“Gonzo é jogar torta na própria cara”

Vinhetas pessoais de aprender Fotografia de Rua numa noite de quinta em Florianópolis

#1. A Razão Das Coisas Serem

Marco contava como foi seu primeiro porre: ensino médio, Coca-Cola com álcool de cozinha. Ele e mais um outro. Gênios. Um anjo de senhora acolheu o menino que vomitava, vomitava e vomitava depois de dormir debaixo duma árvore.

A Fujifilm X100T dele balançava pra lá e pra cá no pescoço dele. A imagem mental do coquetel nauseava eu e ela.

Fiz mais uma foto, de parede. Uma pixação sobre mídia golpista. Marco, mãos no cigarro, cabelo esvoaçante, era tirar a barba e teríamos o Hagrid do Harry Potter, magro, fazendo comercial da L’Oreal pra não passar fome.

Viralateavamos. Ele clicando nada. Eu clicando o nada.

Contei a Marco meu primeiro porre. Seis anos, uma lata de Belco cheia ao lado da churrasqueira. Meu pai me perguntou o que eu fiz. “Sacanagem”.

Nos topamos porque tinha de ser. Me convidou para um rolê de rua, fotografar o que viesse, das sete às nove da noite. Quando botei o pé no TICEN, Freezão vermelho no bolso e isqueiro, Marco estava no busão da frente, oito e uns tantos.

“Vamos dar mais uma horinha”, e pulamos fora.

Acreditar na razão das coisas serem é o inferno para um ansioso.

Passei a quinta inteira frilando o que não frilei o resto do prazo. O estômago pesava como se eu tivesse almoçado uma bola de bocha. Me colocaram num entrevero entre um conto de um amigo e interpretações de muita má-fé. Eu não era o autor, mas no Brasil, todo amigo do Lula merece cadeia nos olhos de um Sérgio Moro. Ansiedade bateu forte. A mente era uma maria-fumaça. Dava medo de tudo, medo de se foder, da mãe morrer, medo de ver a mina que eu gosto mãos-dadas com outro cara, de outro pesadelo ruim acontecer. Qualquer merda ruim que a mente pensar.

Quem não gosta pode rir, achar graça, achar massa. Deve ser bom ser tão santo demais para sempre ter razão. Botar a cabeça no travesseiro e achar que a causa é legítima na hora do ad hominem.

A Praça da Alfândega tinha batalha de rap outra vez. Fiz fotos por fazer e Marco só no cigarro. Vazamos.

Meu tutor, que adotei sem perguntar, não clicava nada. Flanávamos com ele contando história, o quê viu em cada beco. Andava como um cachorro velho. Tinha olhar, instinto, experiência. Marco fotograva em crise, sem saber o que clicar. Mas respeitava minhas fotos do nada.

“Tem que clicar o que sua mente manda.”

Me perguntei por quê diabos eu fotografava Rua. Sem artigo, Rua mesmo, erre maiúsculo, o verdadeiro bioma cinza, laranja, desbotado. Pensava na estética do Daido Moriyama, velhinho das fotos sujas e casuais de Shinjuku. Pensava nas tretas gratuitas, no mostrar-serviço que fui parar. Pensava o que caralhos eu queria mostrar pro mundo com as fotos tão merdas que eu tentava fazer.

Eu queria fotografar minha impotência.

#2. Olhos-de-Fred

Encontramos um Sindicato de Qualquer-coisa na Avenida Rio Branco prestes à fechar. Uma senhora limpava a sala enquanto um homem, presumidamente seu marido, segurava uma criança para olhar a rua.

Me expliquei.

“Estamos saindo por aí pra umas fotos. Posso fazer uma da criança?”

Fez que sim. Pra criança, a câmera, a pessoa, tudo é novidade. Não desgrudava o olho de mim. Era muito nova pra saber das superstições de que ser fotografado é ter a alma capturada. Diziam os indígenas. Ou os japoneses. Não lembro.

Um menino, ali pelos nove, oito, brotou detrás do homem. Tinha vergonha de ser o próximo.

Marco puxou papo com o cara. Governo Temer, greve geral, paralisar tudo, derrubar mesmo. O efeito L’Oreal da Avenida fez a criança desgrudar da grade. As mãozinhas queriam o cabelo do Hagrid.

