Eu não vou

Eu não vou. Toca o despertador, ainda está escuro. Eu não vou. Me espreguiço. Olho para o lado e, mesmo dormindo, de olhos fechados, ouço-a dizer: “Você vai mesmo?”. Eu não vou. Grito silenciosamente. Lembro de quando era criança, obrigado a ir à escola e levantar da cama quando ainda estava escuro. Na época, achava aquilo cruel. Hoje sei que é. Eu não vou. Levanto, escovo os dentes. Não lavo o rosto para não acordar demais. Afinal, eu não vou. Desço, tomo os dois copos de água que dizem ser bom assim que você acorda. Mas pra quê? Eu não vou.
Troco de roupa. Faz menos de 10ºC lá fora, mas coloco a bermuda, a meia e o tênis. Lembro das aulas de Educação Física, tão cedo que ainda havia neblina. Nunca senti muito frio nas pernas, mas hoje não faria muita diferença: eu não vou. Coloco a camiseta-segunda-pele, que fica ajustada junto ao corpo. Por cima, um agasalho leve que me protege do vento frio que faz lá fora. Me alongo, não sei por quê. Eu não vou.
Faz frio suficiente para me arremessar imediatamente de volta a um sono profundo. Finjo que não é comigo. Caminho rapidamente as primeiras centenas de metros para aquecer, mas penso que é inútil: eu não vou. Daqui a pouco vou estar próximo do ponto onde supostamente devo iniciar minha corrida. Eu não paro. Continuo caminhando e digo que não vou: basta virar à esquerda na esquina e voltar para casa, em vez de virar à direita e parar sem correr pelos próximos 6km. Decido mandar essa voz dizendo “Eu não vou” calar a boca. Mas ela não para. Nunca. Eu também não posso parar. É por isso que eu vou.