Tragadas…

Às vezes tomo café como se fosse água. É a correria. É o vício. Permito-me acender um cigarro e trago profundamente, enquanto ando pela calçada molhada. Choveu a madrugada toda e agora a bosta do meu all star vai ficar encharcado. Não tenho outro sapato.

Atravesso a rua e solto a fumaça do pulmão. Uma gorda passa por mim e me encara. Ela tosse. Retardada, penso. Ela segura um cachorro quente na mão. Cada um se droga como quer, só não consigo imaginar como ela consegue digerir aquela porcaria às nove e meia da manhã.

Dirijo-me até o banco. Tenho que pagar umas contas. A vida é feita para trabalhar e pagar contas. Estou me aproximando do banco, a calçada está mais molhada e sinto minha meia molhar. Porra, pensei, ainda tenho que ir trabalhar!

Trago mais profundamente possível o cigarro e jogo fora antes de entrar na agência. São quase dez horas. O melhor momento para estar em um banco se você odeia filas.

Duas pessoas na minha frente, isso vai ser rápido, penso. Tem uma mulher baixa, com cabelos bagunçados e cara de sono. As olheiras dela me incomodam profundamente. Há também outra mulher na frente dela. A da frente usa óculos, olhar cauteloso e um rosto calmo. Não parece ter mais de vinte e quatro anos. Tem cara de nerd e fica me encarando. Não gosto de ser encarado por nenhuma mulher, nem por viado. Não tenho preconceito, mas odeio esses caras que ficam me encarando. Não dá só pra olhar uma vez e me deixar em paz? Tá incomodativo, mas a agência abre e a moça desiste de mim. Ótimo. Não vou te levar pra jantar, nem tenho onde cair morto.

Dirijo-me ao caixa. O homem que nele se encontra é tão magro que dá dó. Ele me dirige um bom dia seco. Não respondo. Não há nada de bom. Só tenho dívidas e um all star fedendo a chulé. Mas o indivíduo decide abrir a boca. Choveu muito de madrugada, né? Ele diz.

Não me diga!? Tive vontade de responder. Contentei-me em dizer “eh”. As pessoas não sabem mais puxar conversa, ser agradável é puxar assunto sobre o óbvio! Nem eu sei puxar assunto direito, mas é claro, vivo com um bando de retardados…

Ele terminou. Entregou-me a nota e dessa vez nem olhou para mim. Foda-se. Estou saindo da agencia. A moça nerd está atrás de mim. Sai da agência e virei para esquerda. Ela para direita. Permito-me olhar para trás e ela estava olhando-me, me vendo partir. Gostou de mim.

Nem ligo, tenho coisas pra fazer. Atravesso a rua e desço a ladeira. Não tem ninguém nessa rua. Vou pro beco, pegar atalho. Aquele beco fede, mas estou atrasado pro trampo. Mas ao andar dez metros no beco, percebo que não deveria ter entrado lá. Tem dois meninos um pouco a frente. Eles encaram, meio que automático. Sinto no olhar dos moleques maldade. Fodeu de novo. Estão armados.

Perdeu, perdeu, perdeu, passa a grana, playboy, diz o de blusa amarela. Em quatro segundos ele fala que perdi. Só não sei exatamente o quê tenho mais a perder. Em 4 segundos sou playboy. Mas que maravilha! Nem eu sabia ser um playboy.

Eles se aproximam.

Não ouviu não, porra? O neguinho diz.

Mas é claro que ouvi. Só estou em choque.

Não tenho nada aqui, digo para ele, levantando a mão e colocando devagar na cabeça.

Vê se esse viado não tem nada com ele, mano, diz o moleque de amarelo. O neguinho mete à mão no meu bolso e pega a carteira. Revista. São os seis segundos mais demorados da minha vida. Espero.

Tem quinze conto aqui, mano, ele diz.

Pois é, sobraram quinze reais. Nem lembrava. Mas o que é quinze reais? Para mim, quase nada, mas pra quem se entope de droga, uma bolada, talvez.

Aê, viado, CE ta mentindo pra nós, porra? Cê não tem moral não, caralho? Diz o neguinho, menor que eu uns vinte centímetros, mas tinha uma arma e aquilo o fazia grande. O parceiro dele também tinha uma, o que iria fazer?

Eu não me lembrava desse dinheiro, aleguei. Minha voz treme. Vou morrer? O de amarelo mete a mão no outro bolso. Tira meu celular.

E isso aqui não é alguma coisa não? Ele pergunta. Tá querendo enrolar, playboy? Ele se aproxima do meu rosto com a arma na mão. O cano toca minha bochecha. Senti um selinho do diabo. SERÁ QUE VOU MORRER? Começo a chorar. Inevitável vergonha. O hálito desagradável daquele elemento invade meu nariz. Ele está drogado, é nítido.

Oww, o viado ta chorando, ele rir.

O cano amassa minha bochecha. Ele bate a arma no meu rosto. Cai. Não sei se de susto ou se o golpe foi forte o suficiente para me derrubar.

Deixa ele ai, vamo bora, diz o neguinho.

Pera, quero o sapato dele, perdi os meus ontem. Tira o sapato, porra! O rapaz de amarelo me ordena enquanto aponta a arma para mim.

Eu estou tremendo. Ele está loucão! Nem sabe o que ta fazendo direito. Filho da puta, penso, e tiro o all star fedido. Ele pega, coloca no pé e vai. Tenho que admitir, o all star combinou com ele.

Encostei as costas na parede. Sentado no chão, tentei assimilar… entender o que acabou de acontecer. Coloquei a mão no bolso. Não há mais carteira. Nem celular. Ainda estou pagando aquela bosta daquele aparelho, penso. Mas há um maço. Pego o maço com a mão esquerda tremendo. Tiro um cigarro com a mão direita tremendo. Coloco na boca que também treme. Acendo. E dou mais uma longa tragada…

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