GT16 - Cabra Nossa de Cada Dia, Brasil

Desde pequena que sei que grande parte do meu papel neste mundo é ajudar a melhorar a vida de alguém. Nem que seja com um sorriso na rua. Esta é a história resumida de alguém que num ano viu a sua vida a mudar numa velocidade astronómica e a perceber que somos nós e só nós quem escreve a nossa história.

Em 2015 vi umas ‘bananas’ entrar no GASTagus e, como não podia deixar de ser, passaram-me este bichinho de que se eu quero algo, tenho de fazer por isso. E em 2016 lá fui eu. Decidida a que aquela felicidade que vi nelas também fosse a minha. Decidida que seria o ano em que ia ter todas as respostas que precisava.

Maria, Ana, Adriana e Jorge

Nem eu sonhava…

Num universo de experiências que poderia contar sobre o que é o GASTagus, é sobre missão que vou falar.

Saudade: sentimento de mágoa e nostalgia, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação de pessoas, épocas, lugares ou coisas a que se esteve afectiva e ditosamente ligado e que se desejaria voltar a ter presentes.

Meu Brasil. Não estava preparada para isto. Meses depois, aqui estou eu, a escrever este texto com um ataque crónico de saudades. Digo crónico porque quem vai em missão passa a conhecer a sensação de ter saudades de alguém todos os dias, de se perguntar “será que está tudo bem?”, “será que eles foram à escola?”, “será que estão a ter boas notas?”. E sofremos, muito. Mas é um sofrimento bom de quem sente que fez diferença na vida de alguém. De alguém que sabe que não mudou o mundo em um mês mas que mudou a vida de alguém nesse mês.

No Brasil descobri uma família, família essa que três dias depois de chegar a Pé de Serra me fez uma festa de aniversário surpresa e eu caí que nem uma patinha e que me disse “deve ser muito difícil estar longe da sua família nesse dia e no Brasil nós somos a sua família por isso tínhamos de celebrar”. Imaginam o misto de sentimentos que é entrarem na vossa pequena casinha brasileira com toda a comunidade dentro a cantar-vos os parabéns com vários bolos e sumos? Como reagir? Eu não soube reagir. Fiquei em choque a olhar para o meu responsável de equipa na esperança de que ele me dissesse o que fazer. Ganhei uma família que ainda hoje me manda fotos das crianças para eu saber que estão bem.

E o que sentir ao ouvir “quando for grande quero ser bioquímico como você!” e saber que a criança começou a ter melhores notas? Querer esborrachá-lo com um abraço porque nunca na vida estaria à espera que isto acontecesse e não poder?

Quero voltar. Quero voltar para os 40ºC, quero voltar para o forró às 6 da manhã e para o meu quintal cheio de animais que não fazia ideia a quem pertenciam. Até nem me importava que a casa de banho continuasse cheia de rãs por todo o lado! Só queria mais um abraço daquelas pessoas, mais um “bom djia”, mais daquele cantinho de terra que sei que vai ter sempre uma grande parte de mim. Quero voltar onde tudo é fácil mesmo quando é difícil.

Em missão descobrimos que nesta sociedade o nosso pouco é muito e que o muito da maioria das pessoas, para nós, passa a ser pouco. Começamos a tomar atenção aos pormenores que fazem a nossa vida e começamos a dar valor a todo o luxo que nos rodeia. Quanto a mim? Percebi que uma casinha feita em taipa e um colchão insuflável chega para sermos felizes.

E vocês não sabem o que eu dava para ter essa realidade de volta.

Ana Ferreira

Veja mais testemunhos dos projectos do GASTagus no blog

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