogo e não abria mão, pouco importando se o adversário fosse Flamengo ou Bonsucesso.

Como era o desempenho daquela equipe?

Tínhamos a defesa menos vazada de todas e o melhor ataque do campeonato. Não tínhamos um meio-campo habilidoso, era mais de briga, de marcação.

E disputava artilharia também…

Sempre. Você acha que um time, no qual desfilaram atacantes como Carlyle, Orlando Pingo de Ouro, Waldo, Telê, Didi, Joel e Quincas, podia jogar se defendendo? Jamais!

Falando em Didi, ele marcava?

Encostava, chegava junto. Na posição dele foi um monstro. Erguia a cabeça e mandava a bola longa onde queria.

Então era por isso que esse time jogava com os pontas bem abertos?

Sim, fazíamos muitos gols em contra-ataque. Tínhamos Telê, Escurinho, entre outros…

E o Telê?

Corria muito e não deixava o adversário jogar. Dificilmente errava passes.

Como era o Waldo?

Ficava entre os beques, levava pancada quase o tempo todo, mas não esmorecia.

Era habilidoso?

Sim, fazia tabelas, chutava com as duas pernas. O esquema de jogo também lhe favorecia muito.

Todo mundo dizia que você tinha um chute muito forte, é verdade?

Sim, eu tinha.

Sendo assim, procede a história de que, uma vez, ao cobrar um pênalti, você acabou dando um passe para um jogador do Flamengo fazer um gol contra o Fluminense?

É verdade sim.

Como aconteceu essa tragédia?

Eu era o cobrador oficial do time e me apresentei para cobrança. Como sempre ocorria quando eu ia bater uma penalidade máxima, praticamente o time inteiro do Fluminense se posicionou na intermediária adversária. O juiz autorizou, bati na bola, calculei errado e infelizmente ela acabou explodindo no travessão, indo parar quase no meio de campo, onde o ponta-esquerda Babá estava sozinho.

E aí?

O camarada encontrou o campo livre e foi embora, enquanto nós, em disparada, corríamos atrás dele. Quando eu estava quase alcançando, Babá percebeu Castilho adiantado e jogou a bola por cima.

Foi gol?

Sim, foi.

Pinheiro está eternizado nas Laranjeiras

Sem comentários… Dessa vez aconteceu um revés, mas o que ficou na história foi sua dedicação e amor ao Fluminense. Castilho, Píndaro e Pinheiro, a Santíssima Trindade Tricolor.

(Entrevista de Pinheiro a Heitor D’Alincourt, do Flu-Memória, para o livro “O Fluminense me domina”, em 2009. Fotos: Nelson Perez e arquivo Flu-Memória)