Contramão

Eu sou a contramão. O caminho não feito, o desvio realizado em velocidade máxima na beira da curva. Minha máscara é a do caos, a perda de controle levando-me ao desconhecido, difícil dizer se a queda ocorrerá num penhasco, na extensão do barranco ou numa simples vala.

Faço livre interpretação dos sinais de trânsito, esquivo-me dos caminhões urradores. Tomo estradas de terra quase intransitáveis, ultrapasso lonjuras onde mal posso discernir vestígios humanos. Ganho trilhas e picadas, ignoro saídas, finais e voltas. Importa se sou homem ou veículo? Vale o agir, o dia vencido e a noite perdida.

Desconheço qual lágrima é minha quando o sol nasce, e daí? Que dúvidas assaltam a treva? Devo me preocupar enquanto rasgo a fronteira sem documentos, desprezo os berros dos guardas e arrebento a cancela? O outro lado mostra-se mais interessante, aparenta cantar notas extras para mim. Persigo o pássaro do entardecer, desta que parece a metade de todo passado, presente e futuro. Dirijo o resto da existência. O itinerário é perdido.

Mas se cada palmo de estrada é encontro, a apreensão tem significado? Onde estiver, serei alcançado pelo existir. Na ferrugem a adornar a placa, no hotel duvidoso, na chegada à casa, lá estou. Atalho, trevo, retorno. Por caminhos avessos, resgato o direito de escutar a pulsação da vida. É um privilégio, sol antigo de cara nova. Fortalecido, tomo o volante nas mãos e domino a via expressa. A alvorada desponta, o asfalto me conquista. Sigo a desconhecer rumo, pois deixei de cultivar ilusões. O rumo é que me tem.