Despedimos num boa-noite rumo à viralatagem outra vez. Na minha cabeça, a criança continuou nos acompanhando com os olhos. Não entendia quem eram aqueles dois, não muito velhos, só o suficiente para não ter tanta curiosidade pelo mundo.

Para desespero da minha criança interior, dei de cara com um reflexo opaco de uma fachada. Nossos olhares eram Olhares-de-Fred, o cachorro com cara de fudido da UFSC. Alguém escreveu um óbito, algo entre o espirituoso e o piegas, praquele vira-lata velho. Que ele era amado por um tanto de gente e não dava bola pra ninguém.

O caralho. Ele amava a Rua. Pra ele, só ela era de verdade.

#3. Eu, Você, Duas Culpas e Cachorros

Viralateamos Avenida acima. Numa esquina com o lugar-nenhum, um casal deitava entre o lixo. Comiam alguma coisa. Uma ou duas rodelas de salame estavam pelo chão, entre isopor, saco plástico, papel amassado. Mas cheirar, não cheiravam nada.

Pararam-nos com a voz.

“Tem um troco pra gente comer, rapaziada?”

Minhas moedas tinham ido embora uma hora atrás, pro primeiro morador em situação de rua — assim ele se apresentou — que cruzou nosso caminho.

“Ô jogador,” e o homem puxou uma mochila. “Tenho maquininha de cartão.”

“Fim de mês é foda, não sobra grana pra nada,” menti, tal qual qualquer um universitariozinho fora da bolha da Federal. Claro, reação natural. É a parte do mundo que nossa hipocrisia que milita por um mundo melhor esqueceu de incluir na luta, na desconstrução, no lugar de fala. Tudo porque temos vergonha de admitir que não vemos.

Puxou a maquininha de cartão. Eu e Marco eramos só perplexidade.

“Isso funciona mesmo?”

Nunca alguém riu tão sinceramente da minha cara.

“Funciona nada. Tô só tirando com vocês.”

Seu nome era Rubens, um tremendo piadista. A mulher, Andréia, perguntou qual era a das câmeras. TCC, jornal ou o que fosse. Nos agachamos junto a eles.

“Só estamos de rolê,” disse Marco.

Os dois tinham vinte anos de rua. Nele, olho roxo e um rasgo vermelho no canto da boca, daqueles que deviam doer na hora de tirar com a nossa cara. Nela, uma ferida no lado esquerdo do nariz. Disse ela estar grávida.

“Na real, a gente não precisa de nada,” falou Rubens, atropelado por Adriana. “Nada mesmo. Quem ajuda a gente é trouxa, tremendo de um idiota. Ganhamos comida, roupa, luz, teto, tudo. A gente não precisa de nada. A grana é pro trago mesmo.”

Ainda assim, só tínhamos cigarros. Na noite, é moeda de troca pra confiança. Marco deu dois Minister pro cara, eu dei um Free pra ela. Tinham fogo. Das virtudes dos moradores de rua, a mais admirável de todas é a honestidade. Uma optativa nos cursos de jornalismo que ninguém se presta a cobrar.

“Mas aí, tô contando essas coisas porque vocês são firmeza, na humildade. Tu, mais loucão, não parece que apronta nada.”

Fez uma pausa antes de apontar para mim.

“Agora tu mesmo, com essa carinha aí, nem parece que tem culpa no cartório.”

Risos. Preferi não lembrar do meu batismo de fogo, dia 05 de agosto. O flerte das prostitutas trans. Paulinha, a moradora de rua que daria pra mim e pro Marco, os dois, por dez pila. Que aceitaria, se insistisse mais, fazer fotos da buceta dela por bem menos que isso. Que ao ver as fotos, esquecendo seu corpo estriado, os dentes roídos de crack, achou bacana o P&B na Fujifilm. Que numa dessas, mostrando pra um dono de bordel, ela realizaria o sonho dela de trabalhar numa boate — como dançarina ou faxineira.

Marco foi mais sagaz.

“E esses machucados aí em vocês?”

A piada demorou a vir dessa vez.

“Briga de casal,” contou ela. “A gente se fecha no pau direto.”

