Palavras esculpidas

Escultura por Jim McCarthy

Uma das melhores partes da prática da escrita é também bastante temida: o momento de burilar o texto, de tomar a alcachofra verbal e catártica depositada no papel/Word e transformar aquilo em uma composição genuína.

Limar repetições, rimas internas, cacofonias, verbos ou substantivos sobrando, rever sonoridade, ritmo, cadência, refazer frases, parágrafos, às vezes o escrito inteiro. Quantas vezes precisar: uma, duas, cinco, dez, cem. Até chegar na forma desejada. Embarcar na loucura controlada da palavra. Divisar sua plasticidade, sua concretude de símbolos.

Descobrir, pouco a pouco, que a linguagem não é construto acabado no qual não se pode mexer, mas sim argila sutil, disposta a entregar o segredo de suas metamorfoses apenas frente à paciência para buscar-lhe os meandros.

Isto é alegria: enxergar os vãos da escrita com frequência crescente, conhecer seus mistérios aos poucos, parágrafo após parágrafo. Peregrinar esta felicidade árdua, escavando páginas como o agricultor sulca a terra sob o sol para ali deixar as sementes. Adquirir o reconhecimento de suas próprias estações para plantio.

Escrever é conhecer mistérios pessoais também pertencentes a outros. É entender a forma de si e a forma humana, coletiva. Duro aprendizado, amado aprendizado. Vale a pena.

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