Sobre Pokemon, sobre adultos brincando e porque isso é bom

Crianças carregam os principais fundamentos da condição humana. Elas tem razão e emoção em equilíbrio. Não precisam escolher com qual lado vão agir, não tem como nós o corpo, a mente e o espírito em luta. Eles são plenos.
 
Então adultos vão retirando isso com suas regras, com normas, com exigências, com valores sociais impostos e nunca questionados. Adultos valorizam a guerra, a competição, o poder, o controle e a dominação dos outros por meio do conhecimento, da força física ou manipulação psicológica.
 
Crianças são naturalmente cooperativas, emotivas e amorosas. Retiramos essa essência introduzindo competição e violência. Nosso sistema não aceita desacordos nem diferenças.

As preparamos desde os primeiros dias de vida para que se adequem a essa nossa sociedade que é pautada no autoritarismo, exploração e desrespeito à diversidade.
 
 Estão crescendo e dizemos: Você não tem mais idade para isso!

Não tem idade para ser naturalmente bom, para brincar, ter contato com a vida natural, então as tolhemos de tudo o que pode empurrar de volta à essência da infância. Para sermos adultos passamos pela perda de sensibilidade, dignidade, respeito e senso coletivo da humanidade.
 
 Brincar é o ponto fundamental da vivência da criança com o mundo que a cerca.

“A brincadeira sendo uma atividade que seja plena e que tenha um fim em si mesma, é uma atividade vivida no presente, na realização, no encontro e no emocionar. É um momento de aceitação do corpo, e do tempo de cada um, o que traz o respeito de si e do outro, trazendo também responsabilidades sociais por conta de sensibilizações ocorridas nos processos da brincadeira.
(…) a negação da corporeidade e da emoção, corpo e mente, matéria e espírito, é o que acaba por nos levar a relações de neuroses, fanatismos, sofrimento etc. Assim, tentamos negar um sentimento vital para a nossa convivência individual e social: o amor.” [Gerda Verden-Zöller]

Pokemon GO me fez pensar que a gente não deveria crescer nunca. Que a gente tinha que ter direito de correr lá fora, brincar, jogar e rolar no chão sem ser julgado. Que parar de brincar nos tirou a nossa essência.

Eu penso que estamos muito inseridos no normal. Muito dentro do que se espera de adulto. Então esse jogo surge e temos essa oportunidade de podermos ser como crianças de novo, fazer aquelas coisas que nós deveríamos sim estar fazendo e não fazemos porque nos julgam.

É por isso que jogo se popularizou tão rápido. É por isso que abriram a piscina de bolinhas para nós e virou um sucesso.

Quais coisas paramos de fazer e que nossa essência ainda clama?

Quantas vezes você quis sentar lá fora, mexer na terra, pular corda ou fazer uma corrida de carrinhos?

Quantas vezes você quis sair sem destino, fugir desse sistema, agir de novo como criança?

Brincar exige interatividade corporal. E essa interação transforma. É o modo como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo que valida quem somos.
 Nossas experiências infantis determinam nosso senso de intimidade, aceitação e confiança. Quanto mais livres para explorar nossa essência, maior nossas possibilidades de experiências interacionais mais decisivas para o desenvolvimento de autoconsciência e de consciência social.

Então sejamos crianças de novo. Vamos brincar lá fora, sair de pijamas, chamar os amigos, correr e dar risada. Com jogos ou não.

“Brincar e amar só se vivem no presente, não se comprometem com o futuro –simplesmente acontecem em plena mutualidade.” [Luciana Loyola Madeira]