ST. PATRICK’S DAY DENTRO DO DUBLIN BUS

Como um romeno maluco me mostrou como é passar uma das datas mais famosas do mundo na Irlanda

A história ficou um pouco mais longa do que eu imaginava. No começo dou uma ideia geral e bem vaga de como interpretei o St. Patrick’s aqui em Dublin, mas se quiser pular direto pra narrativa desse fato cômico que aconteceu comigo pode ir diretamente para o terceiro paragrafo.


Ao contrário do que muita gente deve pensar — inclusive eu antes de presenciar, o St. Patrick’s Day na Irlanda não é uma festa assim tão grande. Fiquei com a impressão que a maioria dos irlandeses não está nem aí para a data e menos ainda para a festa. O maior motivo dos irlandeses celebrarem a ocasião hoje em dia se deve ao fato de que o St. Patrick’s atrai muitos turistas, o que movimenta a economia. Já ouvi muita gente dizer que a data é celebrada quase como um carnaval brasileiro, que acontece muita loucura e bebedeira e que as leis são deixadas de lado por algumas horas. A verdade é que a bebedeira é a mesma de todo final de semana em Dublin, mas com ainda mais turistas rondando o Temple Bar. A única semelhança com o carnaval do Brasil é o desfile que acontece na O’Connell Street, com vários carros alegóricos e percursionistas percorrendo a avenida. Mesmo assim, esse desfile é bem simples se comparado aos brasileiros. Apesar de ser bem bacana, falta emoção. Uma enorme multidão, composta principalmente por não-irlandeses, acompanha o trajeto, mas o silêncio é quase que absoluto. Um “Hey!” aqui e outro “Viva!” ali é tudo que você vai ouvir. Isso talvez se explique pelo fato de que tudo isso acontece pela manhã. Sim. Lá pelas dez horas da manhã você já tem que estar caçando um bom lugar se quiser acompanhar de perto a folia.

É óbvio que você vai encontrar gente celebrando e se divertindo muito mais do que o momento aparentemente pode proporcionar. O Temple Bar pode ser bem intenso pra quem tem grana no bolso e coragem pra pagar caro por algumas pints. Muita gente realmente vem com o intuito de fazer farra na data e isso acaba animando um pouco as ruas durante o dia, mas não se engane, não é nada daquilo que temos na cabeça com Leprechauns dançantes e cerveja infinita. Até porque é proibido beber na rua.


Logo pela manhã fui com minhas flatmates, pintados e trajando o verde, acompanhar a passeata bem no começo da O’Connell Street. Curti o momento, apesar de achar tudo bem simples e muito aquém do que minha imaginação sugeria. Tive que sair correndo logo que a última alegoria passou para pegar um ônibus e ir até Killiney porque eu ainda tinha que trabalhar naquele dia. Não vou me estender sobre esse trabalho. Ele é um capítulo à parte e merece muito mais destaque. O que interessa aqui é a volta. Ah, o Dublin Bus. Tem coisa mais sublime que andar de Dublin Bus?

Image: Shutterstock/Ivica Drusany

O trajeto de Killiney até o ponto onde eu desço dura mais ou menos uma hora. Sempre que eu ando de Dublin Bus eu sento no andar de cima e, sempre que possível, na primeira fileira porque além da vista ser melhor, você tem mais espaço para esticar as pernas. Se esses lugares estiverem ocupados, minha segunda opção é o assento do meio da última fileira, também pelo mesmo motivo das pernas (minhas pernas são compridas, pra mim é um fator primordial, me deixa). A linha saindo de Killiney não é muito movimentada e geralmente os assentos da frente estão disponíveis, mas não era o caso dessa vez. Logo, me dirigi diretamente ao fim do busão e sentei confortavelmente na minha aconchegante segunda opção. O dia estava cinza, chuviscando desde manhã. Eu estava numa transe melancólica-existencial que sempre rola quando você anda de Dublin Bus e vê muita gente estranha entrando e saindo a cada nova parada. Pra completar, tava tocando Radiohead no meu Spotify. Quando eu vi aquele cara cambaleante subindo as escadas e tentando achar um lugar para sentar, soltei aquele arzinho pelo nariz de quando você acha algo engraçado, mas não ri. Devia ter umas cinco pessoas sentadas no andar de cima naquele momento. Ele escolheu, ou melhor, foi forçado a se sentar logo ao lado da escada porque se tentasse andar mais com o ônibus em movimento com certeza iria cair. Assim que paramos no próximo ponto, ele levantou e veio como uma mola maluca na minha direção. Eu não gosto de socializar em ônibus, especialmente no Dublin Bus, mas nesse caso não tive opção. Ele viu que eu estava usando um headphone e respeitou, só fez um gesto com a cabeça indicando que queria entrar justo ali, na última fileira, no último assento. Com todo o resto praticamente vazio. Para que ele conseguisse realizar tal manobra, eu tive que encolher as pernas e deslizar um pouco pra esquerda. Ele sentou. Eu olhei pra ele e acenei com a cabeça. Não demorou um minuto e ele cutucou meu braço. Tirei o headphone e ele abriu um sorriso e também a jaqueta:

“Quer uma cerveja?” ele tirou não só uma, mas três latas do bolso interno da jaqueta.

