A Herdeira de Sonhos: A Rainha do Forte

De: Gabriel Sansigolo (@G_Sansigolo)

Meu nome é Arianne Rednail, filha única de Ronan Rednail. Durante muitos anos, permaneci na sombra de meu marido, até que no último inverno foi me anunciada a sua morte, depois de dias de sofrimento. Desde então carrego o título de Rainha do Forte Vermelho.

Durante o crepúsculo, três anos após a morte de meu marido, acontecia uma importante reunião. O rei Miron estava um pouco afastado do restante do grupo. Ele era com certeza um dos melhores reis que as Astus já teve. Sua figura era alta, de ombros largos e uma pequena barba acinzentada, sempre carregando às costas a sua lendária lança “A Promessa Vermelha”. Nada daquilo entregava sua idade, entretanto; o que o deixava velho eram suas preocupações.

— Um futuro nos espera quando passarmos por tudo isso. — Eu argumentei ao rei, tentando animá-lo, mas sabia que suas preocupações eram justamente com o futuro.

Miron era um grande amigo meu e de Hanks, meu marido, apesar da pequena representatividade política que nosso reino possuía Miron nos tratava como os cinco grandes.

— Os cinco reinos estão um caos. — O rei Miron respondeu com a voz cansada, olhando pela janela do castelo. Nunca em toda a minha história como rei vi algo chegar a esse nível. É preocupante, Arianne.

— Mas nós podemos passar por isso. Pelo que ainda dependem de nós. Para fugir do assunto apontei para uma criança e o rei esboçou um sorriso ao vê-la. — Essa é minha filha Eliaj, rei Miron.

— Ela é linda, Arianne. E tem os seus cabelos vermelhos. —

Passamos alguns minutos conversando até voltarmos para a reunião, à mesa continuava lotada, era de se esperar, o assunto era importante para todos ali presentes.

Na mesa havia sete figuras: O rei Miron, Khestus da cidade do norte, Shao da floresta velha, Mao do deserto vermelho assim fechando o grupo dos cinco, faltava apenas Roger da ilha do ouro, além dos quatro havia também Driag do forte das lágrimas, Marillion da torre dos bardos e eu.

— Miron! Se já sabemos que a frota de Drake se encontra as proximidades da ilha do ouro por que não o atacamos? Isto pode nós dar vantagem, como um ataque surpresa! — Levantou Khestus indignado.

— Se atacarmos Drake perderemos muitos soldados assim, nosso contingente é reduzido logo não estaremos preparados para o ataque de Galleon. — Enalteceu Shao enquanto olhava para o mapa com as peças.

— A resposta não é assim tão fácil. Respondi a Khestus cruzando meus braços.

— Não precisamos de comentários inúteis como os seus Arianne. Salientou Khestus apontando para mim.

— Quem você pensa que é para falar desse jeito comigo? — Respondi extremamente nervosa.

— Parem de discutir, vamos voltar ao que interessa. — Pontuou Shao batendo suas mãos na mesa.

Havia duas grandes forças contra o governo: Drake o tirano um dos piratas mais importantes do mar de aço e Galleon um estranho guerreiro vindo da cidade do sul. Ambos possuíam uma grande força militar, Drake com sua frota de navios e Galleon com seus exércitos.

Passado algumas horas. — A reunião foi produtiva, formamos uma aliança entre todos os grandes lordes para lutar a possível guerra que há de surgir. — Destaquei a Riel enquanto tirava minha armadura.

Riel era a escudeira de meu castelo, ele é a segunda no comando militar, o primeiro é Kanom. Ambos são extremamente leais a mim. Foi apenas com a ajuda desses dois que consegui superar a perda de Hanks.

— Espero que sim Arianne. — Respondeu Riel enquanto olhávamos para as caravanas partindo do terraço do meu quarto.

Junto com o final daquela reunião veio o inverno. O rigoroso inverno de Nassan. Estávamos preparados. Nas regiões próximas ao meu castelo, o inverno é conhecido por ser um acontecimento trágico.

II

A neve caía em minhas terras quando Kanom, depois de comer sua refeição, treinava um grupo de novos soldados no pátio central de meu castelo.

— Kanom não está sendo muito exigente com eles rainha Arianne. Comentou Riel enquanto olhávamos pela janela de meu aposento.

— Os soldados do forte vermelho e do vale são conhecidos por sua força há décadas, Kanom não quer que esse fato se perca com o tempo. — Respondi enquanto arrumava meu cabelo.

O forte vermelho apesar dos exemplares soldados possuía pouca força militar em questão de contingente. Hoje contamos com duzentos soldados treinados e cerca de trinta em treinamento, esses números não são nada se comparados com os cinco grandes reinos.

Por exemplo, a cidade do norte conta com quase dois mil soldados, todos ao comando de Khestus, o filho do herói.

— Riel vamos para nosso treinamento diário. — Comentei pegando minhas duas espadas no canto de meu quarto.

— Sim minha rainha. — Respondeu Riel.

Meu treinamento era o mesmo dos soldados veteranos, comecei-o assim que percebi que precisava ser forte, uma líder forte.

