Te escrevo do tribunal
Esta noite nos meus sonhos
Meus anjos me convocaram
Em círculo, no escuro
Os anjos me indagavam:
‘’ Por que choras?
Qual é o motivo dos teus anseios?
Por que te consome nos teus vícios?
Por que não faz bem a ti mesmo?
Tu, que é a promessa
Que tanto falam por aí
Tu: aplaudido e saudado
Em todos os reinos?
Por que não casa,
Se entrega, depois de procura
Não acha no mundo
Alguém que, de fato, seja o sol da tua lua? ’’
E eu respondi:
Porque sou falho,
Não me entendo
Sou um eterno promotor
E o réu sou eu mesmo
Porque só me aplaudem
Aquele que não veem concerto
Só sou referência,
Dos que pouco viveram
Porque sou anel
Daqueles que não tem dedo
Porque sou a lanterna
Daqueles que são cegos
Sento em todos os tronos
Mas só nos desocupados
Eu sou imbatível
Porque só brigo com os não-articulados
Eu subo nos palanques
Sem ter nada a dizer
Eu tenho ânimo a tudo
Mas nada sei fazer
Eu sou um grande poeta
Para quem não gosta de ler
Eu sou despreparado
Pra grandes amostras de saber
Os anjos me escutaram
‘’Essa é a sua defesa?
De que pretendes nos convencer
O que tu estás advogando
É que deverias mesmo sofrer? ’’
Sim, eu respondi,
Convençam-me do contrário
E desde então estamos aqui
O diálogo não se deu por encerrado