Boris Diaw e seu Capítulo na História do Basquete

O basquetebol está repleto de nomes dos mais diferentes status em sua constituição. Além das estrelas, consagradas e com impacto midiático além do tempo, também existem os titulares relevantes, os reservas importantes, os preenchedores de lacunas específicas de elencos, até atletas que simplesmente compõe a equipe, mas longe de ter qualquer papel minimamente sofisticado no âmbito competitivo da coisa.

A história, de uma maneira geral, privilegia as grandes estrelas. Até mesmo quem não acompanha basquete conhece (ou já ouviu falar de) Michael Jordan, Magic Johnson, LeBron James, Kobe Bryant e Stephen Curry. São fenômenos que transcendem, fazem parte da cultura popular, aparecem em comerciais, clipes de rappers, grandes noticiários, por aí vai. E quem tem números para contar também costuma sobreviver melhor ao tempo, como a média de triple double de Oscar Robertson (futuramente Russell Westbrook), os 100 pontos de Wilt Chamberlain ou os milhares de títulos do Bill Russell.

Quando me pego pensando lá na frente, sobre o que poderei contar pras próximas gerações sobre os atletas que pude assistir, muitas vezes surge um pensamento estranho, mas que espero que entendam. É ótimo ver Stephen Curry revolucionar o basquete, a genialidade e longevidade física de LeBron James, os stepbacks e ritmo próprio de James Harden e o eterno comando de ações e tomada de decisões impecável de Chris Paul, mas não é exatamente dessas estrelas que terei orgulho de contar que assisti. Nisso, a mídia, os rankings, os livros, as estatísticas farão um trabalho excelente em não deixar esses fenômenos desaparecem. São histórias que seguem, têm fôlego e sobrevivem mesmo nos pulmões do fã mais casual. Os jogadores medianos, entretanto, não possuem as mesmas salivas longevas. Daqui muito tempo, me sentirei muito bem contando histórias de caras não-estelares, mas impactantes ao seu modo, que merecem um capítulo nas enciclopédias históricas por ter feito algo incrível, diferente, único, que o segmenta frente a outros milhares de outros medianos. Quer dizer, não encherei meu peito pra falar de Wesley Johnson, mas adorarei falar de outros personagens incríveis, tais quais Boris Diaw.

Questionado do porquê de Boris Diaw não ter as mesmas restrições de minutos de Tony Parker, o armador responde que é porque Pop quer que ele perca peso. Boris retrucou dizendo que não precisa de restrição, afinal, envelheceu bem melhor que seu compatriota.

Sua trajetória é algo que conta sobre todo o teor exótico do jogo do ala-pivô francês. Como prospecto, quando surgiu ali no comecinho dos anos 2000, entre 2001 e 2003, Diaw era um multi-facetado atleta, difícil de caber numa caixinha de posição. Dono de 2,05 metros de altura, 2,13 de envergadura e uma dita capacidade atlética acima da média pro padrão do basquete internacional, víamos um armador enorme, capaz carregar a bola da defesa pro ataque com passadas largas e fluídas, um balanço e técnica que faziam ser relevante, mesmo jovem, na primeira divisão francesa, além de um jogo de pés sacolejante no garrafão. Sua habilidade de passe, sempre sua melhor característica, fazia-no parecer um atleta de perímetro em tempo integral, um criador de jogadas.

Magrelo quando foi escolhido pelo Atlanta Hawks na posição 21 no Draft de 2003 (o mesmo de Tony Parker, fora LeBron, Carmelo, Wade, Bosh e, claro, Darko Milicic), pouco jogou bem até que fora transferido para o Phoenix Suns de Steve Nash, Amar’e Stoudemire e Leandrinho, em que se fixou na NBA no futurista esquema dos 7 segundos ou menos de Mike D’Antoni. Ali, sua tomada rápida e criativa de decisões, habilidade de espaçar a quadra, manter a bola girando e partir no contra-ataque foi uma commodity de ouro. E junto com o aumento de relevância na NBA, veio o peso. Em 2006, foi eleito o jogador que mais evoluiu.

Contudo, a época que mais chama a atenção de Diaw foi nos seus anos finais de NBA, como peça de rotação do San Antonio Spurs. Mais do que um complemento perfeito pra rotação de bola, constante movimentação e inteligência do esquema tático de Greg Popovich, estava ali todo seu carisma em time extremamente internacional. Culminou também com a expansão das redes sociais mundo afora, fora o bom humor das entrevistas. Ali, descobrimos o apaixonado por vinhos, café, fotografia, viagens, artes, comidas e todo tipo de fineza que também se traduzia em seu conjunto de habilidades. Boris nunca foi particularmente um jogador super engajado, seu problema de peso afetou sua carreira (o eterno “e se” em caso de forma física plena), seu papel deveria ser mesmo restrito a um quarto ou quinto melhor titular (ou sétimo homem de banco). Ainda assim, quando foi necessário, seu papel cresceu. Suas atuações defensivas em Playoffs até renderam o módico apelido de ‘LeBron Stopper’. Nas Finais de 2004, deu uma clínica de passes, um fino de trato de como encontrar buracos na defesa.

Em resumo, podemos tratar Boris Diaw como um jogador de perímetro que foi pro garrafão com o tempo, com leitura de jogo e técnica de passes que poucos armadores tiveram, com posicionamento defensivo acima da média pra suprir a falta de mobilidade causada pela forma física, hipster das artes, degustador de vinhos e cafés, piadista de entrevistas e carismático atleta que mostrou que há como ser relevante no basquete, ainda que não consiga manter a taxa de gordura corpórea nas metas da equipe de fisioterapia. É um conjunto que fica ainda melhor exemplado na série de imagens e vídeos que rodearam o texto.

Vai um cafezinho?

Embora não seja o melhor, o mais constante, atlético e inspirador atleta do basquete, é certamente um dos mais carismáticos, exóticos, divertidos e legais de sua geração. Em meio a defeitos, sua personalidade e talento sobressaem naquelas narrativas que não devemos esquecer. Que não esqueçamos das boas histórias da relevância temporária (Bola Presa TM). Que não esqueçamos Boris Diaw.