Cidade Maravilhosa

“Mermão!”, um ciclista me saúda, “Que cidade merda, namoral! Literalmente!”

Temos água na altura de nossos joelhos. As ruas estão alagadas. Minha cidade passa por um dilúvio, mais uma vez.

Isso não é um capítulo de Os Dez Mandamentos, é uma situação real. Como um Mad Max, só que do avesso. Nós queremos escapar da água ao invés de buscá-la.

Com meu guarda-chuva esgarçado pela tempestade, um vendedor dentro de uma lojinha me grita:
 “Vai pela sombra!”
 Eu dou uma gargalhada.
 Ele se sente autorizado a rir da minha situação e dá uma gargalhada maior ainda.
 Seu riso ainda ecoa pela rua quando chego numa encruzilhada.

Mãe e filha me perguntam pela situação de algumas ruas que eu tinha passado.
 “Tá tudo alagado.”, respondo.
 Elas decidiram seguir pela direção oposta.

A tragédia une as pessoas. Num caminho que normalmente faço em 10 minutos, interagi com seis pessoas desconhecidas na rua. Todas muito legais. Quantas vezes esse tipo de coisa acontece?

Uma dessas foram duas mulheres, deviam ter encerrado o serviço no supermercado, fiquei cinco minutos conversando sobre rotas viáveis em direção ao metrô. Quando disse que ia prosseguir, uma delas disse:
 “Vai lá meu, amor, obrigada”

Pulei algumas poças. Assim que cheguei no prédio, joguei o guarda-chuva esgarçado e o tênis (que estava furado) fora. “Cantando na Chuva” não teria sido tão clássico se fosse filmado durante uma tempestade. Eu entro pela porta de casa e corro para o chuveiro.

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