“Até falo pra ela, lá em casa, vassoura só entra sem cabo.”

Rubens pediu pra fazermos umas fotos dele. Posou como as modelos de biquini em outdoor em beira da praia. Estirou os pés brincando nas marolas de lixo.

“Não quero aparecer,” disse Adriana. “Mas vou chamar a Macaca pra foto.”

Assoviou. Macaca era uma cadela marrom, dócil, agitada. Outro, com a pelagem espetada, veio logo atrás.

“Cachorro feio,” debochou Rubens. “Parece um porco-espinho.”

Se empolgaram na brincadeira. Clicamos, flash e tudo o mais. Assim foi por uns bons dez minutos.

Me perguntei por muito tempo, antes de saber qual era a da Rua à noite, qual a graça em fotografar morador de rua. Qual o fetiche de retratar alguém na mais baixa das condições, fazendo o que quer que fosse? Eles riam, faziam troça. O mesmo mundo que condenava a exposição do lowlife é o mesmo cuja maior preocupação é se o crush visualizou e não respondeu de propósito.

Antoine D’agata é um fotógrafo da Magnum que clica prostitutas se picando com heroína. Num curso, disse a Marco, que repetiu pra mim e eu digeria até então.

“Se eles não dão a mínima merda pro que tá rolando, por quê você vai dar?”

#4. Onde a Sensibilidade não tem Vez

Pesar o rolê” era a expressão mais recente do meu vocabulário de rua. É quando você está prestes a estourar o limite da boa sorte, tem tensão demais no ar pra você seguir adiante. É a sensação de que, o que vier dali em diante, vai dar ruim. Daí, é hora de ir pra casa, lamentar foco, enquadramento e pensar o quê dá de embelezar na versão do Adobe Lightroom patrocinada pelo The Pirate Bay.

O rolê pesou logo após a Adriana indicou a rua ao lado, para fotografarmos o Náufrago.

“Igual o do filme,” debochou Rubens. “Tem o Wilson e tudo.”

Seu verdadeiro nome era Petrúquio, tal qual o da novela antiga. Não era tão igual assim ao apelido, mas qualquer um desgrenhado com barba grande é candidato a dublê de Tom Hanks. Estava apoiado próximo a um colchão, no qual um cachorro velho com Olhar-de-Fred fazia o papel da bola de vôlei pintada a sangue. Não se mexia igual.

A primeira coisa que fez foi perguntar pra que jornal eram nossas fotos. A segunda foi achar muito ruim ver Rubens sorrindo entre os cães.

“O filho-da-puta, se eu pego, dobro ele de porrada. Ele ficou ontem falando pra minha irmã dar o cu por ai, dar o cu por grana. Ela não aceitou e ele sentou a mão. Nossa, mas eu cobri ele de soco. Se ele aparecer nessa rua hoje, eu mato.”

Silêncio. Marco quebrou:

“Bom, mas família briga o tempo inteiro, né?”

Para a infelicidade da situação, era mais recorrente do que parecia.

O termômetro interno subiu uns graus quando um amigo de Petrúquio, que não deu nome nem nada, apareceu e ficou quieto, olhando a gente. Quando o número começa a subir, é preciso pensar logística. Nunca se sabe o que tem no bolso e no coração dos outros.

Enturmei-o com um Free. Marco deu um Minister para Petrúquio. Que o machismo está nas ruas, tá em qualquer cartilha. Sentir segurança ao viralatear de poste a poste é um privilégio. A parte que não se diz é que ele é o jogo que corre na hora do vamo-vê. Não tem espaço pro medo, pra vulnerabilidade. Na rua, ganha o rosto que virar a parede mais fria.

Adriana vira e mexe dava as caras na rua, mas vazava ante os gritos do irmão.

“Vaza daqui senão eu volto lá e cubro ele de porrada.”

Quem acalmou os ânimos foi um cachorro, que não lembro o nome nem de ter recebido ordens para não aparecer. Petrúquio amansou.

“Você já viu um cachorro abraçar alguém? Esse abraça, olha só,” e abaixou. O cão esticou as patas dianteiras, abipedando-se. “Esse aqui é o mais malandro de todos, esse cachorro. Foi jogado na rua desde filhotinho. Oito anos ele zanza por aí, mas sempre que aparece, me dá um abraço. É meu amigo. Mas tá procurando o dono.”