Eu vou te orgulhar Hanks. Pensava constantemente durante o treinamento.

A neve inclemente beijava o chão, e uma camada branca cobria todos os cantos do castelo. A única coisa que nos esquentava eram as lareiras e as tubulações de vapor que Ronan havia projetado para aquecer todo o castelo. Não era a tecnologia mais avançada de Astus porém servia para o seu propósito.

Depois de meu duro treinamento parti em direção ao salão principal para comer algo. Devido ao inverno que nos assolava, a comida estava sendo racionada. Assim sendo peguei um pequeno peixe que havia na dispensa e o coloquei próximo da lareira. Enquanto esperava o peixe esquentar encarava o fogo pensando.

São poucos nesse mundo que podem comer algo nesse inverno, é triste. Havia pouco a ser feito que pudesse mudar isso. Essa possível guerra esta tirando tudo dos pobres. Diferente dos demais reinos no meu forte não havia nenhuma cobrança de impostos, devido ao pouco comércio exterior, não havia muito ouro em circulação. O pouco que os mercadores possuíam vinha do comércio no Porto Duram.

Como meu marido dizia: se não conseguimos mudar todo o mundo que mudemos apenas o mundo que conhecemos. Logo após seu falecimento tomei suas palavras como minhas. Se não posso salvar o mundo que, pelo menos, salvarei o mundo de quem vive em meu castelo.

— Cuidado Arianne! Fogo! — Gritou o comandante Kanom.

Sem perceber havia deixado o peixe e toda a cortina acima da lareira queimar.

— Que descuido meu. — Respondi ajudando Kanom a retirar o que restou da cortina.

— Minha rainha o que acontece com você? O treinamento foi muito pesado? — Perguntava Riel preocupada comigo.

— Estava pensando muito. — Respondi envergonhada.

Passado algumas horas, após a bagunça no saguão principal decidi dar uma caminhada pelos muros do castelo. Vesti uma grossa capa de lã e parti.

— Kanom caminharei até a torre do céu. — Afirmei saindo de meus aposentos.

Durante a caminhada tive o vislumbre de um falcão voando em círculos no céu, o animal era lindo.

Quando observo de cima das muralhas meu castelo, percebo a grandiosidade do Forte Vermelho. Tenho orgulho de poder trazer paz para todos os meus domínios.

— É linda essa visão não é Arianne? — Comentou Riel se aproximando.

— Realmente é lindo. — Respondi orgulhosa.

Com o fim da tarde, chegou à aurora. Tais luzes eram uma atração para todos de Nassan, região próxima ao meu castelo. Meu pai dizia que essas luzes eram os espíritos de todos os heróis que já passaram por Astus.

O frio anunciou a chegada da noite.

III

Já fazia dois meses que o inverno havia chego. O clima de tensão ainda pairava por todos os cinco reinos naquela época, não se falava de Drake ou de Galleon há semanas, algo realmente preocupante. Havia acabado de comer quando o comandante Kanom veio até mim desesperado.

— Minha rainha, uma mensagem da cidade do oeste chegou. — Advertiu Kanom me entregando à carta.

Abri-a rapidamente.

Arianne, sua bastarda!

Venho por essa carta avisar a você que Miron, seu velho amigo, está morto! Conseguiu tomar a cidade do oeste e consequentemente todos os outros grandes reinos. Você como rainha de um dos últimos reinos amotinados ao meu governo deve se ajoelhar a mim, sua bastarda!

Rei Galleon Octavious I

— Merda!! — Exclamei socando a parede e chorando.

Kanom me vendo chorar colocou sua mão em meu ombro e disse:

— Arianne não pense em quem você perdeu, pense em quem você ainda deve proteger. O povo de Nassan precisa de sua rainha.

Suas palavras me tocaram aos poucos a tristeza que assolava minha mente foi se dissolvendo.

— Obrigado pelas palavras. — Respondi enxugando minhas lagrimas.

— Então Arianne, quais são suas ordens? — Perguntou Kanom.

— Preciso que você faça duas coisas extremamente importantes.

— Sim Arianne.

— Provavelmente os últimos reinos que Galleon citou na carta são os próximos ao meu devido ao inverno. Kanom eu preciso que você lidere uma caravana para o Forte das Lagrimas, leve todos que não puderem lutar do Forte Vermelho, incluindo minha filha Eliaj.

— Sim senhora! Partirei ao anoitecer.

Com Eliaj e os outros seguros, podia me prepara para o possível ataque. Passei o restante do dia ajudando Kanom com as caravanas.

— Arianne você tem certeza que deseja que eu vá? — Indagou Kanom.

— Kanom você é o cavaleiro mais leal que possuo, por isso deixo a você a função de proteger todas essas pessoas incluindo minha filha Eliaj. — Ressaltei sinceramente.

— É uma honra te servir Arianne! Protegerei Eliaj com minha vida. — Respondeu Kanom apertando o punho.

Sob a luz do crepúsculo, Kanom partiu rumo ao Forte das Lagrimas. A caravana conseguiu transportar cerca de mil e quinhentas pessoas. Driag conseguiria salvá-los.

Agora preciso resolver o que farei com os soldados.