Ahn… no, thanks mate.” Já seria por si só meio estranho aceitar uma cerveja de um bêbado desconhecido, ainda mais estranho fazer isso dentro do Dublin Bus.

“Ah, por quê? Você não bebe? Pegue aqui. Só uma. Por favor, me acompanhe!”

Meio intimidado com a situação — e também porque ele começou a falar meio alto e chamar a atenção, eu peguei a cerveja. Grande erro. Maior ainda foi o erro de abrir a lata. Puro instinto.

Tchiiiiiiii *som de lata abrindo*

Assim que eu cometi esse equívoco besta, percebi que havia entrado em um caminho sem volta. Eu ainda tinha uns 40 minutos pela frente sentado ao lado desse cidadão (que agora os olhos brilhavam de felicidade por encontrar um “parceiro” de bebedeira) com o ônibus ficando cada vez mais lotado. Agora, além de tudo, eu estava molhado e grudento graças a espuma daquela cerveja quente que deve ter tido um agitado percurso até chegar ali.

Cheers!

O gosto da cerveja quente e sem gás desceu tão amargo quanto o meu arrependimento de viver aqueles últimos dois minutos. Mas muito mais ainda estava por vir.

“Você é irlandês, né? Eu sei que vocês não rejeitam uma cerveja.”

“Não sou irlandês.” Tentando tirar algum proveito da situação já comecei a imaginar que tipo de conversa eu poderia ter com aquele sujeito que era, no mínimo, engraçado.

“Que? Como não? De onde você é então?” Pelo sotaque, eu logo percebi que ele era de algum lugar da Europa Oriental. Fiz um desafio para que ele tentasse adivinhar de onde eu era.

“Eslováquia? Noruega? Suíça? Alemanha?”

“Brasil.”

“Brasil? Noooooooossa, que legal! Eu gosto muito dos brasileiros. Agora adivinhe de onde eu sou.”

“Rússia?” Esse tinha que ser meu primeiro palpite. “Polônia?”

No, no, no. Rrrromênia!”

Nesse ponto eu já estava mais relaxado porque ele não parecia tão louco quanto no início. Ledo engano.

“Romênia, legal.”

“Não! A Romênia é um lixo!” Uma agressividade repentina e inexplicável me fez voltar a ver que aquele cara tava meio insano.

“Nunca fale com um romeno, você deve evitá-los.”

“Ué, mas eu tô falando com você.” Depois de uma leve blue screen, o HD dele voltou a girar.

“Não, mas eu sou legal. Mas sabe o que? Você nunca deve falar com nenhum estranho. As pessoas podem não ser tão legais quanto eu. Você tem que tomar cuidado. Eu só vim falar com você porque eu percebi que você é maluco.”

“Que eu sou maluco?” Quê???

“É, você é maluco. Você só não sabe, mas você é maluco, eu posso ver isso. Deixe eu te mostrar uma coisa.”

Até aí as coisas não estavam assim tão fora de controle, eu até estava me divertindo com aquele papo inusitado. Ele tomou uns goles da cerveja. Eu também, meio receoso. Demorou bem mais do que o normal para ele pegar o celular dele e “me mostrar uma coisa”. Primeiro porque ele não estava conseguindo pegar o celular segurando duas cervejas. Segundo porque acho que ele esqueceu que queria me mostrar algo e só ficou mexendo no celular enquanto eu segurava a cerveja dele, como ele havia me pedido. Acho que se eu não tivesse falado nada do tipo “cara, acho que você esqueceu tua cerveja porque tô segurando aqui faz um tempinho já” ele teria esquecido completamente de mim. Mas eu falei. E ele lembrou.

“Conhece essa aqui?” Ele colocou alguma música eletrônica russa no melhor estilo Dimitri Descobre que é Sexta-Feira. Simplesmente horrível. “Eu gosto muito dessas músicas!” Tudo bem se ele só quisesse me mostrar o seu excêntrico gosto musical, mas ele queria mesmo era festar. Aquele smartphone tinha o volume muito mais alto do que o normal, não era possível.