Pediu para tirarmos fotos enquanto acariciava o cão. Quem não gostou foi Wilson, que latiu, latiu, mas quando o recém-chegado chamou pro vamo-vê, não foi pra chincha.

“O dia em que ele encontrar o dono de verdade, vai passar por aqui e nem vai mais me olhar na cara.”

Petrúquio relembrou dos Frees no meu bolso. Pediu quatro. Pensei em perguntar se tantos assim eram pra fazer plantação ou era só folga mesmo.

Fomos interrompidos pela chegada de um carro esportivo preto genérico. Dele desceu um careca de braços largos, regata e calção. A julgar pelo tamanho, sua dieta era um Hagrid por dia. Subcomunicava, no porão do cérebro, a ideia de que um classe-média equilibraria a tensão da história.

Cumprimentou todo mundo com um discurso atropelado sobre balas na cabeça e crânios de inocentes explodindo. Perguntou a nós se éramos cristãos.

“Daquele jeito,” respondi.

“Tenho um vídeo pra mostrar pra vocês,” e puxou o celular, “do que os bandidos dos Estados Unidos tão fazendo na Síria. Os caras tão mandando arma, mina, os caralho tudo por carregamento da ONU. Aí os rebelde começam a atacar o governo, que é de um filho da puta, mas os cara são pior. Tão matando os cristão tudo. Homem, mulher, criança, tudo. Até sunita tá sendo emparedado.”

A galeria de vídeo do celular mostrava uma pilha de vídeos pornográficos.

“Tô vendo que você tem umas putariazinha aí, hein,” riu Marco.

“Normal.”, respondeu.

Ao passar o dedo para cima na rolagem da barra de vídeos umas dez vezes, passamos a achar que não era tão normal assim.

Abriu o vídeo e juntou todos nós ao seu redor para assistir.

“E quero vocês vendo tudinho, senão eu quebro vocês.”

Viramos paredes, eu e o Marco. Não era como nos vídeos do Discovery Channel. Ali, os balões que explodiam guardavam mentes. E nas frações de segundo acompanhadas em slow-motion, a dor de rangeres de dentes. Petrúquio e o outro morador de rua faziam piadas com fome. Fotografar a solidão, por um momento, pareceu melhor do que à guerra.

“Estou indo pra lá”, e o sujeito guardou o celular. “Pra Aleppo.”

“Vai pra guerra?”

“Vou. Quero combater esses filhos da puta do Estado Islâmico na Síria.”

E gritou algo que começava com Allahu Ackbar antes de voltar para o carro.

Não precisei de dois minutos até sugerir a ideia de ir embora. Da esquina seguinte até o TICEN, a perplexidade. O rolê pesou. Na mão do mais normal de todos.

Notas finais: L’esprit d’escalier

Na volta de tudo, a conclusão sobre o adágio. Uma foto vale mais que mil palavras, mas não são suficientes. A ideia forte na cabeça. Não tem jeito, vai ter que virar relato. Mas em qual formato?

Lembrei do maior desgosto jornalístico da minha vida: André Maleronka, na Semana de Jornalismo UFSC de 2014, numa mesa de bar.

“Gonzo é jogar torta na própria cara todos os dias.”

De Arthur Veríssimo a por aí afora, era manter uma persona, fazer merda só pra parecer descolado, chamar atenção. Exposição desnecessária.

Discordei por dois anos. Nunca mais consegui escrever algo do tipo.

Foi o L’esprit d’escalier mais longo da minha vida. Mas veio.

Gonzo é a capacidade de reconhecer que a hipocrisia do outro é a mesma que a sua. De não se sentir confortável em lidar com essa realidade. Admitir publicamente o defeito do seu melhor amigo. Reconhecer que seu ódio é gratuito e não precisa de muito para justificar-se. É humanizar ao máximo a mecânica do quem-quando-como-onde-porque, e mostrar que tudo bem em ter falhas.

Gonzo não é vestir personas para ser descolado. É despir-se delas. E encarar nu, no couro e de peito aberto, a frieza do mundo.