GT16 - Ubaúna, Brasil

O que trago na mochila…

No dia 1 de Agosto de 2016 a minha mochila de porão pesava 25,9 Kg e a da mão 6,05 Kg, o que perfaz um total de 31,95 Kg…

A 14 de Setembro a minha mochila, à qual designo ALMA pesa muito mais, muito mais mesmo!

Quando era pequenina dizia à minha mãe que gostava dela muitos sacos de amor, para quantificar que era muito peso, logo significaria muito amor por ela! Agora também equiparo essa visão ao peso da mochila da minha vida, que a cada experiência fica mais pesada, porém é um peso diferente! Eu sei que ela está cada vez mais preenchida, contudo não me faz sentir cansada com o peso… faz-me “levitar” de alegria! Parece que esta felicidade tem asas e faz-me sentir com os pés fora do chão, mas com a clara consciência de que tenho o mundo às minhas costas. Um mundo de pessoas, de sítios, de cheiros, de sabores, de cores que a cada aventura da minha vida, enriqueço o tecido da minha mochila.

O Brasil, a nossa Ubaúna, um povo maioritariamente sem alento e ambição, onde a voz da corrupção fala mais alto para fazer face às despesas das famílias locais.

Um povo que nos recebeu com uma cadeira para nos sentarmos ou uma rede para baloiçar.

Um povo que nos agradece com um sorriso na boca e simples palavras de que marcámos a diferença. Um povo que testemunhei uma criança com 10/12 anos, a levar um senhor com cadeira de rodas a dar um passeio pelo centro, em troca de alguns reais e que em campanha política vendia cervejas… Um povo em que deitar lixo para o chão é motivo de educação. Um povo em que ir à escola era motivo em muitos casos para obterem uma bolsa família. Um povo em que os jovens não têm muita liberdade de voto porque em família não existe espaço para a expressão. Um povo em que as jovens de 13,14, 17, etc. anos é comum serem mães.

Esta realidade onde existe uma profunda carência da dignidade humana, foi o que mais aprendi com este voo directo para Fortaleza.

Gerir expectativas das formações que em equipa preparávamos em terreno. Gerir diferentes pontos de vista em equipa. Gerir paciência quando a primeira coisa que ouvíamos era “Eu não consigo Tjia”, por inseguranças, por medo de que os outros gozassem. Aprendi a enfrentar um público grande e a dominar os receios. Reafirmei o meu sentir de que a nossa vida é composta por vários balões cheios de ar. Enchemos com todo o impulso quando passamos por algum momento a nossa vida, em que, nos faz sentir “grandes” e leves, despojados de toda a matéria que não nos é relevante para sermos felizes.

Relembrei também, o quão livres nos sentimos em estarmos desligados da realidade virtual, sem filtros, sem ecrãs, sem chats, sem manipulação do que é vivido no preciso momento em que apenas és tu própria, saltando à macaca ou a correr e fazer “batotice” ao macaquinho do chinês. Tudo em Ubaúna era simples e puro.

Aprendi a ser feliz por ver um pavilhão com cerca de 20 a 30 crianças a gritarem eufóricas por se sentirem bem perante uma realidade nova aos seus olhos.

Relembrei também o sentido de gratidão, por ter inteligência e mobilidade física para alcançar os “Himalaias”, por ter um abrigo digno, por viver em segurança, por ter saneamento básico e viver num país onde não estamos em seca há anos.

Em suma, gratidão por me ter desafiado a esta aventura e por ter sido escolhida a testemunhar a realidade de Ubaúna.

Tive a grande oportunidade de deixar uma parte de mim e ter trazido uma outra do outro lado do mundo.

Chica