Eu, meus irmãos e minha vó.

Hoje, 25 de maio de 2017 a nossa vó nos deixou e por isso escrevo, quero guardar as lembranças e reviver os momentos. Dessa vez escrevo pra mim, apenas.

  • É quando a morte chega que descubro ter medo da vida.

Esta pessoa é a minha vó, Dona Elvira. Ela sorria muito, embora a vida a tenha feito permanecer sem ele em diversos momentos. ❤

Falar dela é falar da infância.

Sou a mais nova entre meus irmãos — a Merieli (maninha), é a mais velha, 36 anos de exemplo para mim. Meu irmão do meio — Vini, o teu silêncio tá falando — sempre penso o que ele tá pensando porque ele não fala muito.

Mas são eles que junto comigo irão reviver as coisas boas no dia de hoje. A casa da vó era só alegria, na infância tinha bolita de barro, moedor de milho, pintinhos debaixo da luz, poço artesiano com cano pra tomar banho, açude que ia até a canela e era tipo piscina pra gente, cocho de água para os passarinhos, hoje divididos com a Chica e o Bidu, batatas fritas que não podíamos comer antes do almoço, mas sempre ficavam prontas antes e era beeem difícil obedecer, prato de feijão novo transbordando de caldo, nega maluca que ficava guardada no armário da sala, (isso mesmo, pra gente não comer tudo), o “roubo” acontecia as vezes. Haha.

As folhas das bananeiras que viravam meio de transporte ao redor da casa é a coisa mais divertida que me lembro. Meus irmãos não eram bons nisso. Haha

Quando anoitecia a gente tomava banho e eu ia pra cama cedo, a vó vinha me dava um ovo na casca molinho e depois colocava as cobertas por debaixo dos meus pés, apagava a luz e íamos dormir.

Ah, eu e meus irmãos moramos com ela e o vô por algum tempo na infância, a mãe estava trabalhando, não era fácil sustentar três filhos. Mas estamos aqui saudáveis e cheios de sonhos.

Eu lembro também de como era legal reunir os primos todos lá na vó, mas me entristece não os ter visto mais por lá. Mas entendo que nem todo mundo leva o mesmo amor no coração, assim como não possuíram boas referências no crescimento. A vida é diferente para nós. Só peço que segurem um pouco suas lágrimas. Porque hoje é um dia para lembranças de quem fez as coisas certas, de quem cuidou e se preocupou de verdade. O amor não é só para alguns. Ou a gente tem, ou a gente nunca terá.

Ao decorrer do meu crescimento eu acompanhei e vi coisas quais não queria ter visto, vi minha vó em silêncio e sem coragem de escolhas. Quem sabe para mim seja difícil entender algumas coisas, mas hoje eu não quero mais tentar, quero só pensar que a vida dela valeu a pena.

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Sou feliz por ela nunca ter esquecido de falar “Oi bibi” mesmo que dez vezes ao dia. 😊

A vida estava indo aos poucos nos últimos dias, a idade foi exigindo mais dela e da gente que tá junto também, assim como exigiu dela quando a gente era criança.

Ela era cheia dos horários sabiam? De manhã tomava café com a mãe e o beto, 8h30 da manhã e lá vinha ela. Café morno, pão com mel e uma fruta e a barriga já enchia. Ah, e os remédios.

Assim seguia a rotina, almoço e jantar depois do jornal das 20h. Depois sentava na sala da mãe e lá ficava vendo televisão, com a cabeça sempre erguida mais que o normal. Entre as etapas rotineiras dos seus últimos dias, estavam ler o jornal e sentar la na sala dela como quem esperava os horários das atividades diárias.

Acho que a coisa mais difícil pra ela foi ter sido proibida de limpar o pátio, afinal, o esforço tinha sido proibido. Oh vó e que esforço foi viver todos esses anos não é?!

Das lições que levo da vida, é que iremos chegar ao fim da vida e quem sabe, não saberemos aquecer nosso café, porque usam uma máquina e não mais o fogão, “ela dizia que era o monstro”.

Depois dessa etapa não temos mais pra onde ir. Aceitamos.

A minha vó se foi sem eu ter dado tchau.

A última vez que a vi foi a dois finais de semana, a mãe e o beto haviam saído cedo, pus o despertador para acordar e dar o café da vó, escutei os pés se arrastando pela casa e fui lá.

Aqueci o café dela no “monstro” ela fez o pão e perguntou: “vai tomar também?” e eu disse que sim. Íamos tomar juntas. Era quase um pedido né.

Tomamos.

Ela foi ver TV e ali ficou, eu ia sair logo mais, ela estava tão concentrada na TV que não quis avisar e saí de fininho, se eu avisasse ela ia querer ir pra casa dela e lá ela só olhava as paredes e a solidão. Essa foi a última vez que a vi, olhei pela porta e a deixei ali.

Ela era forte.

Hoje tô a caminho de casa, verei ela de novo só que de um jeito diferente, ela vai estar de um jeito qual eu não desejaria nunca. Mas a vida tem etapas e jeitos de terminar. Hoje foi o dia dela.

Vó que a senhora descanse em paz.

Dos seus netos Gabi, Vini e Me.

Te amamos!

Ame seus avós, eles são as primeiras pessoas quais você vai morrer de saudade.