GT16 - Aldeias SOS, Santiago-Cabo Verde

Um dia em Porto Rincão
O sol espreita por entre as persianas. O galo já canta perto da nossa porta. O calor é imenso, a roupa cola no corpo e a barriga já começa a dar horas. O despertador toca. Abrimos as persianas e o dia está a começar. Da nossa janela conseguimos ver o mar ao fundo, por entre as casas. Avistamos a ilha vizinha, Djar Fogo. A cabrinha Augusta está à nossa beira, a berrar os bons dias. Os porquinhos da vizinha Bela já andam na correria, cheios de energia. As galinhas e os patos andam desengonçados à procura de comidinha. As pessoas que passam ao lado da casa azul acenam freneticamente a dar-nos os bons dias. “Hey minha gente!”, diz o Júnior a anunciar a sua chegada, tal como todos os outros dias da nossa missão.

No caminho para a escola, de mochila às costas e material nas mãos, sempre acenávamos aos jovens com quem nos cruzávamos para os incentivar e, a meio caminho, já tínhamos uma pequena ‘tropa’ a seguir-nos lado-a-lado. Todos os dias víamos caras diferentes. Os jovens trabalhavam à vez na sementeira ou ‘batiam’ a roupa e quando não tinham que ir fazer as suas tarefas vinham ter connosco para participar nas nossas actividades.
Os dias eram sempre pequenos para o tanto que queríamos fazer. Mas a verdade é que aprendemos que esses mesmos dias podiam ter mais de 24h. Ao final da tarde, quando o sol se começava a pôr tínhamos sempre as crianças penduradas no muro da nossa casa azul, com olhares curiosos e com uma imensa vontade de brincar. De mãos dadas cantarolávamos “Nhunha. Nhunha , sinhora Jéssica, xinta na cadêra …” e assim nos baixávamos à vez com as mãos ao ritmo da música. A brincadeira começava sempre com umas dez crianças e quando olhávamos à nossa volta, já eram mais de vinte a repuxarem-nos os braços, a lutar pelas nossas mãos ansiosas por partilharem aquele momento connosco.





A nossa missão foi na comunidade de Porto Rincão, na ilha de Santiago em Cabo Verde. Na minha memória ficou gravado os olhos esperançosos com que nos fitavam. Viam em nós a vontade de mudança, vontade essa que deixou de existir em cada um deles com o passar dos anos, confrontados com a rotina do dia-a- dia. As palmadinhas de incentivo e as conversas pela noite dentro motivavam-nos no recomeço de cada dia. Numa das tardes, debruçados sobre o muro daquela casa azul, não me esqueço das palavras do senhor Ricardo que proclamou Madre Teresa de Calcutá, “somos uma pequena gota do oceano, mas sem ela o mar ficaria menor.”. Aquela frase não poderia ter feito mais sentido do que naquele momento.

Na hora da despedida, todos se reuniram na praça e, sob o céu estrelado de Porto Rincão, os olhos enchiam-se de lágrimas e os abraços eram cada vez mais apertados. O silêncio do adeus foi a dor mais forte que ouvimos naquele mês. Ficou a promessa de um dia voltar, mas voltar rápido! E, nessa mesma noite, com mãos unidas, uns sobre os outros, gritámos orgulhosamente e bem alto “NU STA DJUNTU!!!”.

Daniela Laranjo
