O que eu aprendi em sala de aula (e procurei desaprender diariamente)

Nunca, jamais, diga que ama sua profissão
Não seja o romântico que acredita na educação como princípio transformador e se coloca como defensor da boa educação para não causar constrangimento aos colegas de profissão que transformam a sala dos professores em muro das lamentações.

Não invista em aperfeiçoamento
Sua audácia será mal vista pelos colegas, que agora se sentem ameaçados pelo padrão que você estabeleceu. De certa forma, eles estão certos. Seu salário continuará quase o mesmo e, segundo eles, não fará a menor diferença na sala de aula. E você ainda corre o risco de ficar supervalorizado.

Não ouse defender a aprovação de um aluno “medíocre”
O famoso “medíocre”, “vagabundo”, “não quer saber de nada”, é bastante vago, mas é critério essencial na reprovação. O mais interessante é que ele é auto explicativo já que nenhum dos outros professores perguntou para o tal aluno os motivos de ele “não querer saber de nada”.

Não ouse dizer que tal estudante tem outras inteligências
Dizer que o aluno “medíocre” é um desenhista genial, um instrumentista ou um ótimo jogador de futebol não significa absolutamente nada num conselho de classe. Valorizar inteligências múltiplas que não são requeridas no vestibular é perda de tempo.

Professor bom é aquele que “ferra”
Não se satisfaça com as boas notas dos alunos. Aprenda que se eles estão tirando boas notas não é pela apreensão do conteúdo, você deve estar falhando e precisa rever seu método de avaliação. Jamais substitua provas individuais por avaliações coletivas. Isso provocará revoltas.

Não ouse “perder” aula para protestar
Não use seu amor pela profissão como motivador para lutar pela educação. É óbvio, né? Mas não custa ressaltar. Protestar “não dá em nada” e você ainda corre o risco de ser culpado pelas ações excessivas do Estado que só tenta garantir a ordem.

Não traga novas ideias
Não complique as coisas. Usar um iPad para fins pedagógicos pode parecer uma boa ideia mas “vai causar transtornos” no uso das ferramentas que a escola já possui. Não seja egoísta. Pensou num projeto inovador e multidisciplinar? Esqueça. Seus colegas odiarão sua pessoa eternamente se fizer com que eles saiam de sua zona de conforto.

A aula existe para satisfazer o professor
Uma aula que tem alunos como foco, que os coloca como protagonistas é idealismo (e dá trabalho!). Vamos respeitar o sistema: aluno é plateia. Você não vai perder a oportunidade de transformar sua aula num stand-up ou show de calouros (com piadas duvidosas) que fazem de você o professor legalzão. Com tanta dificuldade, os professores merecem ter o ego massageado.

Nunca, jamais, mude a ordem da sala de aula
Tirar as carteiras do lugar, “só causa transtorno” e reclamação; propor um debate, só se os alunos fizerem mímica, pois eles se empolgam e dá pra ouvir a voz deles no corredor (o que os pais que visitam a escola em época de matrícula vão pensar de uma escola onde os alunos falam!!!!); expor trabalhos no corredor, aí já é demais! Deixe dentro da sala, onde só quem fez pode ver, e por uns dois dias, no máximo, pra não estragar o padrão da escola.

Professor não fica doente
Gripe não é doença, né?! Na verdade, a maior parte do que é considerado doença na medicina, não é considerado pela escola. Atestado só causa transtorno: faltas, reposição, substituto. O tal burnout é só uma expressão bonita pra professor folgado ficar em casa. Profissional bom mesmo, não fica doente.

Educação é sim mercadoria
Nada como uma administração sem pedagogos(as) para ensinar o real valor da educação. Sim, em dinheiro. “Pais e alunos são clientes”, passar no vestibular é o produto. Não seja o mal vendedor que vai fazer as vendas caírem ou mostrar as falhas do produto.

Não superestime a capacidade de crianças e adolescentes
São seres em formação que em nada contribuem com sua aula. Achar que eles tem algo para ensinar então… “era só o que faltava!”

Feliz dia do profess@r para tod@s que (des)aprendem esses princípios e contribuem diariamente na formação de mentes engajadas. Feliz dia do profess@r aos colegas e colaboradores que ofereceram parceria e compreensão nesse processo. Para todos os outros… sempre é tempo de mudar de profissão.

[Esse texto tem como base minha experiência pessoal lecionando em escola pública e privada. Nem tudo são flores… na verdade, quase nunca são flores! Me solidarizo com quem tentou e desistiu. O objetivo aqui é tão somente ressaltar algumas das dificuldades inerentes ao sistema de ensino impessoal e engessado que mantemos.]

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