“Você sabe, aqui na Irlanda é difícil também. Eu não tenho amigos, então é difícil. Mas é porque eu não quero, eu gosto de ser sozinho. Eu sou louco, eu sei. Eu tenho que mudar, mas eu não consigo. Eu tenho medo de fazer mal pras pessoas então eu prefiro ser sozinho.”

Puta papo estranho. Agora o negócio já estava ficando meio inconveniente novamente, mas adivinha se eu consigo sair dessas situações?

“Eu tenho medo de fazer mal pras pessoas porque eu fico nervoso. E quando eu fico nervoso…” Ele apertou o punho e fez um barulho estranho com a boca. “Na Romênia eu tenho quatro inimigos mortais. Eu quero me vingar deles, estou treinando enquanto tô aqui porque quero minha vingança. Eles fizeram mal pra mim no passado e eu vou destruir a cara deles agora. Eu treino no meu quarto, tenho alguns pesos. Meu irmão me ajuda a erguer eles as vezes. Agora que eu sou forte vou acabar com aqueles caras.”

Sinceramente eu até fiquei interessado na história e queria saber o que os quatro inimigos mortais dele haviam feito que era tão imperdoável assim. Mas a mente de uma pessoa profundamente alterada pelo álcool não funciona linearmente e tão subitamente quanto ele havia começado aquela história ele partiu para outra.

“Olhe isso”, Talvez fosse o que ele queria ter me mostrado antes. Tirou uma carteira do bolso. Era uma carteira gorda, bem recheada. Couro, Louis Vitton. Ele abriu e me mostrou: “Quatro cartões! Achei na rua e quero devolver pro dono. Tem o endereço aqui.” O endereço era algum lugar em Naas, uma cidadezinha vizinha de Dublin.

“Então você vai até Naas pra devolver?”

“Não, eu estou indo pro centro.”

“Mas Naas é outra cidade, não é em Dublin. Você tem que pegar outro ônibus”

Fuck sake! Não interessa, eu vou até lá. Eu quero devolver.”

“Por que você não entrega pra Garda?” Essa foi minha melhor tentativa de colocar alguma razão naquela cabeça conturbada. Desculpe.

“Não, não. Você não entende. Eu quero ver a cara desse homem quando eu devolver a carteira pra ele. Eu quero ver a cara dele. Eu quero entrar na casa dele e espancar a mulher e os filhos dele.”

Eu não sei. Isso foi tão absurdo e repentino que eu nem soube o que pensar.

Hahaha, brincadeira. Eu só quero ver a expressão que ele vai fazer. De agradecimento. Só quero que ele me pague uma cerveja, isso é tudo que eu quero dele.”

“Não sei se é uma boa ideia fazer isso, cara. Já é tarde e é St. Patrick’s. Acho que é melhor você deixar isso pra amanhã, você pode pensar melhor.” Acho que essa foi a segunda.

“Isso é a carteira dele. É importante, ele deve estar sentindo falta, tenho que entregar hoje.”

“Tinha algum dinheiro aí quando você achou?”

“Não. Se tinha eu já gastei hehehe.”

O ônibus estava praticamente cheio. Coisa que normalmente não acontece nessa rota, mas a chuva e o feriado devem ter contribuído. Mudar de assento não era mais uma opção. Até porque com certeza ele iria querer falar — ou fazer, algo a respeito se eu fizesse isso. A música ruim e alta estava tocando desde aquela hora. Agora um vocal feminino agudo ajudava a batida e os sintetizadores. Todo mundo estava desconfortável com aquela situação absurda, mas ninguém falava nada. Quem olhasse era logo reprimido pelo nosso querido romeno, “as pessoas olham, mas não falam nada porque não tem coragem. Quero ver quem falar algo”. O pior de tudo é que eu estava completamente exposto sentado no meio da última fila, pois é o único lugar que não tem nada na frente. Obviamente todo mundo devia estar pensando que eu estava com aquele doido. Inclusive porque ele falava comigo sem parar. A essa altura eu já tinha escondido aquela cerveja no bolso interno da minha jaqueta (que fui obrigado a colocar mesmo com o ambiente abafado só para realizar tal artimanha) e convencido ele que iria beber depois. Ele não ficou muito feliz, mas aceitou.

O resto do percurso continuou um inferno. Mas as minhas raras respostas devem tê-lo desencorajado, pelo menos um pouco, a querer conversar mais. Indiquei o ponto onde ele falou que queria descer.

“Valeu. Você é muito gente boa. Não quer vir beber comigo?”

“Você não vai pra Naas devolver a carteira?”

“Ah. É mesmo. Só vou dar uma olhada no Temple Bar antes.”

Cheguei em casa e terminei a cerveja.

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