GT16 - Kandumbo, Angola

Há amores que nascem sem nos apercebermos, marcam-nos como nunca nos marcaram antes e são complicados de explicar. Assim é o meu amor por Angola, pelo “meu” Kandumbo.

É complicado falar sobre o mês mais feliz da minha vida. É complicado porque mesmo já estando em casa há um mês, sinto que apenas estou há uns dias pois cá nunca irei viver dias com tanta intensidade como os que vivi em missão.

Vou tentar explicar a mais bela história de amor que vivi: Colocam-se 6 conhecidos num avião com turbulência durante 8 horas. Conversam, dormem, escrevem, comem, sonham e sobretudo imaginam como será quando chegarem. Aterram em Luanda e são postos num autocarro enorme durante 10 horas! No caminho pode ver-se de tudo. Hotéis e vivendas enormes rodeadas de casas de chapa e cimento, macacos nas árvores, pessoas sozinhas no meio do nada. Dois acidentes, inúmeras operações stop e apesar de longa, a viagem serviu para esses conhecidos começarem a ser um bocadinho mais que isso. Até que chegámos. “Brancos, brancos, voltaram!” Imensas crianças corriam atrás do autocarro, diziam adeus e mandavam beijinhos. Ao pensar bem, posso dizer que foi amor à primeira vista. Em apenas minutos, aquelas crianças curiosas para saberem quem eram os brancos que vinham este ano fizeram com que me apaixonasse. Nunca nos sentimos tão bem-recebidos. Sentimo-nos completamente em família, formámos a nossa família.

Todos os dias começavam à mesma hora. Às 06:40 lá tínhamos a mãe Marta a dizer “Bom dia meninos!” e aí começava o nosso trabalho! Aulas da primária, formação aos professores, formações no centro de saúde, aulas e formações na secundária e depois hora do filme foi o que preencheu o nosso calendário e sempre com disposição para encaixar numa frecha pequenina umas explicações e a análise de uns questionários. Pusemos a regra que às 23h tínhamos sempre que ir dormir, claramente que, tal como todas as regras, por vezes era quebrada. Fins de semana que eram repletos de trabalho entre escuteiros, PROMAICA, catequeses, aulas da primária, movimentos juvenis e infantis. Cansados? Claro que estávamos! Mas estão a ver aquele cansaço feliz? Se nunca o sentiram é porque nunca trabalharam de coração. Durante um mês trabalhámos de coração, todo o nosso trabalho foi feito com um sorriso na cara. Todos os minutos contavam. Uma comunidade que nos tratava tão bem, só podíamos retribuir com todo este trabalho. Todos os minutinhos livres que tínhamos, desde já digo que eram poucos, tentávamos ao máximo aproveitar. Ver o pôr do sol, brincar com as crianças, ir dizer adeus por baixo do portão às crianças curiosas que nos chamavam ou simplesmente ficar sentados à porta de casa com umas crianças no colo e ver os restantes a jogas à bola.

Aprendi a aproveitar todos os minutinhos da minha vida porque todos eles são importantes. Aprendi tanta coisa naquele mês. Aprendi a dar valor à água quente, quer dizer, a qualquer tipo de água! Ao autoclismo, à minha cama sem caganitas de ratos, aos meus sapatos, à comida que me põem à frente mesmo que não goste, à escola, à educação, aos caixotes do lixo… Aprendi a dar valor a tantas mais coisas que aqui são tão banais e lá são tão raras. Aprendi que a nossa presença faz a diferença e aprendi que somos mais fortes do que imaginamos e conseguimos fazer mais do que pensamos. Aprendi que os heróis não usam capas nem voam, são pessoas normais que apenas querem fazer o bem. Aprendi que o amor faz muita coisa e senti bem esse amor.

A despedida realmente é o que mais custa. Porque escrevi no presente? Porque ainda me custa. Como é que é suposto lidar de ânimo leve com a despedida do sítio que mais me fez feliz? Por sorte tenho como companhia os outros 5 conhecidos que agora são amigos do meu lado. 6 pessoas que o Kandumbo juntou, serão 6 pessoas cujo seu mundo o Kandumbo mudou. Com toda a certeza que falo por todos quando digo que deixámos grande parte do nosso coração em Angola, bem escondido e refundido como o Kandumbo e garanto que está muito bem guardado.

Tuapandula Kandumbo, tuapandula Benguela, tuapandula Angola, Tuapandula GASTagus.

Rita Oliveira, 7 de Outubro de 2016

Pode ver este e outros testemunhos no nosso blog

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