— Arianne o comandante Kanom antes de partir disse que você queria me ver. — Respondeu Riel enquanto discutíamos.

Riel era uma mulher forte, teve uma educação militar desde sua infância, junto com Kanom, treinava os soldados do Forte Vermelho. Uma verdadeira líder.

— Riel reúna todos que puderem lutar e parta rumo ao norte. — Expliquei a Riel.

— Às suas ordens minha rainha! — Pontuou Riel.

Havia apenas uma última coisa a resolver: O encontro com Drake.

IV

— Siga-me, o Capitão Drake se encontra naquele navio. — Exclamou um dos piratas enquanto estávamos na canoa.

— Suba por aqui. — Apontou outro pirata.

Chegando ao navio pedi que os soldados que me acompanhavam permanecessem afastados enquanto caminhava lentamente pelo navio.

— Então você é Arianne a ruiva? — Exclamou uma voz rasgando a garganta.

O homem que havia dito trajava uma armadura negra com ombreiras em forma de escamas.

— Sim essa sou eu. Afinal quem é você?

— Sou Francis Drake. — Respondeu o homem.

Drake era um homem alto, possuía um amedrontador rosto pontudo além de carregar inúmeras cicatrizes.

— Sou um homem generoso Arianne. Pretendo te dar uma chance de preservar seu castelo. Basta me entregar o tesouro.

— Tesouro?

— Se você deseja ouro posso te pagar. Quanto é o bastante para você?

— Ouro não me interessa! Me entregue o tesouro de sua família.

— Não sei do que você está falando.

— Que assim seja, arrancarei essa informação de você à força. Balbuciou Drake puxando sua espada.

Meu plano não era lutar com Drake.

— Não vai tirar nada de mim Drake. — Respondi desembainhando minhas duas espadas.

— Quem você pesa que é!?

— Sou Arianne Rednail, Rainha do Forte Vermelho e a mulher que vai tirar sua vida. — Exclamei puxando minhas espadas.

V

Lutamos durante todo o entardecer.

Quando a luz da lua pairava sob nossas cabeças, ainda nos aguentávamos de pé, o confronto estava longe de acabar.

As palavras de meu falecido marido ecoavam em minha cabeça. Havia sangue escorrendo por toda minha armadura, meu sangue. Tudo seria decidido aqui. Com a força de vontade de uma Rednail me levantei. Para continuar lutando. Em minhas mãos, carregava as gêmeas, cobertas de sangue inimigo.

— Vamos acabar com isso logo. — Tossiu Drake de uma forma agressiva. Sua armadura que outrora era reluzente como noite estrelada se encontrava em pedaços. Por sinal, a minha também.

— Tente acabar se você conseguir. — Alfinetei também tossindo sangue. Minha resposta o enfureceu, logo voltamos a trocar golpes, novamente. Estávamos em estados críticos porém não seria isso que nos pararia.

— Você é bem mais forte do que aparenta Drake. Apontei enquanto defendia de seus vorazes golpes, apesar de minha idade a luta estava igual para nos dois.

Em um instante de fúria ataquei Drake com minhas duas espadas de forma que ele não conseguisse defender facilmente com sua espada longa.

— Diga-me Arianne por quem você luta? Seu marido morreu de uma doença. Miron, seu rei, está morto. Os grandes lordes das Terras do Oeste a veem como uma traidora e nesse momento eles estão se curvaram perante Galleon.

O desgraçado ainda conseguia se defender de meus melhores golpes enquanto discursava.

— Drake eu não luto por glória ou por objetivos como vocês piratas. Quando respondi comecei a acertar Drake nos vãos de sua armadura.

— Não sou como você, Drake. Sou uma mulher de princípios, não uma pirata. Nada do que você citou me importa. Luto pelos sonhos de meus falecidos heróis o rei Miron e Hanks, ambos quem jurei lealdade. Agora sou a herdeira e vou levar os sonhos deles comigo enquanto meu coração bater. E mesmo que morra neste navio alguém herdará meus sonhos e lutará por eles.

Meu discurso pareceu ter surpreendido Drake, que por sua vez teve um sobressalto e se distraiu. Aproveitei para acertar os flancos de sua armadura. A luta havia chegado a seu ápice.

Estávamos gravemente feridos.

Acreditando que tinha vantagem. Parei para olhar em volta, buscando apoio de meus soldados. Foi então que vi que já tinham sido mortos, Drake, aproveitou-se da minha distração e me atacou.

— Não! — Gritei histericamente. A espada de Drake havia perfurando minha coxa. Para me movimentar quebrei a espada de Drake a golpeando.

— Você está acabada Arianne! Diga logo onde está o tesouro.

— Nunca!!!

Continuamos lutando até a lua sumir do céu.

VI

A batalha daquele dia transformou o mundo. Drake e Arianne morreram pelas espadas um do outro. Com a morte de Drake, outros piratas ascenderam. Assim criando a sexta era dos piratas. Anos se passaram e Astus ainda repete o nome de Arianne. Alguns para se referir a uma traidora, outros para louvá-la como uma grande heroína. A verdadeira história se perdeu com o tempo.

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